
A cachaça é gluten free? Sim — e por um motivo simples, anterior a qualquer discussão sobre destilação: ela é feita de cana-de-açúcar. Não há trigo, centeio, cevada, aveia nem malte em nenhuma etapa da produção, do caldo moído ao líquido que sai do alambique. Purinha ou envelhecida, a cachaça não tem de onde tirar glúten.
Com os destilados feitos a partir de cereais a conversa é um pouco mais longa. O whisky, a vodca e o gim nascem de grãos que contêm glúten, mas a destilação separa o álcool das proteínas — e o glúten é uma proteína, que fica para trás no alambique. Por isso esses destilados também costumam ser considerados isentos. Ainda assim, as associações de celíacos mantêm uma orientação mais cautelosa com eles e recomendam conferir o rótulo antes de beber. A tequila, feita de agave, está na mesma situação confortável da cachaça: matéria-prima sem glúten desde o começo.
O ponto de atenção, portanto, não está na destilação — está no que vem depois dela. Algumas bebidas recebem, já destiladas, outros ingredientes ou aditivos que contêm glúten. Há também a possibilidade de contaminação cruzada durante o engarrafamento, em instalações que processam produtos com trigo, centeio, cevada e outras fontes de glúten.
A cachaça pura — prata, ouro ou envelhecida — não oferece esse risco: ela sai do alambique e vai direto para a madeira ou para a garrafa. A atenção precisa ser maior justamente nas categorias que recebem alguma adição depois da destilação:
Em todos esses casos vale a mesma regra prática: confira sempre o contra-rótulo. E, no Brasil, essa informação não é um favor do fabricante — é obrigação legal.
A Lei nº 10.674, de 16 de maio de 2003, determina que todos os alimentos industrializados tragam no rótulo, obrigatoriamente, as inscrições “contém Glúten” ou “não contém Glúten”, conforme o caso — e que essa advertência seja impressa “em caracteres com destaque, nítidos e de fácil leitura”. É exatamente por isso que tantas marcas de cachaça estampam “não contém glúten” no contra-rótulo: não é diferencial de marketing, é cumprimento de lei.
A RDC nº 727/2022, da Anvisa, complementa a regra: quando o produto traz advertência de trigo, centeio, cevada, aveia ou derivados, ele deve declarar “CONTÉM GLÚTEN” — em letras maiúsculas, negrito e cor contrastante —, independentemente da concentração.
No resto do mundo, o critério mais usado para um produto poder ser declarado isento de glúten é o de 20 ppm (20 miligramas de glúten por quilo de alimento), recomendado pelo Codex Alimentarius — o código alimentar da FAO e da Organização Mundial da Saúde — e adotado por União Europeia, Estados Unidos e Canadá.
O Brasil, hoje, não tem um limite numérico como esse: a Lei 10.674/2003 é binária, ou contém ou não contém. O tema está em revisão. Em diálogo setorial promovido pela Anvisa em maio de 2025, a Fenacelbra e as Acelbras defenderam a adoção de limites mais rigorosos do que os 20 ppm do Codex, argumentando que há estudos indicando toxicidade em quantidades menores. Ou seja: a regra pode mudar, e quem convive com a doença celíaca faz bem em acompanhar.

A cerveja é fermentada, e não destilada, então passa por um processo diferente de produção. As cervejas feitas de trigo e cevada, portanto, não são seguras para quem tem doença celíaca. Há, no entanto, no mercado marcas de cervejas sem glúten: elas são produzidas com uma enzima capaz de decompor as proteínas do glúten e tornar o consumo da bebida apropriado para quem tem restrições alimentares.
Este texto tem caráter informativo e não substitui orientação médica. Quem tem doença celíaca ou sensibilidade ao glúten deve conversar com o seu médico ou nutricionista e, diante de dúvida sobre um produto específico, procurar a associação de celíacos do seu estado ou a Fenacelbra, a federação nacional que reúne essas entidades.
Aprecie com moderação. A venda de bebidas alcoólicas é proibida para menores de 18 anos. Vale lembrar que ausência de glúten não é sinônimo de bebida saudável: segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), não há nível seguro de consumo de álcool do ponto de vista da prevenção do câncer — e isso vale para qualquer bebida alcoólica, cachaça inclusive.
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