Artigos

Cachaça Maré Alta: um legado de Paraty

A cachaça Maré Alta encerrou as atividades em 2004, porém essa aguardente deixou um legado na história cachaceira de Paraty, RJ.
Casé e Dom João

A cachaça Maré Alta de Paraty tem uma história curiosa. Entre seus criadores está João de Orleans e Bragança, bisneto da Princesa Isabel. A cachaça encerrou as atividades em 2004, porém foi um marco para a cultura de Paraty, que sente até hoje o legado com a ‘Festa da Cachaça’ e o surgimento da cachaça Paratiana

Paraty e produção de cachaça

A cachaça Maré Alta foi produzida na cidade fluminense de Paraty e deixou um legado na história da cidade, que é um dos berços da cachaça no Brasil.

Em 1805, a indústria da cachaça paratiense já produzia e comercializava mais de 1600 pipas por ano (cada pipa tem em média 490 litros). Produzir aguardente teve tanta importância que o nome da cidade até virou sinônimo de cachaça de qualidade. John Luccock, comerciante inglês, em 1818, anotou que Paraty desfrutava “de considerável comércio com a capital; sua aguardente, acima de tudo, é de grande aceitação”.

Já no século XX, surgiram na cultura popular menções a Paraty como sinônimo de cachaça.

“Em vez de tomar chá com torradas, tomou parati” – “Camisa listrada” (1935), canção escrita pelos irmãos Valença e eternizada na voz de Carmen Miranda

A importância de Paraty como pólo produtor de cachaça fez com que os produtores locais fossem reconhecidos em 10 de julho de 2007 com o selo de Indicação Geográfica (IG) do INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial).

A história da cachaça Maré Alta

A data de fundação da cachaça Maré Alta é um pouco confusa, pois dizem que a marca foi criada na década de 1970 por um estrangeiro chamado Douglas Reid, conhecido pelos mais antigos da cidade como um dos criadores do Festival da Cachaça de Paraty, evento criado em 1982.

Por volta dos anos de 1990, o príncipe João de Orleans e Bragança, bisneto da Princesa Isabel e muito conhecido na cidade como Dom João, comprou o alambique de Reid e tocou uma produção tímida de cachaça Maré Alta, que era comercializada em uma garrafa de porcelana.

Ruas de Paraty

Em 1997, com a produção da Maré Alta já quase parada, Dom João teve uma prosa com o Carlos José Miranda, o Casé, um jovem entusiasmado com a produção artesanal de cachaças e descendente de tradicionais produtores de cachaça, sendo que 3 dos 7 alambiques de Paraty são de parentes.

Neste encontro, o jovem empreendedor apresentou uma cachaça que ele havia elaborado por hobby e Dom João gostou do sabor. Na época, João tinha 82 anos e Casé 27, porém a diferença de idade em nada atrapalhou a parceria que iria se estabelecer com uma sociedade. Casé relembra a proposta que recebeu do príncipe:

“Ele me disse: ‘olha Casé o meu alambique está parado, mas se você quiser fazer essa cachacinha boa lá, nós podemos nos tornar sócios’ e foi aí que nasceu essa sociedade louca de um jovem de 27 com um senhor de 82”, conta com humor Casé.

1999, uma nova safra da Maré Alta

A sociedade entre Dom João e Casé deu certo e no ano de 1998, o jovem paratiense entrou para dentro do alambique e começou a produzir cachaça em parceria com o Príncipe. Lá ele aprendeu com Jeremias, o mestre alambiqueiro, técnicas de destilação e muito mais sobre os processos de produção de uma boa cachaça. No ano de 1999 foi relançada no mercado uma versão da cachaça Maré Alta, com uma formulação diferente e uma embalagem mais moderna.

A marca contava com dois rótulos: um de cachaça envelhecida que passava por barris de carvalho, e outra de uma cachaça branca, que descansava em madeira de amendoim – que não interfere na cor da bebida.

Casé relembra que as mudanças deram muito mais gás para a marca, que em pouco tempo começou a ser reconhecida pela mídia e especialistas, sendo considerada na época pelo ranking da Revista Playboy uma das 5 melhores cachaças do país.

