
Há um trecho do Rio de Janeiro onde o dinheiro do Império passou, se instalou e foi embora. O Vale do Café teve fazendas enormes, casarões, ferrovia própria — e depois teve o esvaziamento, quando a lavoura migrou para São Paulo e deixou para trás um vale de construções paradas.
Uma dessas construções é a destilaria da Fazenda das Palmas, em Sacra Família do Tinguá, distrito de Engenheiro Paulo de Frontin. Erguida em 1855, ela funcionou, parou, e ficou parada por mais de um século e meio. Voltou a destilar em 2013.
Para entender a Pindorama é preciso entender onde ela está. O Vale do Café fluminense concentrou, no século 19, boa parte da riqueza que sustentava o Império brasileiro. Quando o ciclo do café se deslocou, a região não foi substituída por outra atividade de porte equivalente: ela simplesmente esvaziou. O que sobrou foi paisagem — mata que voltou a crescer sobre o que tinha sido lavoura, e um conjunto de construções que envelheceram e hoje estimulam o turismo da região.
A Fazenda das Palmas é uma delas. Segundo a família Konder Braga, que hoje toca o negócio, a destilaria construída ali em 1855 foi a terceira destilaria comercial da região — e a primeira delas a operar sem mão de obra escravizada, décadas antes da Lei Áurea.

A restauração começou quando a família Konder Braga assumiu a propriedade e decidiu que a destilaria voltaria a funcionar. Não como peça de museu — como alambique em operação.
O que existe hoje ali é uma fazenda que produz cachaça e faz várias outras coisas ao mesmo tempo: criação de animais, horta orgânica, café em pequena escala, um viveiro comunitário de mudas. É uma operação familiar, com a escala que isso sugere, cercada por cerca de cem hectares de Mata Atlântica preservada.





A fermentação da Pindorama é conduzida com leveduras selvagens, com fubá de milho no pé de cuba — o fermento caipira, feito na própria casa, sem levedura industrial e sem transgênico. É uma escolha que abre mão de previsibilidade em troca de identidade: cada fermentação depende do que está no ar, e o que está no ar depende do vale.
Calor, umidade e pressão atmosférica do fundo do vale, cercado por cem hectares de floresta, definem o ritmo dessa fermentação. É o tipo de afirmação que costuma soar como marketing de terroir — só que aqui dá para ver o resultado no copo, e eu volto a isso mais adiante.
O resto do processo segue a cartilha da cachaça de alambique bem-feita, com alguns rigores que vale registrar. O corte é generoso: os primeiros vinte litros e os últimos dez ficam de fora, e só o coração vai para a garrafa. A caldeira queima apenas o bagaço da própria cana, sem lenha de fora. A água vem de uma nascente da própria propriedade, captada do aquífero da mata — e, como boa parte do volume da bebida é água, essa é uma variável menos discutida do que deveria. Em nenhuma etapa entra aditivo ou acelerador.
A Pindorama foi avaliada às cegas pelo painel do Mapa da Cachaça para o Guia 2025. Duas cachaças, as duas com três estrelas.

Uma prata que descansa doze meses em dornas de aço inox antes de ser engarrafada. Isso é incomum: a maioria das pratas vai para a garrafa pouco depois de destilada, e o repouso longo em inox é uma decisão de quem quer aparar arestas sem entregar a bebida à madeira.
O resultado é uma cachaça incolor, de lágrimas moderadas, com aroma aberto — grama e milho-verde na frente, pera e frutas cristalizadas atrás. O corpo é leve, com uma sensação amanteigada na boca. No paladar, entra suave, com nota vegetal e um tempero discreto que lembra orégano e folha de louro, fechando numa amêndoa amarga. Retrogosto de curto para médio, simples e macio.
Repare no milho-verde. Ele não veio por acaso: é o fubá do pé de cuba aparecendo no copo. Raramente uma escolha de fermentação fica tão legível na taça.

Aqui é um lote especial, correspondente a um décimo da produção anual da marca, guardado por no mínimo um ano em dornas de amburana com mais de 700 litros. Dorna grande significa menos superfície de madeira por litro de cachaça — a extração é mais lenta e menos agressiva, e isso aparece.
A cor é um dourado claro e brilhante, com um leve esverdeado. O aroma abre em anis e banana-passa, com baunilha discreta e cupuaçu — e o milho-verde continua ali, atravessando a madeira. Na boca é leve e fresca, mais complexa que a irmã prata: castanhas, cardamomo, pimenta-branca, menta, um resto de baunilha. O retrogosto é de curto para médio e deixa a boca mentolada. Alta bebabilidade.
A Pindorama Ouro Amburana venceu o Prêmio Design do Ano 2025 do Guia Mapa da Cachaça.
Vale explicar como se chega lá, porque não é concurso de beleza solta. Só entram na seleção rótulos que atingiram no mínimo 83 pontos na prova às cegas. Desses, dez são escolhidos por estética, originalidade e inovação, passam por uma checagem de conformidade legal e vão a um júri independente, que pontua design visual, criatividade, coerência com a identidade da marca e sustentabilidade. Ou seja: antes de ser o rótulo mais bonito, a cachaça precisou ser boa.
O projeto é assinado pelo Oveja & Remi Studio, escritório reconhecido internacionalmente por identidade visual de vinhos e destilados. O rótulo funciona quase como uma peça ilustrada: mata, fauna, navegação e história do Brasil empilhadas em camadas, numa composição que se percorre como quem lê um mapa antigo. A paleta — verdes, dourados, azuis e tons terrosos — conversa diretamente com a amburana e com a ideia de envelhecimento. A tipografia bebe em rótulos históricos. É exuberante sem ser confuso, o que é mais difícil do que parece.
Nada disso é leitura literal de brasilidade. É outra coisa: um imaginário tropical do século 19 recontado com ferramentas de hoje — o mesmo período, aliás, em que a destilaria da Fazenda das Palmas começou a funcionar.
Essa mesma ideia se repete na coquetelaria da marca. A Pindorama acumula uma coleção de drinks que homenageiam o modernismo brasileiro: Paulicéia Desvairada para Mário de Andrade, Anita Malfatti para a Semana de 22, Uirapuru para Villa-Lobos, O Absoluto para Vik Muniz, Suburbana para Di Cavalcanti. Boa parte nasceu do 1º Desafio Pindorama, competição de coquetéis promovida pela marca em 2021. À linha principal soma-se ainda a Cobra Coral, lançada em setembro de 2023.


A Pindorama recebe visitas com agendamento. Para quem já roda o circuito do Vale do Café — os casarões, as fazendas históricas, a ferrovia —, a parada tem um atrativo que as outras não têm: a destilaria não é apenas patrimônio preservado, ela está funcionando.
O agendamento é feito pelo perfil da Pindorama no Mapa da Cachaça. Os rótulos também são vendidos na loja própria.


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