
O Cerrado Mineiro é uma região com muita cachaça especial, filha de um terroir próprio que ainda não foi bem mapeado nem reconhecido pelos especialistas e pelos consumidores. É um lugar de clima quente e chuva escassa, onde a cana divide espaço com um dos biomas mais ricos do país, e que mesmo assim não tem indicação geográfica, não tem rota turística consolidada e não carrega o peso simbólico que as cachaças de Salinas ou Januária construíram ao longo dos anos.
Minha primeira visita à região foi a Patos de Minas, na Leblon, destilaria que produzia uma das melhores cachaças em carvalho francês que já pude degustar. A Leblon Signature Merlet, cachaça que não encontro mais no mercado, era um blend envelhecido de dois a três anos em barricas novas de carvalho Limousin, com assinatura de Gilles Merlet, mestre de adega francês e produtor respeitado de destilados em Cognac.

Recentemente voltei àquelas bandas, dessa vez a Monte Alegre de Minas, para conhecer a produção da Vibra Brasil. Saí de São Paulo, terra que tem seu oeste dominado por um mar de cana, e cheguei numa região onde a cana compartilha o espaço com a terra do cerrado.
A Vibra Brasil nasce da parceria entre o empreendedor Givago Pires Alvarenga e o Engenho Néctar do Cerrado, conduzido pelo agrônomo Walter Vieira da Cunha. O Walter é professor universitário e doutor em genética e melhoramento de plantas pela UFU, e leva o engenho com um rigor de pesquisador que se percebe em cada etapa, do canavial à destilação, do controle sensorial à escolha de práticas sustentáveis.

O engenho foi fundado em 2002, teve a primeira safra em 2003 e quase encerrou as atividades antes de o Walter assumir o negócio em 2007, junto com a esposa, a Vanessa. O alambique virou o projeto do casal e se reconstruiu sobre bases técnicas sólidas, com irrigação precisa para compensar a baixa pluviosidade, alambique de cobre, levedura selecionada e uma produção deliberadamente pequena, entre 4 a 5 mil litros por safra.

A opção pelo volume pequeno se estende ao canavial de meio hectare, onde a colheita é manual, feita no facão, cana a cana. A variedade usada é a RB5242 plantada em solo arenoso e clima quente. O corte manual é mais lento e mais caro do que colher com máquina, mas entrega ao engenho uma matéria-prima selecionada no ponto, em uma moenda a poucos metros do canavial.

Outra coisa que gosto de mostrar nas minhas visitas, e que aqui aparece bem, é o aproveitamento do bagaço: o que sai da moenda vira o combustível da caldeira, que por sua vez move a destilação. É um ciclo fechado, regra nos bons engenhos de alambique, e que dificilmente aparece nas fotos bonitas de garrafa.

A identidade sensorial da casa está nas dornas, e são quatro madeiras nativas: amburana, bálsamo, castanheira e jequitibá. Quatro leituras diferentes do mesmo destilado.
Na visita eu pude provar as madeiras direto do barril. A castanheira deles é muito diferente, entrega castanha e amêndoa de um jeito que não se confunde com nada, e gostei muito de conhecer – vale a pena comprar a garrafa. Não à toa é um dos rótulos mais premiados da casa: levou Melhor Design na categoria cachaça do World Drinks Awards, em Londres, e marcou 92,5 pontos na nossa degustação às cegas. Mas foi o bálsamo que realmente roubou meu coração.
Quem conhece bálsamo geralmente conhece o bálsamo do Norte de Minas, aquele perfil de especiaria intensa, quase medicinal, que virou assinatura da região de Salinas. O da Vibra Brasil segue outro caminho.
Direto da dorna, ele não tem tanta especiaria quanto os bálsamos de Salinas, mas traz — e isso me chamou atenção — um dulçor quase de mel no começo de boca, misturado com as especiarias típicas da madeira, como cravo e erva-doce, finalizando com um amargo que lembra até um bitter. Esse final me agradou bastante e me fez pensar numa cachaça que funcionaria muito bem em coquetelaria.
Provar direto dali é uma maneira legal de a gente conhecer a cachaça antes de ela passar pela mão do mestre de adega, antes do blend e da padronização, antes de o produtor decidir o que aquele lote vai ser. É o momento em que mostra realmente como foi o diálogo entre cachaça e madeira ao longo do tempo.
Depois da padronização, a cachaça também ficou muito gostosa na taça, e isso aparece na avaliação: a Vibra Brasil Bálsamo, safra Novembro 2025, recebeu 93,5 pontos e 4 estrelas na nossa degustação às cegas, com consenso forte do painel — uma das pontuações mais altas que já demos a uma envelhecida em madeira brasileira no primeiro semestre de 2026.

