11 mestres da cachaça de Salinas: Guardiões de uma tradição

  • Publicado 1 ano atrás

Conheça os mestres alambiqueiros que deram fama à cachaça de Salinas e transformaram a região em um verdadeiro epicentro de produção do destilado brasileiro

Salinas, no norte de Minas Gerais, é amplamente reconhecida como a Capital Mundial da Cachaça. Esta pequena cidade se destacou ao longo das décadas como um dos principais polos de produção de cachaça no Brasil, superando até mesmo sua vizinha Januária, que antes detinha o título. A notoriedade de Salinas vem não apenas do uso de leveduras selvagens e da tradição local no envelhecimento da bebida em madeiras brasileiras, especialmente o bálsamo, mas também do trabalho incansável de mestres alambiqueiros que dedicaram suas vidas a essa arte. Dentre eles, destacam-se produtores com mais de 60 anos de trajetória, cujas histórias e práticas continuam a moldar a identidade da cachaça de Salinas.

A Contribuição de Salinas para a Cachaça 

A importância de Salinas na produção de cachaça vai além dos números. Com 24 estabelecimentos produtores e 202 cachaças registradas, a cidade se consolidou como o epicentro da cachaça de qualidade no norte de Minas Gerais. O clima semiárido, o uso de canas tradicionais, a predileção por cachaças potentes, as técnicas de produção, como o uso de madeiras brasileiras para o envelhecimento e a utilização de fermento caipira, são apenas alguns dos fatores que contribuem para a singularidade da cachaça de Salinas. No entanto, é o conhecimento e a dedicação de produtores experientes, que buscam respeitar uma tradição, que realmente asseguram que Salinas mantenha seu status.

Esses mestres, com mais de seis décadas de experiência, são os guardiões de uma tradição que continua a influenciar novas gerações de produtores. Sua contribuição é inestimável, não apenas para a economia local, mas para a cultura e identidade do Brasil. 

Anísio Santiago, o mestre dos mestres

Anísio Santiago foi o criador da cachaça Havana, produzida em Salinas, Minas Gerais, uma região que deve grande parte de sua fama a ele. Mesmo enfrentando desafios legais que o obrigaram a comercializar a bebida sob o nome de Anísio Santiago por um período, a cachaça recuperou seu nome original — uma vitória que reafirma sua importância histórica e cultural.

Desde os anos 1940, Anísio dedicou-se à fabricação de uma bebida de alta qualidade, utilizando técnicas tradicionais e mantendo um padrão rigoroso. Envelhecida por cerca de dez anos em tonéis de bálsamo, a Havana possui um sabor único e complexo, que vai além da simples degustação, incorporando um legado cheio de sabedoria, mitos e tradições. Sua produção artesanal e autêntica resistiu às modas do mercado, mantendo-se verdadeira às suas raízes.

Anísio Santiago não apenas criou uma cachaça que representa uma região, mas também influenciou profundamente outros produtores da cachaça de Salinas, de Minas Gerais e, potencialmente, de todo o Brasil. Seu método de produção e maturação inspirou inúmeros outros produtores a seguir seus passos, o que chamamos de Escola Anísio Santiago.

Aldeir Xavier, tradição na Cachaça Sabiá

Aldeir Xavier, aos 72 anos, é o herdeiro de uma tradição que remonta à década de 1930, quando seu avô, pioneiro na produção artesanal de cachaça, deu início à história da Cachaça Sabiá na zona rural de Salinas, Minas Gerais. A produção, que começou de forma modesta, logo ganhou notoriedade na região pela qualidade excepcional da bebida, impulsionada pelo compromisso da família com métodos tradicionais e cuidados minuciosos.

rótulo da cachaça Sabiá

Na década de 1950, o avô de Aldeir decidiu interromper a produção da Cachaça Sabiá, mas o legado não ficou adormecido por muito tempo. Seu pai, determinado a preservar a herança familiar, retomou a produção ao lado de um tio de Aldeir, dando continuidade à tradição com a mesma dedicação e respeito às raízes. Durante as décadas de 1960 e 1970, a Cachaça Sabiá se consolidou como uma referência de qualidade em Salinas, mantendo viva a essência artesanal que sempre a caracterizou.

Sob a liderança de Aldeir Xavier, a Cachaça Sabiá alcançou novos patamares, mantendo o foco em um rigoroso controle de qualidade que faz jus às gerações anteriores. Cada etapa do processo produtivo é realizada com extrema atenção, desde a escolha da cana-de-açúcar até o engarrafamento. O uso do fermento caipira e de leveduras selvagens, uma técnica transmitida de geração em geração, garante o sabor autêntico e inconfundível que distingue a Cachaça Sabiá das demais.

Geraldo Santiago: O herdeiro de um legado

Geraldo Santiago, de 69 anos, é o filho caçula de Anísio Santiago. Geraldo carrega a responsabilidade de manter e aprimorar o legado do pai, mantendo os altos padrões que Anísio sempre exigiu. Mesmo com o avanço das tecnologias e dos métodos de controle de qualidade, Geraldo permanece fiel aos princípios estabelecidos por seu pai, garantindo que a cachaça produzida na Fazenda Havana continue sendo uma das mais respeitadas e cobiçadas do Brasil.

