
A Princesa Isabel começou a vender esta semana dois vinhos tintos sob a marca Casa Ceglia. Os rótulos são elaborados pela vinícola Viapiana, em Flores da Cunha, na Serra Gaúcha, e chegam ao consumidor pela mesma estrutura de distribuição que a destilaria capixaba usa para as cachaças, o gim Mar e a vodca Amplify.
O movimento fecha um circuito que começou na adega. A relação entre a Fazenda Tupã, em Linhares, e a vinícola gaúcha nasceu de um barril que antes envelheceu vinho para dar origem à cachaça Princesa Isabel Nebbiolo.

A Princesa Isabel Nebbiolo envelheceu três anos em barris novos de carvalho americano e depois repousou em barricas de carvalho europeu que a Viapiana havia usado para amadurecer tintos da uva Nebbiolo. Foi essa cachaça que levou o Duplo Ouro no New Spirits 2026.
Barrica de segunda mão entrega menos madeira nova e devolve parte do que a bebida anterior deixou na superfície. Depois de dois anos guardando um tinto de Nebbiolo, o que a madeira cede à cachaça são taninos e compostos vínicos — e daí vêm os reflexos rubros e as notas de fruta madura que o rótulo capixaba apresenta.
Adão Cellia e o filho Pedro Cellia já conheciam a produção da Viapiana quando viajaram, há cerca de um ano, pela região de Valpolicella, no Vêneto. Da viagem saiu a decisão de aproveitar a logística de vendas já montada para colocar vinho no catálogo.
O Casa Ceglia Merlot é um varietal safra 2021, com 13,3% de teor alcoólico, engarrafado em 750 ml e maturado em barricas de carvalho francês e americano, segundo o rótulo. Custa em torno de R$ 180. O Casa Ceglia Corte é uma mescla bordalesa de Merlot, Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc com acréscimo de Tannat, passa seis meses em barrica de carvalho e chega por cerca de R$ 90. Os dois são vendidos no site do grupo.
A escolha de madeira do Merlot não é detalhe de ficha técnica. Carvalho francês é a barrica que a Viapiana emprega nos seus tintos de guarda — e é da mesma família de madeira que saíram os barris cedidos ao alambique capixaba. A vinícola e a destilaria compartilham, agora, o mesmo tipo de recipiente em dois produtos diferentes.
O nome Casa Ceglia já existia no portfólio. Em dezembro de 2025, a destilaria lançou a cachaça Casa Ceglia, maturada em carvalho europeu que antes recebeu Vinho do Porto. A assinatura cobre, desde esta semana, bebidas de duas categorias, produzidas em dois estados.
Ceglia é o sobrenome original da família de Adão Cellia. Os avós dele saíram da região de Caserta e de Nápoles e desembarcaram em Vitória em 1894, antes de subir o rio rumo a Nova Venécia, no norte capixaba. A marca homenageia esse percurso e a imigração italiana para o Espírito Santo, iniciada oficialmente em 1874.
A Viapiana tem genealogia equivalente no Sul. Antônio Viapiana partiu de Mantova, na Lombardia, em 1878, aos dez anos, e chegou à antiga Colônia Caxias, hoje Flores da Cunha. A vinícola ocupa o mesmo terreno onde ele plantou os vinhedos, e vinificou a primeira safra própria em 1986, já sob a quinta geração da família.
A coincidência explica a parceria melhor do que a conveniência logística. Duas casas familiares nascidas da imigração italiana, uma de cana e outra de uva, assinam rótulos que levam o nome do mesmo tipo de antepassado: o colono que chegou sem terra e ficou.
A destilaria Princesa Isabel produz 40 mil litros de cachaça por safra na Fazenda Tupã, perto da foz do Rio Doce, e está entre as dez melhores marcas do Brasil na avaliação do Mapa da Cachaça. O catálogo reunia cachaça, gim e vodca; com os tintos, passa a incluir bebida que a casa não produz, apenas assina e distribui.
O arranjo inverte o caminho mais comum no setor. Em vez de levar o próprio destilado a outro mercado, o alambique traz um produto de outro terroir brasileiro para dentro do seu canal de venda — o oposto do trajeto que a Nebbiolo fez quando a barrica gaúcha desceu para a adega capixaba.
Adão e Pedro Cellia informam que o próximo passo da parceria é desenvolver rótulos novos com a vinícola. Quem acompanha como uma marca constrói portfólio a partir de madeira, blend e prêmio encontra o método detalhado no Guia Mapa da Cachaça, que avaliou às cegas quase 200 rótulos.
Livros e ferramentas criados pelo Mapa da Cachaça para estudar, provar e registrar suas descobertas.