Ela entrega no visual um dourado-esverdeado, límpida e de corpo médio. No aroma aparecem erva-doce e anis à frente, acompanhados de pão de mel, castanhas, um toque defumado e madeira antiga. Em boca é aveludada, aberta e condimentada, com caramelo e castanhas ao lado de gengibre, erva-doce, especiarias e pimenta-do-reino. O retrogosto é longo e complexo, marcado de novo por erva-doce, anis e castanhas.
O painel leu um perfil mais condimentado do que amadeirado, com excelente evolução gustativa, que é justamente o que eu tinha sentido no barril, só que arredondado: aquele dulçor de mel ficou menos intenso, mas sem dispersar tanto, e o amargo de bitter virou anis e erva-doce no retrogosto. O mestre de adega fez o trabalho dele de amaciar a potencia da madeira.
Para quem prefere ver a cachaça em drinque, a Bálsamo já rende quatro receitas preparadas pelo Bruno Pasquini, o Vibra Manhattan, o Vibra Coffee, o Negroni Brasil e o Green Vibra. Aquele finalzinho mais agridoce que senti no barril não sumiu, e é justamente ele que faz o Manhattan funcionar tão bem.
E aqui vale abrir o foco, porque seria fácil ler tudo isso como o caso isolado de um engenho bem conduzido. Não é. Quando junto as pontuações que as cachaças do Cerrado Mineiro vêm tirando nas nossas avaliações às cegas, o que aparece é consistência regional.
No Guia Mapa da Cachaça, a João Del Rey Extra Premium, de Frutal, marcou 90,5 pontos — um blend que passa três anos em carvalho europeu e mais cinco em tonéis de madeiras brasileiras, com sassafrás, jatobá, freijó e grápia. A Vanderley Azevedo Premium, de Ituiutaba, fez os mesmos 90,5 pontos com seis anos em barril de carvalho francês. E a Santa Cruz Extra-Premium, de Sacramento, chegou a 88,5 com três anos de carvalho francês e dois de amburana.
Agora acrescente a Vibra Brasil, avaliada depois: 93,5 na Bálsamo, 92,5 na Castanheira e 91 na Amburana. São produtores diferentes, municípios diferentes, madeiras diferentes — carvalho francês, amburana, castanheira, bálsamo, blends de nativas – e todos produzindo cachaça de excelência.

O café da Região do Cerrado Mineiro conquistou Indicação de Procedência em 2005 e virou Denominação de Origem em 2013, a primeira do café brasileiro. Pela ficha técnica do INPI, a área demarcada segue a Portaria 165/95 do IMA e abrange o Triângulo Mineiro, o Alto Paranaíba e partes do Alto São Francisco e do Noroeste. Ou seja: o mesmo Triângulo onde fica Monte Alegre de Minas, onde fica o engenho, onde está aquela dorna de bálsamo. Se o café colhido naquela terra pode carregar um selo de origem reconhecido pelo Estado brasileiro, a cana colhida a facão no talhão vizinho também pode.
Atualmente, a CACEM, Associação dos Produtores de Cachaça de Alambique do Cerrado Mineiro, reúne alambiques do Triângulo, do Alto Paranaíba e do Noroeste — a Néctar do Cerrado, onde é produzida a Vibra Brasil, está entre eles — para se articularem na busca por uma indicação geográfica e por uma identidade comum que hoje cada engenho defende sozinho.
E é aí que está o primeiro passo. Antes do processo no INPI, antes do estudo técnico e da delimitação da área, o reconhecimento começa quando os próprios produtores se juntam para dizer o que é a cachaça daquela terra. Depois isso precisa sair do engenho e chegar ao balcão: nos bares e restaurantes de Uberlândia, Uberaba, Araxá, Patos de Minas, Ituiutaba, Frutal — um polo urbano grande, com dinheiro, com público e com gente disposta a beber bem — e na boca dos bartenders, sommeliers e consumidores que vão repetir essa história. Selo de origem se conquista no papel, mas se sustenta na mesa.
Saí de Monte Alegre animado em ver o que mais o pessoal da Vibra Brasil vai trazer para o mercado. E mais convencido ainda de que o Cerrado Mineiro merece ser reconhecido, inclusive com a própria IG. Porque o néctar que sai daquele cerrado tem tudo para fazer o Brasil vibrar.
Livros e ferramentas criados pelo Mapa da Cachaça para estudar, provar e registrar suas descobertas.