Anísio Santiago/Havana

Osvaldo Santiago: Mantendo a tradição com a Cachaça Havaninha

Osvaldo Mendes Santiago, filho de Anísio Santiago, começou a se envolver na produção de cachaça na fazenda Havana desde a década de 1940. Após o falecimento de seu pai em 2002, Osvaldo assumiu a responsabilidade pela produção e comercialização das famosas cachaças Havana e Anísio Santiago, preservando a qualidade que tornou essas marcas lendárias no Brasil.

Em 2013, inspirado pelos ensinamentos de Anísio, Osvaldo lançou sua própria marca, a Cachaça Havaninha. Produzida na fazenda Piragibe, na Serra dos Bois, a Havaninha segue rigorosos padrões tradicionais, utilizando variedades de cana como java e uva, fermentadas com leveduras selvagens. Envelhecida em dornas de bálsamo, a Havaninha continua o legado de excelência de Osvaldo, refletindo seu compromisso com a tradição e a autenticidade da cachaça de Salinas.

Juventino Gomes de Miranda, continuação do legado de Aníbal Gonçalves das Neves e Ney Corrêa

Aníbal Gonçalves das Neves foi o pioneiro na fabricação da cachaça Piragibana, produzida na fazenda Piragibe. Em 1938, ele vendeu a propriedade para Ney Corrêa, que levou um passo adiante ao comercializar a marca em garrafas. Posteriormente, Ney Corrêa transferiu a fazenda para Juventino Gomes de Miranda.

Almanaque de Salinas, de 1935 com os produtores de cachaça de Salinas dessa época
Almanaque de Salinas, de 1935, traz os nomes de produtores de cachaça do município de Salinas. Dentre eles consta o nome de Aníbal Gonçalves das Neves, pioneiro na criação da cachaça Piragibana

Juventino Gomes de Miranda e a empresa Aguardente Chalana deixaram um legado duradouro que continua a influenciar as cachaças de Salinas. Com a cachaça Piragibana, cujo nome possui raízes indígenas—onde Pira significa pedra e Gibana significa rio, resultando na bela tradução rio que corre sobre o leito de pedras—Juventino não foi apenas um empresário visionário, mas também um pioneiro na arte de produzir cachaça de altíssima qualidade na região.

cachaça piragibana

A cachaça Piragibana, oficialmente registrada por Juventino em fevereiro de 1981, é um testemunho de sua paixão e habilidade. A cachaça incorpora o valioso conhecimento transmitido por Ney Corrêa, que revelou a Juventino os segredos da produção de cachaça. Desde junho de 2016, a administração da empresa está sob nova direção familiar, que representa as cachaças Piragibana, Contendas e Serra Morena.

Uma das inovações pioneiras de Juventino foi criar um blend de cachaças envelhecidas em barris de carvalho e bálsamo, mantendo as características do terroir de Salinas, mas trazendo uma assinatura própria e distintiva.

Noé Santiago, aluno da Escola Anísio Santiago

A Cachaça Canarinha é uma joia tradicional de Salinas, produzida desde 1988 por Noé Santiago, sobrinho do lendário Anísio Santiago. Noé seguiu os rigorosos princípios da escola cachaceira estabelecida por seu tio, mantendo viva a essência que ajudou a consolidar Salinas como a terra da cachaça. Após o falecimento de Noé em 2008, aos 69 anos, seu filho, Eilton Santiago, assumiu a responsabilidade de preservar essa herança.

A história da Canarinha é marcada por um detalhe curioso. Segundo Alessandra Trindade, em “Cachaça: Um Amor Brasileiro“, a cachaça originalmente se chamaria “Cana Rinha”, em referência a uma variedade de cana-de-açúcar utilizada na produção. No entanto, devido a um erro de impressão no rótulo, o nome “Canarinha” foi adotado, conferindo à bebida uma nova identidade, que logo se tornou um símbolo, com um mascote brasileiro representando essa tradição.

Rótulo da cachaça Canarinha Aguardente

Lucas Mendes, Saliníssima e Tabúa

Na década de 1930, Olímpio Mendes de Oliveira iniciou uma modesta produção de cachaça na Fazenda Matrona, em Taiobeiras, situada na microrregião de Salinas. O empreendimento, que contava com poucos funcionários e um engenho de madeira movido por tração animal, aos poucos ganhou notoriedade e se destacou entre outras cachaças produzidas no Cerrado mineiro.

lucas mendes cachaca tabua salinissima 11 mestres da cachaça de Salinas: Guardiões de uma tradição

Com a morte de Olímpio em 2003, José Lucas, pertencente à terceira geração da família, abandonou a ideia de ingressar no seminário e decidiu dar continuidade à tradição familiar. Motivado pelo crescimento do mercado, Lucas investiu na construção de uma nova destilaria e na criação da marca Tabúa, nome inspirado na planta que cresce nas áreas alagadas da região.

