
A cerca de 30 quilômetros de João Pessoa, no município de Cruz do Espírito Santo, ainda existem doze capelas rurais de pé — cada uma erguida ao lado de uma moenda, de uma casa-grande e de um engenho que moeu cana por séculos.
Agora essas sobrevivências ganharam um fio condutor. O roteiro Paisagens e Tradições de Cruz do Espírito Santo costura patrimônio tombado, mata atlântica, coco de roda e — este é o ponto que nos interessa — dois alambiques em plena atividade: Engenho São Paulo e Engenho Nobre. É o tipo de arranjo que faz o turismo da cachaça na Paraíba deixar de ser um passeio isolado e virar parte de uma experiência de território paraibano.
Um dos dois engenhos é o Engenho Nobre, do mestre de adega Murilo Coelho. E é ali que o passeio vira aula.
Cruz do Espírito Santo fica na Zona da Mata paraibana, dentro da Região Metropolitana de João Pessoa. A geografia explica quase tudo: solo e clima propícios à cana-de-açúcar fizeram da região um polo açucareiro desde o período colonial — e, por consequência, palco de disputas violentas entre portugueses e holandeses interessados nos engenhos, no auge da expansão da Companhia das Índias Ocidentais.
A fé entrava nessa conta. Muitas capelas foram erguidas em comemoração a vitórias militares; outras tantas nasceram porque todo engenho precisava da sua.
“Ainda existem, por aqui, doze capelas rurais — e elas eram muitas, pois cada engenho tinha a moenda, a casa-grande e sua própria capela”,
conta o guia local e cordelista Rafael Reginaldo
Entre as que resistiram estão a de Nossa Senhora da Batalha, erguida em 1636 e tombada pelo Iphan em 1938; a de Santo Antônio, de 1856; e a de Santa Luzia, a maior delas, de 1862. Isoladas no meio dos canaviais, seguem bem preservadas e várias mantêm serviço religioso ativo.
O roteiro é um produto do Programa de Roteirização do Sebrae-PB, formatado pelo agente de roteiros turísticos Danylo Aguiar, que passou os últimos meses preparando os pontos de parada e capacitando moradores e empreendedores para receber visitantes. A lógica é modular: além das capelas e dos engenhos, o percurso inclui uma trilha de cerca de 5 km na Mata de Santa Luzia, remanescente de Mata Atlântica; uma apresentação do Grupo de Coco de Roda de Cruz do Espírito Santo, formado por mulheres da comunidade; e o Luna Centro Cultural, com gastronomia regional e artesanato local.

Quem chega ao Engenho Nobre esperando o telhado de barro e a moenda de ferro fundido do imaginário nordestino leva um susto. A construção é curva, avermelhada, cravejada de garrafas de vidro nas paredes — mais próxima de um cenário de ficção científica do que de um engenho colonial. E não é acaso: Murilo Vilela Coelho é engenheiro civil, mineiro de Uberlândia, e projetou a estrutura inspirado em um estudo apresentado à Nasa em 1984 para a colonização da Lua.
A técnica se chama hiperadobe: sacos contínuos de malha preenchidos com a própria terra do terreno, empilhados e compactados, resultando em paredes de cerca de 40 centímetros de espessura. Some a isso eucaliptos plantados na propriedade e telhas ecológicas, e você tem a primeira destilaria em bioconstrução da Paraíba — história que já contamos em detalhe neste artigo sobre o Engenho Nobre.








Só que a escolha não é ambiental por acaso — é sensorial. Parede grossa de terra significa inércia térmica: a temperatura e a umidade dentro da adega oscilam pouco entre o dia e a noite, entre o inverno e o verão. Para o envelhecimento em madeira, num estado onde o calor é adversário, isso é o oposto de um detalhe. A arquitetura, aqui, é parte do processo produtivo.
O mesmo raciocínio de engenheiro aparece na sala de fermentação. As dornas são mais largas que o convencional, o que aumenta a área de superfície: o gás carbônico produzido pelas leveduras forma uma camada que isola o mosto do oxigênio e favorece a produção de álcool. A ventilação vem por aberturas na parte baixa da sala, justamente para não dispersar essa camada protetora. A fermentação começa com um blend de leveduras nordestinas selecionadas, que preparam o ambiente para as selvagens locais — uma inversão fina do costume regional, onde a fermentação é quase sempre inteiramente espontânea. A destilação é feita em alambique de cobre de fogo direto, queimando bagaço e lenha.
São cerca de 5 mil litros por ano. Pouco, por opção.
A Paraíba é terra de cachaça branca — intensa, seca, muitas vezes armazenada em dornas de freijó de grande volume já bastante exauridas, que devolvem pouquíssima madeira ao destilado. É a terra da Rainha Paraibana, que de tão potente, com 50%, sequer pode ser chamada de cachaça. É uma identidade legítima e forte, que mereceria uma Denominação de Origem tanto quanto Paraty ou Luiz Alves.
Murilo respeita essa base — a Nobre Cristal, sua branca de 42%, é referência entre especialistas —, mas construiu sua assinatura no caminho oposto: o dos blends de madeira. Carvalho europeu, francês e americano, amburana, jequitibá-rosa, bálsamo, freijó. É um portfólio prolífico, com lançamentos em lotes que muitas vezes não passam de 300 ou 400 garrafas, num ritmo que se vê mais no universo cervejeiro artesanal do que no dos destilados tradicionais — da Nobre Cactos, homenagem ao mandacaru, à Raiz 48 e à Sertão do Bruxaxá.



