
O mercado da cachaça tem, às vezes, um dinamismo que o aproxima mais do universo das cervejas artesanais do que dos destilados tradicionais. A liberdade para criar blends — sobretudo nas combinações com as madeiras brasileiras — permite que alguns produtores mantenham portfólios prolíficos e deem aos mestres de adega talentosos o espaço para lançamentos especiais, quase sempre em lotes que não passam de mil garrafas. Nos últimos anos, marcas como Princesa Isabel, Santa Terezinha e Engenho Nobre têm se destacado por buscar novidade a cada safra.
A mais recente é a Nobre Arraiá, trabalho do mestre de adega Murilo Coelho. O ponto de partida foi um pedido de consumidor: a dificuldade de encontrar bons blends que misturassem carvalho e bálsamo — duas madeiras de forte personalidade, que costumam disputar o protagonismo e resultar, com frequência, em cachaças pouco equilibradas. O desafio era justamente domar esse duelo de intensidades.
A xilogravura do rótulo é um resgate ao espírito da festa junina raiz: fogueira acesa, comidas típicas, barraca do quentão, trio pé de serra e muito forró — essência e simplicidade em uma imagem só. A Nobre Arraiá é um blend de cachaça envelhecida por três anos em carvalho europeu com bálsamo envelhecido por um ano, pensado exclusivamente para esse momento de celebração. São 41% de graduação alcoólica em uma edição limitada a apenas 300 garrafas.
No visual, o bálsamo já se anuncia e agrega brilho à base do carvalho. No aroma, o doce do carvalho — mel, caramelo e leve baunilha — encontra notas frescas, verdes, vegetais e de ervas, lembrando chá e palha. Na boca é fresca: ao contrário de outros bálsamos, aqui o carvalho europeu segurou a picância especiada típica da madeira brasileira e fez crescer o seu lado fresco e mentolado. Ainda é picante, mas na medida certa, equilibrada pelo doce do carvalho, em uma harmonia que termina em bala de hortelã e leve anis. Se no nariz o carvalho se destaca, na boca há equilíbrio — e no retrogosto quem vence é o bálsamo refrescante da Nobre.
Pensando nesse novo blend de Murilo, veio a ideia de fazer uma releitura do Hanky Panky. A Arraiá conversa muito bem com a Fernet Branca. Pensei também no nosso Macunaíma, mas com o friozinho destes tempos juninos, a versão mais potente do clássico criado em Londres cai como uma luva. A receita completa está no card abaixo.

Receita completa
No Guia Mapa da Cachaça 2024, a Nobre Sunset lidera a casa com 92,5 pontos e Selo 4 Estrelas. Também com o Selo 4 Estrelas vieram a Nobre Umburana (91,5), a Nobre Cactos (91), a Arretada Cordel (90) e a Nobre Cristal (89,5). A Nobre Sensações Freijó ficou com o Selo 3 Estrelas, com 86,5 pontos.
Para conhecer a base branca que virou referência da casa, comece pela Nobre Cristal, descansada em inox e premiada no Concours Mondial de Bruxelles. Para entender por que o Engenho Nobre se firmou nos blends de madeiras, vá às mais bem avaliadas pelo Guia: a Nobre Sunset, extra premium de carvalho, e a Nobre Umburana, envelhecida em barris novos de amburana.
Sim. A Nobre Ocean é um blend de bálsamo e amburana em que o bálsamo é protagonista e a amburana entra só para arredondar o final — rótulo apontado pelo Mapa da Cachaça entre os 10 lançamentos que mais se destacaram em 2025. Como a Nobre Arraiá, mostra o trabalho de Murilo Coelho ao equilibrar madeiras de forte personalidade.
A casa trabalha com lotes pequenos, como as 300 garrafas da Nobre Arraiá. A Nobre Maracatu saiu com 400 garrafas e rótulo do grafiteiro Selvagem, a Nobre Cactos com 480 unidades e 91 pontos no Guia, e a Nobre Raiz 48 com 400 garrafas de uma branca sem madeira.
Além do Hanky Panky Junino feito com a Nobre Arraiá, a Nobre Cristal é base de coquetéis e batidas do Mapa da Cachaça, como a Batida Flop’s, com jatobá, e a batida de Amendocrem com leite condensado.


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