Patrimônio cultural imaterial do Amapá desde 2019, a gengibirra acompanha as rodas de Marabaixo e tem preparos transmitidos por famílias e comunidades.

Nos barracões do Marabaixo, tocadores marcam o ritmo nas caixas enquanto homens, mulheres e crianças dançam em roda. A gengibirra é servida gelada e à vontade aos marabaixeiros e convidados, junto do caldo de carnes.
Na versão descrita no dossiê de registro do Marabaixo, elaborado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a bebida leva gengibre, água, açúcar e cachaça. A Lei estadual nº 2.454, de 5 de dezembro de 2019, declarou a gengibirra patrimônio cultural imaterial do Amapá. O reconhecimento estadual veio após o registro do Marabaixo no Livro das Formas de Expressão do Iphan, em 8 de novembro de 2018.
O Marabaixo acontece sobretudo nas festas do Divino Espírito Santo e da Santíssima Trindade, no contexto do catolicismo popular. Seus cantos incluem os versos chamados ladrões, acompanhados pelo toque das caixas e pela dança.
Fazedores de gengibirra integram a divisão de tarefas da comunidade. Na sede da associação, na casa do festeiro ou na casa de moradores que dominam o preparo, eles produzem a bebida; durante a festa, a comunidade a distribui gratuitamente no barracão a marabaixeiros, grupos visitantes e público geral.


O dossiê do Iphan documenta um procedimento recorrente: o gengibre é cortado, batido com água, coado e misturado com açúcar e cachaça antes de ser levado para gelar. O mesmo documento registra variações, como ferver o gengibre ou acrescentar especiarias, leite condensado e casca de abacaxi.
Há também versões sem cachaça. Em relato publicado pela Prefeitura de Macapá em 2021, a marabaixeira Laura Ramos contou que a receita aprendida com a avó obtinha o teor alcoólico pela fermentação do gengibre, iniciada cerca de 20 dias antes do Ciclo do Marabaixo. O açúcar entrava depois da coagem; no relato de Laura, gerações anteriores usavam mel de abelha, e sua avó acrescentava cravo-da-índia. O Iphan voltou a registrar essa diversidade em 2025 ao descrever a gengibirra como bebida fermentada, alcoólica ou não.
A marabaixeira Solange Costa apresentou a versão abaixo ao Portal Amazônia em 2023. O preparo pede duas garrafas de cachaça com 600 ml cada, sem indicação de tipo, marca ou procedência. No ano-base 2025, o Amapá não tinha estabelecimento elaborador nem cachaça registrada no Ministério da Agricultura e Pecuária, conforme o Anuário da Cachaça 2026.

Receita completa
A palavra tem outro uso fora do barracão. Em Os Sinônimos de Cachaça, gengibirra aparece entre as denominações populares do destilado. A combinação dos dois ingredientes também ficou impressa no Rótulo histórico de aguardente composta com gengibre Itapura. No Marabaixo, o mesmo nome identifica a bebida preparada para ser compartilhada durante as festas.

Fontes: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Dossiê de Registro — Marabaixo (agosto de 2018); Diário Oficial do Estado do Amapá nº 7.057, Lei nº 2.454, de 5 de dezembro de 2019; Ministério da Agricultura e Pecuária, Anuário da Cachaça 2026 (ano-base 2025); Prefeitura de Macapá, “No Dia da Cachaça, gengibirra mostra o empreendedorismo feminino atrelado às manifestações culturais afromacapaenses” (2021); Portal Amazônia, “Gengibirra: conheça a bebida símbolo da cultura amapaense” (2023); Iphan, “Marabaixo ganha Plano de Salvaguarda” (2025).
