
O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) acaba de publicar o Anuário da Cachaça 2026 – Ano de Referência 2025, o documento oficial que consolida os números do registro de estabelecimentos e produtos, da exportação, da geração de empregos e da produção declarada da bebida mais brasileira que existe. E os dados desta edição contam uma história animadora: a cachaça vive um dos seus melhores momentos em formalização, com crescimento recorde no número de produtores registrados, mais rótulos nas prateleiras e uma presença que se espalha por todos os cantos do país.
Reunimos aqui, no Mapa da Cachaça, os principais destaques do Anuário para você entender de onde vem e para onde vai a nossa cachaça. Se quiser comparar com os anos anteriores, vale revisitar o nosso retrato do setor no Anuário 2025. E, para quem quiser ver todos os gráficos e tabelas na fonte, disponibilizamos o relatório completo em PDF.
O dado que abre o Anuário já dá o tom. Em 2025, o Brasil alcançou 1.538 estabelecimentos elaboradores de cachaça registrados no Mapa, um crescimento de 21,5% em relação ao ano anterior — são 272 novos estabelecimentos regularizados em apenas um ano.
Para dimensionar: este é o maior crescimento, tanto relativo quanto absoluto, de toda a série histórica estudada, que vai de 2018 a 2025. No acumulado do período, o número de estabelecimentos registrados cresceu 61,7%. Depois de anos de oscilação — a série chegou a recuar em 2019 e 2021 —, o setor engatou uma trajetória consistente de alta a partir de 2022.
Vale lembrar o que o registro representa. Produzir e comercializar cachaça sem registro no Mapa é ilegal e constitui infração; consumir cachaça não registrada é um risco à saúde. Antes de comprar, aliás, é bom saber quais informações são obrigatórias no rótulo e como funciona a legislação da cachaça. O crescimento no número de estabelecimentos regularizados, portanto, não é só uma boa notícia econômica: é um sinal de amadurecimento e de mais segurança para quem produz e para quem bebe.
Nenhuma novidade na liderança geográfica: Minas Gerais segue sendo, disparado, o estado com mais estabelecimentos elaboradores de cachaça, com 564 unidades — 36,7% de todo o país. Minas também teve o maior crescimento absoluto, com 63 estabelecimentos a mais que em 2024. Na sequência aparecem São Paulo (230) e Rio Grande do Sul (106).
Por região, o Sudeste concentra a maior parte da cadeia, com 961 estabelecimentos, ou 62,5% do total nacional. Mas o destaque de crescimento vai para outra região: o Sul foi quem mais cresceu em termos relativos, com alta de 51,4% (94 registros a mais), enquanto o Sudeste liderou em números absolutos, com 133 novos estabelecimentos.
Entre as unidades da federação, os campeões de crescimento relativo foram Sergipe (+200%, saltando de 1 para 3 estabelecimentos) e o Distrito Federal (+150%, de 4 para 10). Na contramão, apenas Maranhão e Mato Grosso registraram queda, com um estabelecimento a menos cada. Amapá e Roraima seguem sendo os únicos estados sem nenhum estabelecimento elaborador de cachaça registrado.
Um dos números mais bonitos do Anuário é o da dispersão geográfica. Em 2025, 844 municípios brasileiros tinham pelo menos um estabelecimento elaborador de cachaça registrado — um aumento de 14,8% em relação aos 735 municípios de 2024. Isso significa que hoje existe cachaça sendo produzida em 15,2% de todas as cidades do Brasil.
No topo da lista de municípios, Salinas/MG, a capital mundial da cachaça, recupera a primeira posição, com 27 estabelecimentos registrados, seguida de Alto Rio Doce/MG (25) e Viçosa do Ceará/CE (24). Ao todo, 11 cidades brasileiras têm 10 ou mais estabelecimentos — e cinco delas ficam em Minas Gerais. Já conhecíamos boa parte desse mapa quando mostramos as cidades que abrigam mais marcas de cachaça no Brasil.
Vale um olhar para a chamada densidade cachaceira, que cruza população e número de estabelecimentos. O Brasil tem hoje um estabelecimento elaborador de cachaça para cada 138.221 habitantes, uma melhora de 17,7% em relação a 2024 (quando eram 167.918 habitantes por estabelecimento). Minas Gerais lidera com folga, com um estabelecimento para cada 37.806 habitantes. E, no recorte municipal, Rio Espera/MG é a cidade mais “servida” de cachaça do país: são 10 estabelecimentos para uma população de pouco mais de 3 mil pessoas, o equivalente a um produtor para cada 322 habitantes.
