
O Instituto Nacional da Propriedade Industrial publicou, em 22 de setembro de 2026, o reconhecimento da Indicação Geográfica da tiquira do Maranhão, na espécie Indicação de Procedência. Com o novo registro, o INPI chega a 181 Indicações Geográficas reconhecidas: 137 Indicações de Procedência e 44 Denominações de Origem.
Para além do número, a notícia coloca em evidência uma bebida brasileira ainda pouco conhecida fora de seu território de origem. A tiquira é um destilado de mandioca, produzido a partir da fermentação alcoólica e posterior destilação de beijus. Seu nome vem do tupi tykir, associado à ideia de cair gota a gota — imagem que conversa diretamente com o processo de destilação.
No Mapa da Cachaça, a tiquira já apareceu em outras ocasiões como parte desse universo mais amplo das aguardentes brasileiras, sem se confundir com a cachaça. Em um apanhado histórico sobre a tiquira, mostramos como a bebida carrega uma trajetória própria, ligada à mandioca, ao Maranhão e a saberes que não cabem dentro da categoria cachaça.
A Indicação de Procedência reconhece a relação entre um produto e o lugar que se tornou conhecido por sua produção. No caso da tiquira, essa relação passa pela mandioca, pelos beijus, pela fermentação natural e pela destilação em alambiques de cobre.
A produção contínua da bebida é concentrada no Maranhão desde o período colonial. A área delimitada da Indicação de Procedência abrange os municípios de Santo Amaro do Maranhão, Barreirinhas, Urbano Santos, Santana do Maranhão e Santa Quitéria do Maranhão.
Esse recorte territorial ajuda a proteger e organizar um patrimônio produtivo que depende de conhecimento local. A tiquira não é apenas uma bebida definida por ingredientes ou etapas técnicas: ela carrega práticas, vocabulário, memória e uma relação antiga com a mandioca, alimento central em muitas culturas brasileiras. Esse valor cultural já tinha sido reforçado quando a tiquira foi reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Maranhão.
A base da produção está no processamento da mandioca em beijus. Depois, ocorre a fermentação natural, conduzida por micro-organismos presentes no ambiente. A etapa seguinte é a destilação em alambiques de cobre.
O reconhecimento pelo INPI vem acompanhado de um Caderno de Especificações Técnicas, que regula etapas de produção, padrões físico-químicos e controles. Esse tipo de documento é importante porque transforma o reconhecimento territorial em regras práticas para o uso da Indicação Geográfica.
O direito de uso da IP vale para produtores estabelecidos na área delimitada que cumpram as normas definidas. Assim, a Indicação de Procedência funciona tanto como instrumento de valorização quanto como mecanismo de organização coletiva.
A notícia também ajuda a ampliar a conversa sobre os destilados brasileiros. A cachaça ocupa, com razão, um lugar central nessa história. Mas ela não está sozinha. A tiquira, como já defendemos em Tiquira – Aguardente do Brasil, é uma das bebidas que ajudam a mostrar a diversidade do país para além da cana-de-açúcar.
A tiquira mostra que o Brasil tem uma tradição mais diversa de bebidas destiladas do que muitas vezes se imagina. Sua base é a mandioca, não a cana-de-açúcar. Seu processo parte dos beijus, não do caldo de cana. Seu território simbólico e produtivo aponta para o Maranhão e para modos de fazer que atravessam gerações.
Reconhecer essa diferença é parte do trabalho de valorizar melhor cada bebida. A tiquira não precisa ser aproximada da cachaça para ganhar relevância. Ela ganha força justamente quando aparece com nome, história e identidade próprios.
O reconhecimento pelo INPI não cria a tiquira, que já existia muito antes do registro. O que ele faz é reconhecer oficialmente a reputação de uma produção vinculada a determinado território e estabelecer regras para o uso desse nome como Indicação Geográfica — mecanismo que explicamos em mais detalhes no artigo sobre Indicação de Procedência e Denominação de Origem.
Na prática, isso pode contribuir para dar mais visibilidade ao produto, fortalecer produtores locais, orientar padrões de qualidade e proteger o nome associado à procedência. Também cria uma oportunidade para o público conhecer melhor uma bebida brasileira que ainda circula menos do que merece nas conversas sobre cultura alimentar e destilados.
Para o Mapa da Cachaça, a notícia merece atenção porque reforça uma ideia importante: o Brasil tem muitos mapas dentro do mapa. A tiquira do Maranhão é um deles.





Imagens: Agência Sebrae Maranhão, em matéria sobre o processo de Indicação Geográfica da tiquira.
Fontes: Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI); Agência Sebrae Maranhão para as imagens do processo de Indicação Geográfica.
Livros e ferramentas criados pelo Mapa da Cachaça para estudar, provar e registrar suas descobertas.
O INPI reconheceu a tiquira do Maranhão como Indicação Geográfica, na espécie Indicação de Procedência.
A publicação foi feita em 22 de setembro de 2026.
A área delimitada abrange Santo Amaro do Maranhão, Barreirinhas, Urbano Santos, Santana do Maranhão e Santa Quitéria do Maranhão.
A tiquira é feita a partir da mandioca processada em beijus, com fermentação alcoólica natural e destilação em alambiques de cobre. Leia também o artigo do Mapa sobre a história da tiquira.
O direito de uso vale para produtores estabelecidos na área delimitada que cumpram as normas do Caderno de Especificações Técnicas.
Com a tiquira do Maranhão, o INPI chega a 181 IGs reconhecidas: 137 Indicações de Procedência e 44 Denominações de Origem. Para entender o mecanismo, veja o artigo sobre Indicação de Procedência e Denominação de Origem.