
Nossa jornada começa em Paraty, uma charmosa cidade no litoral do Rio de Janeiro. Este local histórico foi um importante porto comercial durante o período colonial e é amplamente reconhecido como um dos principais polos de produção de cachaça artesanal no Brasil. Em Paraty, a cachaça desempenhou um papel vital na economia local e na construção da identidade cultural da região.

A introdução da cana-de-açúcar no litoral fluminense remonta ao século XVI, trazida de São Vicente. Em Paraty, a cana era cultivada nos morros, onde as chuvas constantes dificultavam a produção de açúcar. Com o uso de mão de obra escrava de africanos e indígenas guaianás, os habitantes locais encontraram na fabricação da aguardente de cana uma alternativa para impulsionar a economia.

Durante o Ciclo da Cana-de-Açúcar, a produção de cachaça em Paraty adquiriu relevância econômica e política. O destilado era utilizado como moeda de troca por escravos na África e desempenhou papel significativo em conflitos históricos, como a Revolta da Cachaça de 1660. Este levante ocorreu em reação aos altos impostos impostos por Portugal para proteger a bagaceira europeia. Na mesma época, Paraty iniciou esforços para se emancipar de Angra dos Reis, tornando-se a Vila de Nossa Senhora dos Remédios de Paraty.
Com a descoberta de ouro em Minas Gerais, Paraty tornou-se uma rota estratégica para mineradores, escravos e comerciantes. A indústria da cachaça aproveitou essa expansão econômica, atingindo, no final do século XVIII, a marca de 87 engenhocas em funcionamento. A prática de transportar cachaça em barris de madeira conferia ao destilado uma coloração amarelada – um contraste com a preferência atual por cachaças brancas na região.

O declínio da mineração trouxe desafios, mas a cidade encontrou prosperidade durante o Ciclo do Café, exportando o grão produzido no Vale do Paraíba. Em 1805, a indústria paratiense comercializava mais de 1.600 pipas anuais. Porém, a crise no café e a construção da ferrovia Dom Pedro II em 1855 reduziram a importância econômica de Paraty, que enfrentou dificuldades até o final do século XIX.

Apesar da abolição da escravatura e das crises subsequentes, Paraty nunca abandonou a produção de sua aguardente. A palavra “paraty” tornou-se sinônimo de cachaça, evidenciando o prestígio da bebida. A criação da estrada Cunha-Paraty, em 1954, e da rodovia Rio-Santos, nos anos 1970, revitalizou a cidade como destino turístico, impulsionando novamente a produção de cachaça.

Atualmente, Paraty possui sete produtores artesanais, com uma produção anual limitada, priorizando a qualidade. A cidade celebra sua tradição com eventos como a Festa da Pinga, realizada desde 1982, reafirmando sua importância histórica e cultural no cenário nacional da cachaça.
Os poucos engenhos que continuam produzindo cachaça seguem as receitas dos seus antepassados e acreditam na criação de uma identidade local – feito que garantiu o selo de Indicação Geográfica concedido pelo INPI em 2007 e o reconhecimento com Denominação de Origem em 2024. Ao conversar com os produtores, vemos que eles acreditam na valorização do processo de produção próprio de Paraty, como o uso da mesma variedade de cana, a fermentação utilizando leveduras selvagens e fubá de milho, a destilação de uma cachaça com teor alcoólico acima dos 42% e priorizando uma boa cachaça branquinha, aquela que prevalece o aroma da cana-de-açúcar.


Para quem for visitar a cidade e quer uma amostra de uma produção tipica, não pode deixar de levar a Laranjinha Celeste, uma versão atual de um dos destilados mais famosos do período colonial, que leva folhas de laranjeira no processo de fabricação, dando uma cor azulada e um aroma cítrico à aguardente – um belo exemplar de bebida cheia de histórias e sabores – características próprias do destilado brasileiro.
Fotos: Felipe J. e Leo Bosnic
Agradecimentos: Diuner Mello – historiador






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