Se há mais produtores, há também mais cachaça registrada. Em 2025, o Brasil chegou a 8.379 produtos registrados como cachaça, um crescimento de 16% (mais 1.156 registros) na comparação com o ano anterior. A trajetória é de alta consistente desde 2019, quando eram menos de 3 mil rótulos.
Aqui, mais uma vez, Minas Gerais domina, com 2.922 cachaças registradas — 34,9% do total nacional. A média brasileira é de 5,4 cachaças registradas por estabelecimento, mas alguns estados fogem bastante desse padrão: o Rio Grande do Norte tem a média mais alta do país, com 10,8 produtos por estabelecimento. Com tanta variedade, conhecer os tipos de cachaça — branca, envelhecida, ouro e mais ajuda a navegar pelas prateleiras.
Quando se olha para as marcas comerciais, o número impressiona ainda mais: são 11.131 marcas de cachaça nos produtos registrados no Mapa em 2025, alta de 16,8% frente às 9.532 do ano anterior. Vale a ressalva técnica: um mesmo registro de cachaça pode contemplar mais de uma marca, o que significa que produtos com nomes diferentes podem ter a mesma composição e denominação legal. No município, Salinas/MG segue como o maior polo, com 319 cachaças registradas.
A internacionalização da cachaça deu um passo importante em 2025. As exportações brasileiras somaram 7.957.087 litros, um aumento de 19,4% em volume, e faturaram US$ 17.073.344 (FOB), alta de 17,4% em valor. O produto chegou a 76 países de destino, a maior dispersão da série — há compradores de cachaça em todos os continentes do planeta. Já tínhamos analisado esse movimento em detalhe ao falar dos números, oportunidades e tendências do mercado global da bebida.
Os mercados, no entanto, contam histórias diferentes conforme o critério. Em volume, o Paraguai é o principal destino, respondendo sozinho por 16,9% de tudo o que foi exportado, seguido por Alemanha e Estados Unidos. Já em valor, quem lidera são os Estados Unidos, com US$ 4,12 milhões — quase 24,1% do mercado de exportação —, à frente de Paraguai e Portugal. Não à toa, EUA, Alemanha e Paraguai lideram as compras de cachaça. A diferença entre os rankings se explica pelo preço: a cachaça vendida aos EUA vale muito mais por litro do que a embarcada para o Paraguai.
O preço médio geral do litro exportado ficou em US$ 2,15, uma leve queda de 1,4% em relação a 2024 (US$ 2,18). Nos extremos, a Romênia foi o destino que pagou o maior valor médio por litro (US$ 432,42, em pequenas quantidades premium), enquanto o Suriname registrou o menor (US$ 0,88). Um detalhe que reforça a identidade da bebida: não existe importação de cachaça, simplesmente porque ela é um produto tipicamente brasileiro, feito e reconhecido aqui.
No mercado de trabalho, a atividade de fabricação de aguardente de cana-de-açúcar gerou um estoque médio mensal de 6.232 empregos diretos em 2025 — o que corresponde a 4,4% de todos os empregos da indústria de fabricação de bebidas. O número ficou praticamente estável, com leve variação negativa de 0,06% (quatro postos a menos), mas mantém uma tendência de alta no médio prazo: de 2020 a 2025, o acúmulo é de crescimento de 10,67%. Sudeste (2.890 postos) e Nordeste (2.521) concentram a maior parte desses empregos, e apenas Centro-Oeste e Sul cresceram na comparação anual.
Já a produção declarada pelos estabelecimentos ao Mapa, via Declaração Anual de Produção e Estoques, atingiu cerca de 234,5 milhões de litros de cachaça em 2025 (234.477.116,52 litros, para ser exato) — ante os cerca de 292,5 milhões de litros que o anuário anterior havia registrado para 2024. O novo relatório aponta um recuo oficial de 15,77% na produção declarada (o Mapa revisou parte da base de 2024), e este é o principal ponto de retração do ano. O Sudeste responde por 64,13% de toda a produção nacional declarada, e o Centro-Oeste foi a única região a crescer nesse quesito (+11,12%).