Lucas permanece fiel à tradição, seguindo a receita da Escola Anísio Santiago. Ele utiliza leveduras selvagens e milho para a fermentação e, após a destilação, armazena a aguardente em barricas de bálsamo produzindo por ano entre 250 e 300 mil litros das marcas Saliníssima e Tabúa

João Moraes Pena, o médico que virou produtor

João Moraes Pena, um renomado médico especializado em três áreas da medicina, iniciou sua jornada na produção de cachaça em 1992, aos 73 anos, por pura casualidade. Utilizando equipamentos emprestados, João produziu 450 litros de cachaça em sua primeira tentativa, que se revelou um sucesso inesperado. Amigos e conhecidos começaram a pedir mais de sua cachaça, incentivando-o a transformar a brincadeira em um negócio sério com a formalização da cachaça Erva Doce.

Dedicado e detalhista, João se destacou especialmente por sua habilidade em criar blends que agradassem a diversos públicos. Um de seus grandes triunfos foi desenvolver uma cachaça pensada para ser apreciada por mulheres e jovens, que, segundo ele, muitas vezes faziam careta ao provar bebidas mais robustas. Para chegar à fórmula ideal, João experimentou combinações diversas, misturando madeiras como Jequitibá e Pau Fava. Após testar cerca de 80 a 100 fórmulas, ele selecionou quatro misturas que, combinadas, resultaram em um blend perfeito.

cachacas salinas mg 11 mestres da cachaça de Salinas: Guardiões de uma tradição

Valdete Romualdo da Silva, produtor da Indaizinha

Desde 1958, Valdete Romualdo da Silva vem produzindo essa cachaça que leva o nome de Indaiá, iniciada no povoado de Indaiá, na fazenda Sobrado, em Salinas. A partir da década de 1980, a Indaiazinha é produzida por Jânio César Silva, filho de Valdete Romualdo.

garrafa da cachaça de Salinas, a Indaiazinha

A Indaiazinha segue a tradição da Escola Anísio Santiago e o envelhecimento por 8 anos em tonéis de bálsamo é o segredo de seu sabor único. Alguns apreciadores afirmam que Valdete conseguiu até superar o mestre de Salinas, produzindo a melhor cachaça da região.

Valdete Romualdo faleceu em 2017 e será lembrado, assim como Anísio Santiago e Nei Corrêa, como um dos pioneiros no mercado de cachaça artesanal, sendo fundamental para a consolidação de Salinas como a Capital Mundial da Cachaça.

Canavial Anisio Santiago 11 mestres da cachaça de Salinas: Guardiões de uma tradição
Canavial em Salinas, Minas Gerais

Deli Alves Rocha, tradição na década de 50 com inovação nos anos 2000

A história da cachaça Meia Lua começa em 1950, quando Deli Alves Rocha deu os primeiros passos na produção de cachaça e rapadura. Com o tempo, a distribuição desses produtos foi ampliada por sua filha e seu genro, João Fernandes, o que resultou em um aumento significativo da demanda e na criação da marca Lua Cheia.

cachaça Unna, cachaça de Salinas
Inovação para as cachaças de Salinas com uso de barris de carvalho tostados

Em 1988, Ailton Fernandes, reconhecendo o crescente potencial do negócio, formalizou a expansão ao fundar a Meia Lua Destilaria. Foi nessa fase que nasceram as icônicas marcas Meia Lua e Lua Azul. A destilaria passou por uma nova transformação em 2019, quando foi adquirida por Jovino Ferrari. Com uma visão inovadora, Ferrari implementou um ambicioso plano de expansão que incluiu a criação da marca Unna, trazendo uma linha premium e o uso de barricas virgens de carvalho, inovando nas cores, aromas e sabores da cachaça local.

Antônio Ferreira de Sarmento, com ajuda de amigo ilustre iniciou a Salineira

Antônio Ferreira de Sarmento, mais conhecido como Toninho, é natural de Salinas e entrou no mercado de produção de cachaça no final da década de 1980, motivado pelo incentivo de um grande amigo, o renomado mestre Anísio Santiago. No início de sua trajetória, Anísio o auxiliou recomendando um mestre alambiqueiro experiente e fornecendo equipamentos básicos, como um cocho para a fermentação. Com a colaboração, iniciou a produção da cachaça Salineira. A generosidade de Anísio foi fundamental não apenas na transmissão de sua filosofia de produção – que prioriza processos lentos, volumes reduzidos e qualidade elevada – mas também ao inspirar, na prática, outros produtores locais a iniciarem seus próprios empreendimentos.

Em 2010, Felipe Jannuzzi fundou o Mapa da Cachaça, premiado projeto cultural com reconhecimento internacional e a principal referência sobre cachaça no mundo. Felipe é um dos sócios fundadores da Espíritos Brasileiros, empresa pioneira no mercado de produção de gin no Brasil, responsável pelo premiado Virga, primeiro gin artesanal brasileiro e o único no mundo que leva doses de cachaça na receita. Desde 2021, é um dos sócios da BR-ME, empresa especializada em produtos brasileiros, como vinhos, cafés, azeites, queijos e chocolates.

Experiências