A Morte do Cabo

  • Publicado 13 anos atrás

Cemitério - Crônicas e Contos - A Morte do Cabo

Há vinte e cinco anos na corporação, Quirino se encontrava, por decisão própria, afastado do serviço.  Não envergava mais a farda militar e ausentara-se, havia muito, do quartel. Os superiores fizeram vista grossa esperando que ele se recuperasse da depressão.

Alcoólatra inveterado, já se encontrava na fase de dormir em porta de boteco, com o pandú cheio de maldita cachaça. A família o afastou de casa, pois era problemático e um tremendo pega mal.

Há tempos não trocava a roupa. Vestia os farrapos sujos. Os conhecidos quando o encontravam caído na sarjeta, o apanhavam e o colocavam debaixo de alguma marquise, para que ficasse protegido das intempéries.

Como a esposa recebia o seu soldo, não lhe repassando coisa alguma, não mais pagava as doses de pinga que tomava. Havia perdido o controle de tudo, e a família cansada de procurar socorro pra ele.

Amanheceu esticado na porta de um bar. Ao ser chamado, não respondeu. Levaram-no ao Pronto Socorro e, dado a sua gravidade, foi transferido para hospital militar na Capital.

Acometido de delírio alcoólico, informou ao médico que o atendera que há dias não dormia. Tudo fruto da sua imaginação.  Recebeu medicação soporífica e apagou. Três dias após, com o entra e sai de plantonistas e residentes, uma enfermeira estranhou o fato da sua constante imobilidade. Solicitou uma verificação médica e recebeu como resposta que o paciente havia falecido.

A unidade militar de origem enviou uma viatura com a sua família para o enterro. Quirino vestido de terno barato, deitado em cima de uma pedra de mármore na capela. Como estava cataléptico, permanecera ativa a sua audição tendo passado a noite a escutar os dois recrutas que o velavam, a jogar palitinhos, bem perto dos seus ouvidos – lona… Dois!…Três do jeito que você vier!… Canta otário!… Marraia! Uma latomia.

Como permanecia vivo e, sendo Junho, estava já a morrer, isto sim, de frio. As suas costelas geladas pelo contato com o mármore… O seu corpo duro. Nada mais se movia.

Já pela manhã, a família chegou ao maior chororó, E ele escutando tudo!

Instalou-se o desespero! Rezou a Virgem Maria pedindo dar-lhe a voz, para avisar a todos da sua condição de vivo.

O sargento encarregado do enterro por telefone solicitou uma Kombi para conduzir o finado ao cemitério. Chegando a viatura, dirigida por um soldado ressacado, o superior, ao vistoriar o veículo, notou um pneu já murcho, e mandou fazer a troca. Foi informado que não tinha estepe.

Deu uma dura, no condutor, mandou-o retornar ao depósito e providenciar a troca urgente, assim como arranjar um sobressalente. Esta demora na logística salvou a vida de Quirino! Pelejou para gritar, mas os seus lábios não se moviam. Seria enterrado vivo! Jurou a Deus que, se retornasse, seria um cidadão exemplar, um missionário da palavra. Era a sua última chance o atraso da viatura.

Após dezenas de tentativas, conseguiu falar baixinho! – Fia… (apelido intimo da sua esposa), O silêncio que se segui foi sepulcral! Ninguém acreditou no ocorrido. Prestaram, entretanto atenção à sua boca. Ele sentiu o clima e tentou mais forte: FIA… Foi uma corredeira geral. Não ficou ninguém!

No Jardim do hospital, o sargento vinha em direção à capela, e vendo o estapafúrdio, imobilizou um fujão, quando obteve a informação que a alma do cabo morto os perseguia! Como era destemido, o militar, partiu para o confronto com o “de cujus”.

O mesmo, amarelo, gélido, cambaleante, escorando-se na parede, com a calça do terno pega-franga, entrou na enfermaria ortopédica, em busca de uma manta de lã, para se aquecer. Os que lá estavam internos, vendo o morto, arrancaram o soro e deram no pé. Muitos desses aguardavam o laudo para se aposentar por invalidez. Foi um alívio para os bolsos do então INPS.

Conforme prometera, Quirino iniciou a vida de pregador, sendo visto sempre nas esquinas e portas de bar, contando a sua história de cachaçadas. Como exemplo aos bebuns, que a tudo escutavam em desalento, pois só entenderiam se passassem pelo coador, que ele passou!

 

 

foto Creative Commons: Eduardo Loureiro

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