Um dado interessante para quem valoriza a qualidade: 81,60% de todo o volume declarado foi produzido a partir de cana-de-açúcar crua, e apenas 18,40% a partir de cana queimada — modalidade que, aliás, caiu 30,02% em relação ao ano anterior. É um sinal de que a colheita da cana sem a queima, melhor para o meio ambiente e para o produto, avança na cadeia. Quem quiser entender como essa escolha afeta a bebida pode conferir os diferentes processos de produção da cachaça.
O Anuário reserva um espaço para o coquetel mais famoso feito com cachaça. Assim como a bebida-base, a caipirinha também é um produto tipicamente brasileiro — e a versão industrializada, pronta para consumo, tem seus próprios números. Em 2025, havia 86 produtos de caipirinha registrados, elaborados por 56 estabelecimentos espalhados por 12 estados, que juntos produziram 34.481,65 litros da bebida pronta. Se a vontade for fazer a sua em casa, temos a receita oficial da caipirinha, do jeito certo.
Colocando lado a lado os números divulgados no anuário anterior (ano-base 2024) e no atual (ano-base 2025), fica fácil enxergar a fotografia do setor: crescimento em quase todas as frentes ligadas à formalização e ao comércio, com a produção declarada como principal exceção.

| Indicador (2025) | Número | Variação vs. 2024 |
|---|---|---|
| Estabelecimentos registrados | 1.538 | +21,5% (+272) |
| Cachaças (produtos) registradas | 8.379 | +16% (+1.156) |
| Marcas de cachaça | 11.131 | +16,8% |
| Municípios com produção | 844 | +14,8% |
| Exportação — volume | 7,96 milhões de litros | +19,4% |
| Exportação — valor | US$ 17,07 milhões (FOB) | +17,4% |
| Países de destino | 76 | maior da série |
| Empregos diretos (estoque mensal) | 6.232 | −0,06% |
| Produção declarada | 234,5 milhões de litros | −15,77% |
| Estado líder | Minas Gerais — 564 estab. (36,7%) | +63 estab. |
Somados, os dados do Anuário da Cachaça 2026 desenham um setor que se formaliza, se espalha e se diversifica. Mais produtores registrados, mais rótulos, mais marcas, mais municípios com produção e mais países comprando: a cachaça está deixando para trás a informalidade histórica e se afirmando, ao mesmo tempo, como patrimônio cultural e como produto econômico relevante.
Há, claro, pontos de atenção — a queda no volume de produção declarada e a leve retração no preço médio de exportação mostram que crescimento em número de players não significa, automaticamente, crescimento em volume ou em valor agregado. Mas a direção geral é de amadurecimento. Para um destilado que por muito tempo foi tratado como coadjuvante, ver a cachaça registrada em 15% das cidades do Brasil e presente em todos os continentes é, no mínimo, motivo para brindar.
Os dados apresentados neste artigo foram extraídos do Anuário da Cachaça 2026 (Ano de Referência 2025), publicado pela Secretaria de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Acesse o relatório completo em PDF.
São 1.538 estabelecimentos elaboradores de cachaça registrados no Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), um crescimento de 21,5% (272 a mais) em relação a 2024 — o maior salto de toda a série histórica.
Minas Gerais lidera com folga: 564 estabelecimentos (36,7% do total nacional) e 2.922 cachaças registradas (34,9% do país). Como região, o Sudeste concentra 62,5% dos produtores.
Em 2025 havia 8.379 produtos registrados como cachaça (+16%) e 11.131 marcas comerciais (+16,8%). Salinas/MG é o maior polo municipal, com 319 cachaças registradas.
Para 76 países em 2025, a maior dispersão da história. Em volume, o Paraguai é o principal destino; em valor, os Estados Unidos. O total exportado foi de 7,96 milhões de litros, faturando US$ 17,07 milhões (FOB).
Em 2025 foram declarados cerca de 234,5 milhões de litros de cachaça. Desse total, 81,6% veio de cana-de-açúcar crua e 18,4% de cana queimada.
É o documento oficial publicado anualmente pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), que consolida os dados de registro de estabelecimentos e produtos, exportação, empregos e produção do setor. Esta edição, o Anuário 2026, tem como ano de referência 2025.
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