“Era uma cachaça encorpada, bem ao estilo de Paraty mesmo com 46 graus GL”, relembra o produtor.

Carlos José Miranda, o Casé
cachaça paratiana
As garrafas mais modernas de cachaça Paratiana

O fim da sociedade e a criação da cachaça Paratiana

Em 2003, Casé resolveu deixar a sociedade para entrar de cabeça na criação de uma outra marca de cachaça feita em parceria com o irmão, Paulo Eduardo Miranda: a Paratiana. Desses 6 anos de experiência de sociedade da Maré Alta, o produtor paratiense levou muito do conhecimento para o novo alambique:

“A Paratiana é uma cachaça bem parecida com a Maré Alta. Eu trouxe para a linha ouro um blend de carvalho inglês e francês e a prata é feita com barris de jequitibá, que interfere pouco na cachaça e tem um perfil muito presente do gosto cana ”, comenta Casé.

A cachaça Maré Alta encerrou as atividades um ano depois da saída de Casé, em 2004, sendo que algumas unidades da aguardente ainda eram vendidas em empórios da cidade e hoje, muito provavelmente, deve figurar em algumas coleções particulares.

alambique paratiana
Atualmente Casé e o irmão Paulo tocam a produção da Paratiana, um dos 7 alambiques de Paraty em atividade
Perguntas frequentes

Descubra mais

Quais cachaças da Paratiana têm selo do Guia Mapa da Cachaça?

A Paratiana é a marca que Casé criou depois de deixar a Maré Alta, e no Guia Mapa da Cachaça 2024 ela levou dois Selos 4 Estrelas: a Paratiana Tradicional, branca de inox, e a Labareda, blend envelhecido, ambas com 90,5 pontos. Com o Selo 3 Estrelas vieram a 4 Madeiras (88,5 pontos) e a Paratiana Ouro (88 pontos).

Além da Paratiana, Casé recuperou outra cachaça histórica de Paraty?

Sim, a Labareda. Ela surgiu na Fazenda Graúna, em Paraty, na década de 1930, sumiu do mercado nos anos 1960 e foi relançada em 2014 pelo próprio Casé — o mesmo produtor que estreou na cachaça com a Maré Alta. Desde 2015 a Labareda combina 30% de cachaça envelhecida em jequitibá com 70% em amburana.

Existe alguma cachaça rara ligada a esse legado de Paraty?

Sim. A antiga Paratiana Prata era armazenada em tonéis de amendoim até 2005, quando Casé migrou para o jequitibá-rosa. Aquela versão em amendoim saiu de circulação por uma exigência do Ministério da Agricultura sobre o rótulo, e as garrafas remanescentes viraram itens de colecionador, como conta a degustação da Paratiana Prata Amendoim.

Que drinques levam cachaça Paratiana?

Uma pedida com pegada literária é o Jorge Amado, drinque inspirado em Gabriela, Cravo e Canela, que conversa com a Gabriela Paratiana. Para algo bem local, há o Pingado de Paraty, mistura quente de café coado, garapa e cachaça branca.

Produtor deste artigo

placa para Paratiana
Produtor deste artigo

Paratiana

Alambique Paratiana – Estrada da Pedra Branca, Km 1 – Zona Rural, Paraty – RJ
Quem assina

O autor

Ana Paula Palazi
Autor · Comunidade Mapa da Cachaça
Ana Paula Palazi é jornalista pela PUC-Campinas, mestra em Divulgação Científica e Cultural e especialista em Jornalismo Científico pela Unicamp. Atuou por dez anos como produtora e repórter de telejornal. Foi repórter de rede em emissora afiliada da Record TV, de 2016 a 2020. É produtora de conteúdo, atuando em trabalhos sobre cachaça, inovação e empreendedorismo.
Da mesma marca

Cachaças Paratiana

Paratiana Prata
R$ 109
Gabriela Paratiana
R$ 75
Paratiana Ouro Extra Premium
R$ 595
Paratiana Labareda
Paratiana 4 Madeiras
Paratiana Ouro
Histórias de alambique no seu e-mail

Visitas a produtores e avaliações do painel — toda semana, sem spam.