O recente crescimento de bares especializados em coquetéis nas principais capitais brasileiras pode nos levar a crer que nossa história com a coquetelaria seja recente. No entanto, o Brasil é um país com uma tradição secular de misturar frutas, raízes, ervas, fermentados e destilados. Há relatos, por exemplo, de que Carlota Joaquina, esposa de D. João VI, era fã de misturar frutas com aguardente de cana. Mas talvez o coquetel que melhor represente nossa tradição seja a Caipirinha. Apesar de sua origem remontar provavelmente ao século XVII, o consumo da bebida como remédio foi registrado pela primeira vez em um documento de 1845, em Paraty (RJ).
Pelo Brasil afora, é comum encontrarmos receitas antigas de garrafadas, curtidas ou misturas preparadas para lazer, remédio ou até rituais religiosos. Um exemplo é o ritual do “Fecha Corpo”, realizado no interior de São Paulo durante a Páscoa, onde centenas de pessoas tomam cachaça com guiné e arruda para espantar os males do corpo e da alma. Em mercados municipais, botecos simples e, mais recentemente, em bares sofisticados, essas misturas estão prontas para nos revelar histórias escondidas. Parte do processo de valorização de uma possível coquetelaria nacional passa por reconhecer e celebrar essa tradição.

No Brasil, sempre buscamos vender a ideia do novo, do exótico, do inusitado, apresentando ingredientes únicos, como jambu, cambuci, priprioca e catuaba. E, de fato, esses elementos têm um potencial incrível. No entanto, na minha opinião, ainda nos falta um discurso mais consistente sobre nossa cultura e história. E talvez o melhor exemplo para resgatar todo esse potencial seja um ingrediente nacional, um dos primeiros produtos de uma gastronomia brasileira, a cachaça.
Uma das hipóteses mais aceitas sobre a origem da cachaça aponta que, em Itamaracá (PE), já em 1516, produzia-se a aguardente de cana. Embora o rum seja frequentemente citado como o destilado mais antigo das Américas, os luso-brasileiros em Pernambuco, no início do século XVII, já dominavam a produção de uma aguardente feita a partir do melaço – uma espécie de precursor do rum em solo brasileiro. Quando os holandeses, que colonizaram Pernambuco, foram expulsos do Brasil em 1654, levaram consigo o conhecimento sobre a produção de açúcar e aguardente para o Caribe. Lá, aprimoraram essas técnicas e deram origem ao que hoje conhecemos como rum. Assim, a cachaça não só é parte fundamental da nossa história, mas também uma influência direta na trajetória de um dos destilados mais icônicos do mundo.
Assim, nossas garrafas de aguardente carregam séculos de história ainda pouco difundida. E, de certa forma, essa tradição vem sendo boicotada. Quando alguém oferece uma Caipirinha feita com vodca, saquê ou rum – e isso já deve ter acontecido com muitos de vocês –, estamos deixando de reconhecer a cachaça como um patrimônio nacional centenário e uma das bandeiras da nossa coquetelaria.
Protegida por um decreto de 2009 como receita autenticamente brasileira e incluída pela Associação Internacional de Bartenders entre os principais da coquetelaria mundial, a Caipirinha é um coquetel refrescante, delicioso e memorável – especialmente quando preparada com uma boa cachaça. Apesar disso, outras bebidas se aproveitam da fama do drinque para deturpar sua receita original, promovendo a substituição da cachaça por destilados considerados “superiores”. Esse preconceito, replicado por bartenders e consumidores, cria um ciclo vicioso que desvaloriza nossa cultura.




De que adianta falarmos de jambu e priprioca se ainda não conseguimos replicar com orgulho a receita original da Caipirinha?
Para resgatarmos e valorizarmos plenamente a coquetelaria brasileira, é essencial olharmos para nossos ingredientes nativos, como o jambu, a priprioca, o cambuci e tantos outros que, com suas características únicas, refletem a riqueza dos diferentes biomas do país. Esses ingredientes têm o potencial de traduzir, com primor, a diversidade de sabores e histórias de cada região brasileira. No entanto, precisamos antes construir uma base sólida que defina o que é, de fato, a coquetelaria nacional. E essa base, sem dúvida, é a cachaça.
Assim como o whisky foi a espinha dorsal dos drinks durante a Era da Proibição nos Estados Unidos, e o rum se tornou o ingrediente central da coquetelaria tiki, a cachaça, com mais de 400 anos de história, é o nosso grande elo de união. Ela consegue, com sua diversidade de estilos, receitas e sabores, representar tanto a identidade nacional quanto as particularidades regionais, oferecendo as bases para uma coquetelaria autenticamente brasileira. Só a partir dessa fundação firme e unificadora poderemos explorar, com respeito e criatividade, todo o potencial dos ingredientes nativos, sem perder de vista nossas raízes e a essência da nossa cultura. A cachaça não é apenas um destilado; é a alma da coquetelaria nacional.
Agradecimentos pela revisão histórica:
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Em 2010, Felipe Jannuzzi fundou o Mapa da Cachaça, premiado projeto cultural com reconhecimento internacional e a principal referência sobre cachaça no mundo. Felipe é um dos sócios fundadores da Espíritos Brasileiros, empresa pioneira no mercado de produção de gin no Brasil, responsável pelo premiado Virga, primeiro gin artesanal brasileiro e o único no mundo que leva doses de cachaça na receita. Desde 2021, é um dos sócios da BR-ME, empresa especializada em produtos brasileiros, como vinhos, cafés, azeites, queijos e chocolates.