
O ano de 1855, no Brasil, foi marcado como o início de uma epidemia local de cholera morbus, que já vinha se alastrando pelo mundo. Doença gravíssima, que, tendo aportado primeiro no Pará, espalhou-se pelo resto do país, ceifando cerca de 30.000 vidas até o ano seguinte. De comportamento e tratamento ainda pouco conhecidos à época, os esforços de contenção da enfermidade e de recuperação dos doentes tiveram muitas feições, mobilizando saberes e recursos diversos. Um desses recursos foi, justamente, a cachaça.
Assim como a tiquira, aguardente à base de mandioca também aplicada no contexto daquela epidemia, a cachaça era utilizada por médicos e leigos em vários pontos do país. Um desses doutores foi o paraense Francisco da Silva Castro (1815-1899), que afirmou prescrever, quando detectados sintomas de abatimento num paciente, “três ou quatro goles de cachaça com puxuri ralado” – ingrediente também combinado à tiquira, em forma de tintura –, “ou sem ele”, e “logo depois uma chávena de infusão de macela, ou de tília, losna, salva, ou, ainda melhor, de grelo de laranjeira, com três ou quatro colheres de cognac, aniseta, genebra, ou cachaça forte […]”. Também foi noticiado, naquele mesmo 1855, que comerciantes em Sapucaia, na província do Rio de Janeiro, alarmados com a epidemia, costumavam tomar “um grog da santa jeribita” – esta uma denominação mais antiga para as aguardentes de cana, enquanto o grog “abrasileirado” seria, provavelmente, uma mistura do destilado, com água, açúcar e, talvez, outro ingrediente –, “que entre eles é considerada como um maravilhoso agente anticolérico […]”.

Para muitos, não deve parecer novidade a aplicação terapêutica das bebidas destiladas, verificada no Brasil desde o período colonial. Assim como muitos alimentos, elas eram recursos versáteis, cuja presença no cotidiano das pessoas era motivada não só pela sua disponibilidade e pelas preferências de consumo, mas também pelas suas propriedades restaurativas e medicamentosas, propriedades conhecidas tanto por médicos e cirurgiões quanto por curandeiros “práticos” e, de modo geral, pelos saberes populares. Desse modo, houve, no decorrer dos séculos, uns tantos usos e receitas que se posicionaram entre a cura e o beber alimentício e recreativo, ora mobilizados para um ou para outro fim, sedimentando-se no repertório coletivo com essa roupagem multifacetada. Caso provável do que hoje conhecemos como Caipirinha.
Apesar dos persistentes mitos sobre a sua “invenção”, com destaque para a infundada versão do “remédio para a Gripe Espanhola” de 1918-19, tudo indica que a combinação de aguardente, suco de limão, açúcar e água – o gelo, no Brasil, é um advento do XIX e posterior à trivialização da receita – anteceda bastante a dita pandemia, em pelo menos mais de um século. E ela parecia servir tanto como recurso salutífero, a exemplo do que se registrou em Paraty, no ano de 1856, durante a mesma arrasadora epidemia de cólera, segundo documento contido no Registro de Ofícios da Câmara da cidade fluminense e divulgado pelo ilustre Diuner Mello (1944-); quanto como refresco comum, servido, inclusive, em botequins e vendas à beira da estrada, de acordo com o relato do engenheiro inglês James W. Wells (?-?), viajando por Minas Gerais em 1873, ocasião em que também descreveu a mistura como “muito mais barata, mais gostosa, mais saudável e refrescante” do que as cervejas locais, falsamente vendidas como britânicas.

