
Há um sentimento bonito em levar cachaça para a Baixada Santista em 2026: é como levar o vinho para a Serra Gaúcha ou o cacau para o sul do Bahia. A região do litoral de São Paulo não está descobrindo a cachaça – ela é, muito provavelmente, um dos lugares onde a cachaça nasceu, há quase cinco séculos. É desse fio que a Semana da Cachaça na Baixada Santista puxa a sua primeira edição, entre 26 e 30 de agosto de 2026, quando oito casas da região passam a servir coquetéis autorais criados especialmente para o evento.
A iniciativa é da Famigerada, em parceria com os bares participantes, e trazendo uma nova cachaça da destilaria de Mato Verde, Minas Gerais: a Geraizêra Prata. Participam do evento os bares: Ybatinga, Revo, 1906 Rooftop, Paru, Tocaia, F!tz, Anzol e Amendoeiro, cada casa desenvolvendo a própria receita. Os coquetéis participantes saem por R$ 31.





A Baixada Santista costuma aparecer nos guias como litoral, porto e futebol. Raramente associada à cachaça. Mas a região de São Vicente abrigou alguns dos primeiros engenhos coloniais do país e guarda registros dos mais antigos associados à produção de aguardente de cana em terras brasileiras.
O endereço tem nome e ruínas: o Engenho São Jorge dos Erasmos, também chamado de Engenho do Senhor Governador, erguido entre 1532 e 1534 na antiga capitania de São Vicente. Começou como empreendimento de um grupo que incluía Martim Afonso de Sousa e depois passou às mãos da família de Erasmus Schetz, mercadores de Antuérpia — daí o “dos Erasmos” que ficou. Luís da Câmara Cascudo é uma das vozes que sustentam a tese de que a primeira cachaça teria sido destilada por volta de 1532, ali. As ruínas estão hoje na divisa entre Santos e São Vicente e pertencem à Universidade de São Paulo, que as recebeu em 1958.

Vale o rigor que a própria campanha da Famigerada adota: a Baixada é apresentada como um dos berços da cachaça, não como origem exclusiva. A disputa historiográfica com os engenhos do Nordeste segue aberta, e é ela que torna o assunto interessante. O que a marca de Haroldo quer criar é justamente esse diálogo sobre a origem do destilado mais brasileiro do mundo, que tem raízes paulistas.
“A cachaça começou cedo por aqui. Queremos aproximar essa história daquilo que os bares da Baixada produzem hoje: uma coquetelaria criativa, contemporânea e profundamente brasileira.”
Haroldo Narciso, fundador e master blender da Famigerada Destilaria
Antes de ser master blender, Haroldo Narciso passou no departamento de artes de grandes empresas.. Foi motion designer em emissoras brasileiras, Band, SBT e Record, com passagem por programas como o Jornal da Band e o Domingo Legal. Em 2016 largou a televisão. Em 2017 fundou a Famigerada.
A virada não foi de carreira apenas: foi de rota. Único dos doze irmãos nascido na cidade, Haroldo cresceu em São Paulo com o interior chegando pelas mãos da mãe, dona Geralda, que trazia cachaça de Minas nas visitas. “Aprendi a cheirar e a provar cachaça pelas mãos da minha mãe”, ele costuma dizer. A marca é uma homenagem a ela – e o nome vem do conto “Famigerado”, de Guimarães Rosa, aquele em que uma palavra difícil carrega significados que dependem de quem a diz.

A Famigerada nasce em Mato Verde, no norte de Minas, na Serra Geral, onde a família cultiva a cana e onde o mestre alambiqueiro Geraldo Neri, o Teguinha — conhecido de infância, toca o alambique. Do outro lado, São Paulo: é onde a marca é registrada, envasada e distribuída. Mineira de nascença, paulista de registro. Essa dualidade virou a espinha dorsal do discurso da casa, do rótulo ao audiovisual — de Famigerada, o Filme (2024), dirigido por Tiago Soban, à série Coisa de Roça, que Haroldo criou usando inteligência artificial generativa com direção de arte de quem passou boa parte da vida profissional numa ilha de edição.
No portfólio, a Famigerada Bruta abre o caminho da branca; a Mansa descansa em jequitibá-rosa e jequitibá-branco; a linha Raízes do Brasil aposta em madeiras nativas: bálsamo, imburana, ipê, castanheira. Na avaliação sensorial às cegas do painel do Mapa da Cachaça, a Famigerada Imburana marcou 95/100 e a Mansa 2020, 93/100.
A escolha da Geraizêra para a Semana da Cachaça na Baixada Santista não é casual. Ela é a cachaça mais afetiva e mais territorial do portfólio: uma homenagem aos pais de Haroldo, José Narciso e dona Geralda, ambos nascidos na Serra Geral, em Rio Pardo de Minas. O nome vem de “Gerais”, e por extensão dos geraizeiros, comunidades tradicionais do norte mineiro que vivem da agricultura familiar, da criação em pastos nativos e dos frutos do Cerrado, como o pequi e o buriti, e cuja identidade se formou na convivência histórica com o próprio território.

A Geraizêra Prata tem 42% de graduação alcoólica e é armazenada em dorna de amendoim-bravo, madeira brasileira que trabalha mais no equilíbrio e para amaciar a cachaça branca, do que necessariamente contribuir de maneira mais preponderante nas características sensoriais do destilado. Segundo Haroldo, o resultado é um aroma levemente amadeirado, paladar agradável e retrogosto adocicado. Cada casa participante recebeu seis garrafas para desenvolver seus coquetéis. A proposta é justamente essa: mesma cachaça, oito leituras.
O público retira gratuitamente um passaporte em qualquer casa participante. A cada coquetel oficial consumido, um carimbo. Quem reunir três carimbos de três casas diferentes envia a foto do passaporte pelo WhatsApp da organização até 4 de setembro, às 23h59. As 30 primeiras validações aprovadas ganham convite para a masterclass Do Engenho ao Copo, em 14 de setembro, às 19h, na Revo.
O encontro será conduzido pelo próprio Haroldo e percorre o caminho completo: corte da cana, destilação, madeiras brasileiras, perfis sensoriais e o papel atual da cachaça na coquetelaria — com degustação orientada e conversa aberta. A operação da Semana conta com apoio logístico da Chopp Cerva, distribuidora da Famigerada na Baixada Santista.
“Durante muito tempo, a cachaça foi afastada das chamadas boas mesas. A Semana é uma forma de devolvê-la ao centro da conversa, com história, qualidade e criatividade, mas sem perder sua identidade brasileira.”
Haroldo Narciso
Além da riqueza sensorial no copo, o melhor argumento para uma semana dedicada à cachaça está na importância histórica deste pedaço do litoral brasileiro. São quase quinhentos anos de cana na mesma faixa de costa. Das ruínas preservadas do Engenho São Jorge dos Erasmos à sofisticação de um rooftop em Santos: essa é a trajetória da cachaça ao longo dos séculos – e motivo de sobra para celebrar um dos berços da bebida que o Brasil inventou.
É como diz o Manifesto da Semana assinado pela Famigerada e todos os bares participantes:
Acreditamos numa cachaça que conhece suas raízes,
mas não vive presa a elas.
Que nasce do Brasil profundo
e encontra lugar na coquetelaria contemporânea.
Que pode ser simples sem ser menor,
sofisticada sem perder a verdade.

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