
Minas Gerais registrou os modos de fazer cachaça de alambique como patrimônio cultural imaterial do estado. A decisão foi tomada em 22 de outubro pelo Conselho Estadual do Patrimônio Cultural (Conep), vinculado à Secretaria de Estado de Cultura e Turismo (Secult-MG), em reunião no Palácio da Liberdade, em Belo Horizonte. Na mesma sessão, o conselho também registrou as Expressões do Samba em Minas Gerais como patrimônio imaterial e tombou a Casa de Dona Beja, em Araxá.]
O processo de reconhecimento da cachaça nasceu de um estudo do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG) iniciado em 2004. Desde então, pesquisadores do instituto catalogaram alambiques em seis municípios — Salinas, Januária, Caeté, Paraopeba, Montes Claros e Guaraciaba — e produziram o dossiê técnico que fundamentou a aprovação do Conep. O relatório propõe políticas de salvaguarda para proteger os conhecimentos de produção da bebida, sem fixar uma receita única: a secretária de Estado adjunta de Cultura e Turismo, Josiane de Souza, afirmou que o registro também alcança produtores sem cadastro oficial.
Minas Gerais tem 564 estabelecimentos elaboradores de cachaça registrados no Ministério da Agricultura — 36,7% do total do país e o maior número entre os estados (Anuário da Cachaça 2026, ano-base 2025). O estado também liderou o crescimento absoluto do setor no período, com 63 novos estabelecimentos registrados em relação a 2024. Em paralelo a esse cadastro federal, a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater-MG) contabiliza 630 alambiques no registro estadual, base usada pela Secult-MG para estimar uma produção de cerca de 13,5 milhões de litros de cachaça de alambique por ano.
Sara Regina Santana Santos, que integra a família produtora da cachaça Guaraciaba há 62 anos, no município de mesmo nome, na Zona da Mata mineira, participou da reunião do Conep como representante dos produtores de alambique.
“Esse reconhecimento do Iepha vai abranger muitas famílias que vivem da cachaça e mostrar o valor da bebida para os mais jovens. Antes, a cachaça era malvista e hoje as pessoas estão valorizando mais”,
Regina Santana Santos, cachaça Guaraciaba
O registro estadual é um passo anterior e distinto do processo que tramita em nível federal: desde maio de 2025, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional Iphan analisa o pedido de reconhecimento da cachaça de alambique como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, inspirado no precedente do queijo artesanal mineiro. O governo de Minas já manifestou a intenção de usar o registro estadual como lastro para levar o pleito também à esfera nacional, somando-se ao registro da cozinha mineira, reconhecida como patrimônio imaterial do estado em 2023.
O registro no Iepha não cria obrigação legal nova para os produtores nem substitui registros sanitários, fiscais ou de origem já exigidos pela legislação federal. Ele formaliza o reconhecimento do saber de ofício — da moagem da cana à condução da destilação em alambique de cobre — como parte da identidade cultural do estado, com efeito direto em políticas públicas de salvaguarda e fomento, não em regras de produção ou comercialização.






Salinas, um dos seis municípios mapeados pelo estudo do Iepha, concentra 27 dos estabelecimentos elaboradores de cachaça registrados em Minas Gerais — 4,8% do total do estado, a maior proporção municipal do país (mesmo Anuário, ano-base 2025). É nessa região, tradicionalmente chamada de capital da cachaça de alambique, que o ofício catalogado pelo Iepha tem a concentração mais densa de mestres alambiqueiros em atividade.
Foto: Flor das Gerais e Gouveia Brasil/acervo Mapa da Cachaça.
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