Nada disso é improviso. Murilo decidiu em 2014 que seria produtor de cachaça e começou aprendendo com um alambiqueiro de Sobrado, antes de montar o próprio engenho. Formou-se Mestre Alambiqueiro e Mestre Cachacier em Itaverava (MG), passou pela ESALQ-USP em treinamentos de cachaça envelhecida e composição de blends, e seguiu estudando fermentação e análise multissensorial. É essa disciplina de laboratório que aparece na taça.
Os resultados vieram cedo: medalha de prata em 2017 e ouro em 2018 no Concours Mondial de Bruxelles — etapa Brasil, com a Nobre branca, que também figurou entre as 12 melhores brancas do Ranking da Cúpula da Cachaça de 2018; e prata no San Francisco World Spirits Competition em 2019, com a Arretada Mandacaru. No Guia Mapa da Cachaça, Murilo Coelho ficou em 5º lugar no prêmio Mestre de Adega do Ano, e o Engenho Nobre esteve entre os produtores com as melhores notas do país.
Murilo tem uma frase que resume sua leitura do negócio: “Não vendo cachaça, vendo experiências.” Hoje o engenho já recebe visitas e degustações guiadas com agendamento prévio — e também aluga o espaço para eventos. Com a entrada no roteiro do Sebrae, ele anunciou uma ampliação: um espaço de degustação e um museu da cachaça dedicado à sua produção.
A destilaria passa a ser parada natural entre uma capela de 1636 e uma roda de coco. Quem chega pela igreja sai entendendo o que é uma dorna. Quem chega pela cachaça sai entendendo um pouco mais sobre a história canavieira na Paraíba com mais de quatrocentos anos.
O outro alambique do percurso, o Engenho São Paulo, tocado por Leonardo Fernandes, completa o quadro com uma escala de produção de grande volumes, mostrando também a diversidade de estilos de produção no estado.
Se você mora em João Pessoa, é meia hora de carro. Se está de passagem pelo litoral paraibano, é o melhor argumento que existe para conhecer mais sobre a produção de cachaça paraibana.
Roteiro Paisagens e Tradições de Cruz do Espírito Santo — produto do Programa de Roteirização do Sebrae-PB, formatado pelo agente de roteiros Danylo Aguiar. Disponível para comercialização por agências de turismo, inteiro ou em módulos.
Livros e ferramentas criados pelo Mapa da Cachaça para estudar, provar e registrar suas descobertas.
Em Cruz do Espírito Santo, na Paraíba, a cerca de 30 km de João Pessoa, na Zona da Mata paraibana.
Sim. O engenho recebe visitas e degustações guiadas com agendamento prévio, e também aluga o espaço para eventos. O agendamento é feito pelo WhatsApp (83) 99681-8192 ou pela página do produtor no Mapa da Cachaça.
Uma técnica de bioconstrução em que sacos contínuos de malha são preenchidos com terra do próprio terreno, empilhados e compactados. O resultado são paredes espessas, de alta inércia térmica — no caso do Engenho Nobre, com cerca de 40 cm, o que garante o conforto térmico necessário ao envelhecimento da cachaça.
Um roteiro turístico do Programa de Roteirização do Sebrae-PB que reúne capelas rurais tombadas, dois engenhos em atividade, apresentação de coco de roda, gastronomia regional e uma trilha de cerca de 5 km em remanescente de Mata Atlântica.
Capelas rurais dos séculos XVII, XIX e XX — entre elas a de Nossa Senhora da Batalha, de 1636, tombada pelo Iphan —, a trilha da Mata de Santa Luzia, o Grupo de Coco de Roda de Cruz do Espírito Santo e o Luna Centro Cultural, com gastronomia regional e artesanato local.
