
Paraty, a cidade colonial que encanta visitantes com suas ruas de pedra e casario histórico, guarda em suas raízes uma profunda e intrínseca relação com a história da cachaça no Brasil. Para entender essa conexão, mergulhamos em uma conversa com Diuner Mello, um apaixonado pesquisador que, embora não seja historiador de formação, dedicou a vida a estudar os documentos e as histórias que moldaram a identidade de sua cidade natal.
A história da cachaça em Paraty começa com a própria chegada da cana-de-açúcar ao Brasil. No entanto, um fator geográfico peculiar definiu o destino da cana na região. Como explica Diuner, “a questão da terra, do clima chuvoso, o que torna a nossa cana muito mais aguada, que renderia muito menos açúcar, mas que não prejudicaria a produção da aguardente, com boa qualidade”.
Essa aparente desvantagem foi, na verdade, o grande trunfo de Paraty. Enquanto outras regiões do Brasil focavam na lucrativa produção de açúcar, utilizando o melaço – um subproduto do processo – para fabricar uma aguardente de qualidade inferior, Paraty especializou-se na produção de cachaça a partir do caldo de cana fresco, ou garapa. Esse método, que utiliza a matéria-prima em seu estado mais puro, resulta em uma bebida com maior complexidade de aromas e sabores, mais pura e com um frescor característico da cana-de-açúcar. Estava aí a origem da excepcional qualidade que tornaria a cachaça de Paraty famosa em todo o país.

O grande impulso para a produção de cachaça em Paraty veio com o Ciclo do Ouro, no século XVIII. A cidade se tornou um ponto estratégico no “Caminho do Ouro“, por onde as riquezas de Minas Gerais eram escoadas para o porto. Nesse cenário, a cachaça ganhou um papel central.
“Nesse período, a aguardente sobe para as Minas num volume imenso, para alimentar escravos, ou seja, para servir às Minas. A vida ali era difícil, o clima frio, cheio de doenças, e para enfrentar tal situação, só tomando cachaça.”
Diuner Mello
Além de ser consumida pelos trabalhadores nas minas, a cachaça de Paraty se tornou uma poderosa moeda de troca. “A cachaça era a moeda de compra de negros na África, e era também o produto que Paraty exportava para o interior do Brasil”, revela Diuner. Esse comércio enriqueceu os “senhores de engenho”, que se tornaram as figuras mais poderosas da vila, detendo não apenas a riqueza, mas também o poder político.
A fama da cachaça de Paraty não era apenas popular, mas também aristocrática. A qualidade superior da bebida era reconhecida e apreciada nos mais altos círculos do Império. Documentos históricos e relatos de época confirmam esse prestígio. Em 1863, a cidade contava com cerca de 150 alambiques que forneciam a bebida inclusive para o Palácio Imperial.
O folclorista Luís da Câmara Cascudo, em sua obra “Prelúdio da Cachaça”, menciona que a bebida era “recebida em palácio e cantada pelos nobres”. O próprio Diuner Mello reforça essa informação, contando que “o mordomo da Quinta da Boa Vista comprava cachaça de Paraty para ser servida naquela casa”. Um testemunho material desse prestígio pode ser visto até hoje: “No museu imperial de Petrópolis tem uma cristaleira que guarda uma garrafa de cristal adornada com uma faixa de prata onde se pode ler: Paraty”, relata o pesquisador.
A popularidade era tamanha que, por muito tempo, a palavra “Paraty” se tornou sinônimo de cachaça de boa qualidade em todo o Brasil. O escritor Lima Barreto, em seus relatos sobre o Rio de Janeiro do início do século XX, evidencia essa popularização ao mencionar que “fazia caminhadas lá pelos lados da Central do Brasil, pois lá ‘o Paraty’ era mais barato”.
A força da cachaça na economia e na política da região foi tão grande que influenciou até mesmo a emancipação de Paraty. Em 1660, inspirado pela “Revolta da Cachaça” que ocorria no Rio de Janeiro contra a proibição da produção e venda da bebida, o povo de Paraty, que estava sob a jurisdição de Angra dos Reis, promoveu um movimento de separação. Após sete anos de independência de fato, com pelourinho e Câmara próprios, a emancipação foi finalmente reconhecida por Portugal em 1667, nascendo a Vila de Nossa Senhora dos Remédios de Paraty.
Com o fim do Ciclo do Ouro e, posteriormente, a abolição da escravatura, Paraty mergulhou em um profundo período de decadência econômica. Dos mais de 100 engenhos do século XIX, restaram apenas sete ou oito por volta de 1930. Mesmo assim, o ciclo da cana-de-açúcar foi o único que permaneceu, ininterruptamente, desde o início da história da cidade.
Paradoxalmente, foi a decadência econômica que salvou o patrimônio histórico de Paraty. A partir da década de 1970, com a chegada da estrada Rio-Santos, a cidade iniciou um novo ciclo, o do turismo, que trouxe um novo fôlego para a cachaça, fortalecendo-a como um atrativo cultural e turístico.





Para Diuner Mello, a relação com a cachaça transcende a pesquisa. É uma memória afetiva, que remete à sua infância e ao avô que bebia uma dose antes do almoço para “abrir o apetite”.
“Acho que o mais importante na cachaça de Paraty é a qualidade. A fabricação atual, por mais moderna que seja, é artesanal ainda, tem todo aquele jeito antigo de fazer, o que dá à nossa cachaça essa excepcional qualidade. Espero que continue assim.”
Diuner Mello
A história da cachaça de Paraty é um reflexo da própria história do Brasil: uma saga de ciclos econômicos, lutas por poder e, acima de tudo, uma imensa capacidade de resiliência. Uma história que, como a boa cachaça, se torna mais rica e complexa a cada gole, e cujo segredo reside na pureza do caldo de cana que, desde o início, foi a sua alma.
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