História

Uma breve história das cachaças de Paraty

Descubra a rica história das cachaças de Paraty, desde o período colonial até os dias atuais, explorando sua influência econômica, cultural e identidade local.
canavial em paraty

Descubra a rica história das cachaças de Paraty, desde o período colonial até os dias atuais, explorando sua influência econômica, cultural e identidade local.

Nossa jornada começa em Paraty, uma charmosa cidade no litoral do Rio de Janeiro. Este local histórico foi um importante porto comercial durante o período colonial e é amplamente reconhecido como um dos principais polos de produção de cachaça artesanal no Brasil. Em Paraty, a cachaça desempenhou um papel vital na economia local e na construção da identidade cultural da região.

coqueiro engenho
Moenda na Cachaçaria Coqueiro em Paraty

A introdução da cana-de-açúcar no litoral fluminense remonta ao século XVI, trazida de São Vicente. Em Paraty, a cana era cultivada nos morros, onde as chuvas constantes dificultavam a produção de açúcar. Com o uso de mão de obra escrava de africanos e indígenas guaianás, os habitantes locais encontraram na fabricação da aguardente de cana uma alternativa para impulsionar a economia.

ruina
Ruina de uma antiga roda d´água em Paraty

Durante o Ciclo da Cana-de-Açúcar, a produção de cachaça em Paraty adquiriu relevância econômica e política. O destilado era utilizado como moeda de troca por escravos na África e desempenhou papel significativo em conflitos históricos, como a Revolta da Cachaça de 1660. Este levante ocorreu em reação aos altos impostos impostos por Portugal para proteger a bagaceira europeia. Na mesma época, Paraty iniciou esforços para se emancipar de Angra dos Reis, tornando-se a Vila de Nossa Senhora dos Remédios de Paraty.

Com a descoberta de ouro em Minas Gerais, Paraty tornou-se uma rota estratégica para mineradores, escravos e comerciantes. A indústria da cachaça aproveitou essa expansão econômica, atingindo, no final do século XVIII, a marca de 87 engenhocas em funcionamento. A prática de transportar cachaça em barris de madeira conferia ao destilado uma coloração amarelada – um contraste com a preferência atual por cachaças brancas na região.

Arquitetura de Paraty com marcações da maçonaria
Casa comercial de 1834 no centro histórico de Paraty com influência maçônicas

O declínio da mineração trouxe desafios, mas a cidade encontrou prosperidade durante o Ciclo do Café, exportando o grão produzido no Vale do Paraíba. Em 1805, a indústria paratiense comercializava mais de 1.600 pipas anuais. Porém, a crise no café e a construção da ferrovia Dom Pedro II em 1855 reduziram a importância econômica de Paraty, que enfrentou dificuldades até o final do século XIX.

Antiga Roda DAgua
Roda D´Água com mais de 12 metros usada para moer uma enorme quantidade de cana-de-açúcar para produção de aguardente no final do século XIX.

Apesar da abolição da escravatura e das crises subsequentes, Paraty nunca abandonou a produção de sua aguardente. A palavra “paraty” tornou-se sinônimo de cachaça, evidenciando o prestígio da bebida. A criação da estrada Cunha-Paraty, em 1954, e da rodovia Rio-Santos, nos anos 1970, revitalizou a cidade como destino turístico, impulsionando novamente a produção de cachaça.

Cachaças de Paraty, seria a cidade a origem da caipirinha ?

Atualmente, Paraty possui sete produtores artesanais, com uma produção anual limitada, priorizando a qualidade. A cidade celebra sua tradição com eventos como a Festa da Pinga, realizada desde 1982, reafirmando sua importância histórica e cultural no cenário nacional da cachaça.

Os poucos engenhos que continuam produzindo cachaça seguem as receitas dos seus antepassados e acreditam na criação de uma identidade local – feito que garantiu o selo de Indicação Geográfica concedido pelo INPI em 2007 e o reconhecimento com Denominação de Origem em 2024. Ao conversar com os produtores, vemos que eles acreditam na valorização do processo de produção próprio de Paraty, como o uso da mesma variedade de cana, a fermentação utilizando leveduras selvagens e fubá de milho, a destilação de uma cachaça com teor alcoólico acima dos 42% e priorizando uma boa cachaça branquinha, aquela que prevalece o aroma da cana-de-açúcar.

carta antiga escrita a mão onde consta a menção a exportação de Laranjinha Celeste
No alambique da produtora Maria Izabel, encontramos uma carta de 1876 informando o estoque de cachaça que deveriam ser enviados para Portugal
cachaças Maria Izabel Laranjinha Celeste 
Em Paraty, Maria Izabel produz a aguardente composta Laranjinha Celeste

Para quem for visitar a cidade e quer uma amostra de uma produção tipica, não pode deixar de levar a Laranjinha Celeste, uma versão atual de um dos destilados mais famosos do período colonial, que leva folhas de laranjeira no processo de fabricação, dando uma cor azulada e um aroma cítrico à aguardente – um belo exemplar de bebida cheia de histórias e sabores – características próprias do destilado brasileiro.

Fotos: Felipe J. e Leo Bosnic

Agradecimentos: Diuner Mello – historiador

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fachada do alambique da cachaça Engenho D´Ouro
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Engenho D'Ouro

Alambique Engenho D’Ouro – Rodovia Parati – Cunha – Penha, Paraty – RJ
Maria Izabel em Paraty
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Maria Izabel

Cachaça Maria Izabel – Corumbê, Paraty – RJ
pinga coqueiro em paraty, sinônimo de cachaça
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Coqueiro

Cachaça Coqueiro – Paraty-Mirim, Paraty – RJ
alambique da cachaça Pedra Branca
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Pedra Branca

Alambique Pedra Branca – Paraty, RJ
placa para Paratiana
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Paratiana

Alambique Paratiana – Estrada da Pedra Branca, Km 1 – Zona Rural, Paraty – RJ
Quem assina

O autor

Autor · Comunidade Mapa da Cachaça
Em 2010, Felipe Jannuzzi fundou o Mapa da Cachaça, premiado projeto cultural com reconhecimento internacional e a principal referência sobre cachaça no mundo. Felipe é um dos sócios fundadores da Espíritos Brasileiros, empresa pioneira no mercado de produção de gin no Brasil, responsável pelo premiado Virga, primeiro gin artesanal brasileiro e o único no mundo que leva doses de cachaça na receita. Desde 2021, é um dos sócios da BR-ME, empresa especializada em produtos brasileiros, como vinhos, cafés, azeites, queijos e chocolates.
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