Vê-se que a inserção das aguardentes no cotidiano brasileiro foi bastante plural, figurando como bases de uma porção de receitas e composições com ocasiões e propósitos variados. Precedendo e influenciando, talvez, a tradição das batidas? Questão válida, inclusive se ampliada para uma noção geral de coquetelaria brasileira. Coquetelaria que tem tentado embeber de brasilidade muito do que vem sendo servido hoje ao público país afora, num movimento que, frequentemente, também mobiliza aspectos históricos para se balizar e se legitimar. Assim, o que mais esse passado tem para nos contar sobre as nossas composições etílicas de outrora?
Notícia interessante vinda também das andanças de um britânico pelas Minas Gerais data de alguns anos antes da passagem de James Wells. Sir Richard F. Burton (1821-1890) foi um explorador, orientalista e diplomata que serviu como cônsul em Santos a partir de 1865, oportunidade que aproveitou para viajar extensamente pelo Brasil. Hospedado em Lagoa Dourada na noite de Natal de 1867, ele foi até a casa de outro inglês, John Whittaker, na companhia de alguns compatriotas e de brasileiros, onde tomou parte em uma farta ceia. Depois das festividades, retornou, junto dos seus, ao “rancho” onde haviam se instalado. Mas a noite não havia terminado. Charles Copsy, residente de São João d’El-Rey que acompanhava momentaneamente o diplomata, preparou então para o grupo “um ‘crambambali’, um brulé nativo, altamente aconselhável naquelas frígidas altitudes, e ‘experimentamos’ alguns copos da bebida” – apesar da estação veranil, as noites daquela estadia são descritas como gélidas. No corpo do seu relato, o Viagens aos planaltos do Brasil (1869), Burton não compartilha suas impressões sobre o preparo, mas, em nota de pé de página, fornece a receita com seu veredito:
“Despeje em uma terrina uma garrafa da melhor cachaça, acrescente-se uma quantidade suficiente de açúcar, queime-a. Ponha, aos poucos, uma garrafa de vinho do Porto e, quando a chama enfraquecer, um pouco de canela e umas talhadas de limão. Apague, e terá a maravilha dos ‘crambambali’”.
Sir Richard F. Burton em Viagens aos planaltos do Brasil
Era, portanto, algo próximo dos vinhos condimentados europeus – mulled wine, Glühwein, glögg etc. –, remontando também, pela fórmula e pelo nome, à krambambula, feita com vinho e vodka. Talvez o termo “crambambali” tenha sido uma distorção que, cá no Brasil, foi utilizada por estrangeiros para se referir ao “nativo” quentão.
Anos depois, em 1929, o mesmo Crambambali seria classificado pelo grande poeta Manuel Bandeira (1886-1968) como um “brinde mineiro de sobremesa”, “drink da brasilidade” em “estilo colonial”. Produto de um encontro de tradições etílicas distintas que, como indicam as memórias do médico e escritor Pedro Nava (1903-1984), sobreviveu por bastante tempo, preservando o nome e dispensando o vinho português em favor da cachaça, na região central de Minas, preparado principalmente para os festejos de São João.
Mas, de volta à segunda metade do século XIX, é possível citar ainda outras composições alcoólicas interessantes. Em 1884, na província do Rio de Janeiro, falava-se no Periquito, “assim batizado por um distinto engenheiro brasileiro”, sendo “simplesmente um refresco composto de paraty, água e açúcar”, segundo o jornalista e teatrólogo França Júnior (1838-1890).
Já o Cachimbo, até hoje em voga, principalmente no Nordeste, era a mistura de pinga com mel de abelhas, “muito forte, mas adocicada”, o que a tornava enjoativa para alguns, de acordo com o historiador e arquivista baiano Alfredo do Vale Cabral (1851-1894). Este que, em “viagem folklorista” pelo rio São Francisco em 1888, teve contato também com “uma bebida especial de aguardente, toda dourada, chamada Rabo de Gallo”, saborosa, “mesmo muito apetitosa”, mas que produzia um efeito “enorme”. Não se parecia “com o Cocktail dos ingleses”, sendo “fortíssima” e, na opinião de um sujeito que conversou com Vale Cabral, merecedora da alcunha de “Rabo do Diabo”. Uma instigante fórmula cujos detalhes não temos, salvo pela base de aguardente e as características peculiares que a diferenciavam dos coquetéis de influência estrangeira.

Aliás, o termo “rabo de gallo”, uma tradução literal de cocktail, antes de batizar outro clássico da nossa coquetelaria, no século XX, serviu como denominação ampla para uma variedade de compostos, de “licores reconstituintes” e tônicos a fórmulas refrescantes, com ou sem cachaça, em maior ou menor diálogo com drinques forasteiros, à venda em farmácias, cafés e botequins, a depender da composição e da finalidade do preparo. Outro indício do persistente caráter multifacetado das misturas brasileiras de outrora.
Esta breve digressão histórica por alguns exemplares do repertório etílico nacional, nomeadamente as bebidas compostas, revela algumas características reincidentes notáveis. Talvez das que poderíamos tomar como definidoras? Uma delas, sem dúvida!
Os movimentos ensaiados hoje pela coquetelaria brasileira, com enfoque marcante nos ingredientes nativos, têm, por vezes, preterido a sua maior constante: a cachaça. Perdê-la de vista em meio a carquejas, catuabas, jambus, jurubebas, pripriocas e puxuris, itens mobilizados por sua relação histórica com a biodiversidade e as culturas do país, e que, sim, também integraram panaceias e garrafadas do passado – mas sempre acompanhados e elevados pela aguardente –, é deveras contraproducente, pois abdica, justamente, de uma dose fundamental dessa mesma história.
Em plena concordância com a manifesta posição editorial deste portal quanto ao imperativo protagonismo da cachaça na coquetelaria brasileira, defende-se, com este pequeno texto, que assim ela deva ser concebida e realçada. Viva a cachaça!

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