
Um barril de 50 litros está entre os menores recipientes que um alambique usa para envelhecer cachaça — e é também o mais apressado: quanto menor o barril, mais madeira toca cada litro. Foi num barril desse tamanho, de cerejeira, que a Engenho Nobre deixou uma cachaça descansar por um ano. Não para que ela dominasse a taça, mas para temperar outra, essa sim envelhecida três anos em jequitibá-rosa.
Da soma saiu a Nobre Paraibana, edição de 250 garrafas da destilaria de Cruz do Espírito Santo, a 30 quilômetros de João Pessoa, feita para o Dia Nacional da Cachaça, celebrado pelo setor em 13 de setembro.

O tamanho do barril, aqui, engana. A Nobre Paraibana não tem a intensidade que se espera de um envelhecimento em recipiente pequeno, porque a cachaça no barril pequeno não é a protagonista: ela entra em pequenas doses no blend, como quem acerta o tempero de um prato já cozido.
“É uma homenagem à beleza e à simplicidade da mulher paraibana, que coloca um pouquinho de perfume no canto da orelha.”
Murilo Coelho, mestre de adega da Engenho Nobre

No vocabulário da cachaça, cerejeira é um dos nomes populares da amburana — em geral para designar a Amburana cearensis —, ao lado de imburana, umburana, cumaru-do-ceará e cumaru-de-cheiro. A lista está no Guia Mapa da Cachaça e é a origem de boa parte da confusão entre produtor e tanoeiro. A história por trás desses nomes já rendeu artigo próprio no Mapa.
A confusão não para no Brasil. Há também a cerejeira europeia, a Prunus avium, e a sakura japonesa — madeiras de outra família botânica, sem nenhum parentesco com a amburana, que aparecem em barris de uísque. E dentro da própria cerejeira brasileira a dúvida continua: pode ser Amburana cearensis ou Amburana acreana, mesmo gênero, espécies distintas, e nada garante que entreguem a mesma coisa ao destilado. Ou seja: o nome no rótulo não identifica madeira nenhuma. Para saber o que está no barril, só perguntando ao produtor — e, muitas vezes, nem mesmo o tanoeiro sabe qual madeira vendeu — e infelizmente, fica a dúvida do que se está realmente bebendo.
A madeira chega do tanoeiro com nome popular, e há pouquíssima literatura técnica comparando o que cada espécie de amburana entrega ao destilado.



Do outro lado do blend está o jequitibá-rosa, a madeira nacional mais próxima do carvalho americano: também entrega vanilina, e com ela um fundo de baunilha. Só que é madeira de dorna grande, quase sempre já exaurida pelo uso, e por isso trabalha em voz baixa, sem trazer grande impacto. Mesmo depois de três anos ali, a Nobre Paraibana ganhou cor (amarelo-palha) e corpo sem que a madeira impusesse personalidade — o doce vem com delicadeza floral da madeira, mas é a base branca, a cana, que continua aparecendo na taça.
É uma escolha, não um acaso. Murilo Coelho vem se consolidando como um mestre de adega conceitual, na linha de Adwalter Menegatti, da Santa Terezinha: parte da ideia antes de partir para a madeira. E já provou que sabe fazer o caminho oposto. A Nobre Sensação Umburana passou um ano em barris novos de amburana de 200 litros e recebeu 91,5 pontos e quatro estrelas no Guia Mapa da Cachaça, na categoria das envelhecidas em madeira brasileira ou exótica — com alcaçuz, cereja, cravo e canela, e a madeira brasileira no comando da taça.
São dois usos da mesma madeira. Na Sensação, a amburana é o prato; na Paraibana, é o tempero.
A destilaria vem construindo uma série de rótulos ligados à cultura paraibana. Em 2025 lançou a Sertão do Bruxaxá, homenagem a Areia, capital paraibana da cachaça; neste ano veio a Nobre Maracatu, com rótulo do grafiteiro Selvagem. A Paraibana continua a série, dedicada, segundo a destilaria, à mulher paraibana.



O engenho onde tudo isso é feito também tem personalidade própria: é o primeiro de bioconstrução da Paraíba, com paredes de terra compactada de 40 centímetros pela técnica do hiperadobe, que seguram a temperatura do armazém. São cerca de 5 mil litros por ano, fermentados em dornas mais largas que o comum e destilados em alambique de cobre a fogo direto, queimando bagaço e lenha. A Nobre Paraibana é o resultado coerente de uma casa que trabalha com um portfólio de assinatura, dando voz às ideias de seu produtor.




| Produtor | Engenho Nobre — Murilo Vilela Coelho |
| Local | Cruz do Espírito Santo (PB), a 30 km de João Pessoa |
| Composição | Blend de cachaça de 3 anos em jequitibá-rosa com cachaça de 1 ano em barril de 50 litros de cerejeira |
| Teor alcoólico | 40% |
| Tiragem | 250 garrafas |
| Preço informado | R$ 165 |
| Produção da casa | Cerca de 5 mil litros por ano |
| Visitas | Mediante agendamento |
Livros e ferramentas criados pelo Mapa da Cachaça para estudar, provar e registrar suas descobertas.
É uma edição limitada da Engenho Nobre, de Cruz do Espírito Santo (PB): um blend de cachaça envelhecida três anos em jequitibá-rosa com cachaça de um ano em barril de 50 litros de cerejeira, a 40% de teor alcoólico.
No mercado da cachaça, cerejeira é um dos nomes populares da amburana, ao lado de imburana, umburana e cumaru-de-cheiro, como conta a história por trás do nome. A cerejeira europeia, Prunus avium, é outra árvore.
A destilaria informa 250 garrafas, ao preço de R$ 165. A edição continua a série de homenagens paraibanas da casa, iniciada com a Sertão do Bruxaxá.
Ainda não. A avaliação mais recente da casa com essa família de madeira é a Nobre Umburana, com 91,5 pontos e quatro estrelas.
Em Cruz do Espírito Santo (PB), a cerca de 30 quilômetros de João Pessoa. A visita à destilaria é feita com agendamento.

