Considerada uma bebida brasileira por excelência, criada a partir de um ingrediente autóctone, a tiquira é um destilado que tem a Manihot esculenta, conhecida como mandioca, aipim ou macaxeira, como ingrediente principal, sendo tributária de longevos saberes indígenas de beneficiamento e manipulação desse alimento tão emblemático.
Linguistas e etnólogos constararam e vêm defendendo, há pelo menos dois séculos, a relação da palavra tikira com vocábulos nativos de algumas matrizes diferentes que, combinados, passaram a transmitir a ideia de “líquido que goteja”, como acontece no alambique – um paralelo curioso com um dos mais célebres eufemismos da cachaça, “pinga”.
No tupi antigo, o étimo ty significaria “água”, “sumo” ou “caldo”, portanto, um líquido; e tal partícula viria a compor com outra, kir, “aquilo que verte”, “gotejo”, “choro” – como na etimologia de “Mantiqueira”, Amand’-y-kira, “goteira de chuva”, que se tornou a “montanha que chora”, ou “serra das vertentes” –,a descrição do movimento da bebida ao concluir sua passagem pelo alambique, batizando-a tikira. Já entre culturas amazônicas falantes do nheengatu, o termo tykyre vai além, tendo se tornado o próprio verbo “destilar” – prática que só passou a ser conhecida pelos indígenas de Pindorama depois do contato com os europeus.
Com graduação alcoólica usualmente elevada, entre 38% e 54%, podendo ser incolor ou apresentar aparência que varia entre o violeta e o azulado, graças à adição corriqueira de folhas de tangerina em sua elaboração – de modo similar à cachaça Azuladinha de Paraty (RJ) –, é um produto ainda majoritariamente artesanal, de comercialização informal, salvo algumas exceções, como a Guaaja Tiquira. É também, desde 2023, Patrimônio Cultural Imaterial do Maranhão.

As primeiras aparições da palavra “tiquira” em documentos escritos aos quais temos acesso datam das décadas de 1810 e 1820, em diários de viajantes estrangeiros, jornais maranhenses e tratados etnolinguísticos. Contudo, aguardentes de mandioca, especialmente nos territórios historicamente ligados à tiquira, são reportadas tempos antes.
Existe a possibilidade de que a destilação de mostos compostos pela Manihot esculenta date do século XVII, como relatou, ainda na década de 1850, o historiador Francisco Adolfo de Varnhagen – antes dos anos 1600, parecia não haver aparatos para essa finalidade na colônia. Porém, os registros mais evidentes remontam ao XVIII, quando se fala em “aguardentes de beijus”, de massa de mandioca diluída e fermentada, em localidades como Minas Gerais e Pará, cuja feitura era predominantemente conduzida por colonos – mas os indígenas, quando possível, parecem não ter se eximido de alguns goles.
Na década de 1780, o naturalista baiano Alexandre Rodrigues Ferreira afirma ser “em toda esta capitania” do Grão-Pará “muito frequente o consumo” da aguardente de beiju, especialmente “por se livrarem os que as bebem de comprar a de cana ao contratador”, evitando assim o pagamento de impostos específicos que incidiam sobre a bebida sacarina. O estudioso também reconhece ser a de beiju “medicinal para muitas queixas”, razão pela qual os luso-brasileiros “a prepara[va]m com mais delicadeza para usarem dela quando lhe é precisa”.
Já em meados do XIX, a produção é reportada como crescente no território mais tradicional da tiquira, o Maranhão, em várias freguesias, com destaque para Icatu, que registrava 12 “fábricas” em 1865. Aquele fabrico também era realizado, na província como um todo, por produtores menores, lavradores de arroz, algodão ou mandioca que, secundariamente, destilavam mostos produzidos com a raiz. À época, despachava-se mais e mais frascos para São Luís, sendo ali comercializados e até exportados para outras regiões do país.

Além de ser consumida cotidianamente, consta que, naquela época, de modo similar ao que registrou Rodrigues Ferreira sobre o que acontecia no Grão-Pará, a tiquira era utilizada, substituindo aguardentes estrangeiras, no tratamento de uma porção de doenças. Destaque para os sintomas vomitivos da cólera, enfermidade que protagonizou uma das primeiras grandes epidemias brasileiras do século XIX, assolando notoriamente a capital, o Rio de Janeiro, entre 1855 e 1856.

A tiquira não foi, contudo, um produto de plena aceitação, sem obstáculos em sua trajetória. Ainda no XVIII, o mesmo Rodrigues Ferreira reporta em seu diário uma série de medidas proibitivas do governo do estado do Grão-Pará e Maranhão – arranjo administrativo que conjugava os dois territórios e que durou de 1621 a 1772 –, ao longo de décadas, sobre as aguardentes locais, especialmente as de cana. Medidas ineficazes, por certo, como tantas outras na história do Brasil, pois “não havia meio de eficazmente coibir a introdução da aguardente”, já que, “antes coibida esta, se não podia coibir a outra bebida do pajuaru”, um fermentado indígena, “e a da aguardente dos beijus, em prejuízo das roças de maniba, cujas raízes se arrancavam não para se fabricarem as farinhas, mas para se destilarem as aguardentes”. Um cerco perene a esses produtos que, todavia, nunca foi plenamente bem-sucedido.
No século seguinte, em 1860, diante do referido crescimento da produção constatado na então província maranhense, foi novamente o governo local que, julgando a bebida “prejudicial ao braço rural”, isto é, ao trabalho do escravizado, estabeleceu penalidades aos fabricantes e comerciantes, mesmo diante da importância cotidiana e dos efeitos medicinais e tônicos a ela atribuídos. E o pêndulo continuou, até o século XX, a se mover entre a liberação e os interditos, em função de estigmas que também recaem, há tempos, sobre a cachaça.
Todavia, o cenário hoje vem, felizmente, mudando…
Cerca de vinte anos atrás, o historiador Tarcísio Rodrigues Botelho lamentou: “observa-se uma escassez de referências sobre a tiquira, tanto na documentação produzida sobre o Maranhão até o século XX quanto na própria historiografia contemporânea”. De lá para cá, alguns esforços acadêmicos – boa parte deles multidisciplinar – e políticos têm sido feitos para remediar a questão. Assim, que a disseminação e a (re)valorização progressivas da bebida também sigam acompanhadas de uma compreensão cada vez mais lapidada acerca do seu passado e do valor cultural que ela carrega, como patrimônio regional de apelo nacional!
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Historiador, com Mestrado e Doutorado pela (UNESP), pesquisa bebidas e bebedores na história do BrasilI. Integra o projeto Comer História.