
O Murilo Coelho acaba de lançar a Nobre Bode Rei, mais um blend inusitado da Engenho Nobre, desta vez inspirado nos whiskies japoneses e com um rótulo que celebra o Sertão. O próprio Murilo a considera um dos melhores blends que já produziu. O lançamento confirma algo que vem se desenhando há alguns anos: o produtor de Cruz do Espírito Santo (PB) se consolidou como uma das figuras mais prolíficas do mercado da cachaça e ajuda a dar rosto a um profissional que, até pouco tempo atrás, quase não aparecia para o consumidor. É o mestre de adega, aquele que escolhe e combina as cachaças que vão formar um blend.
Quando entrei no mercado da cachaça, era comum ouvir que um portfólio precisava ter certas madeiras: um bálsamo, um jequitibá, uma amburana, um carvalho. Montar uma linha de envelhecidas lembrava colar figurinhas num álbum, em que completar a coleção importava mais do que aquilo que cada garrafa tinha a dizer. O que Murilo, Adwalter, da Santa Terezinha, Armando Del Bianco e outros mestres de adega vêm mostrando é outra lógica: a madeira deixa de ser a figurinha que falta e passa a ser o recurso com que se constrói uma identidade.



Essa mudança não é capricho estético, é resposta ao tamanho do mercado. Segundo o Anuário da Cachaça 2026, do Ministério da Agricultura, o Brasil fechou 2025 com 1.538 estabelecimentos registrados, 8.379 cachaças e 11.131 marcas comerciais, um salto de 16,8% no número de marcas em um único ano. Só a Paraíba, casa da Engenho Nobre, soma 59 estabelecimentos e 457 marcas.
Num cenário assim, a cachaça que quer ser lembrada precisa entregar uma experiência que as outras não entregam. A história da marca e o design da garrafa ajudam a dizer quem ela é, mas o que separa um líquido dos milhares de outros na prateleira é a assinatura de quem o compôs. É aí que o mestre de adega se torna decisivo.
Na cachaça, esse papel pesa mais do que em outros destilados, porque temos à disposição uma diversidade de madeiras sem paralelo: amburana, bálsamo, jequitibá-rosa, jaqueira, freijó, ipê, castanheira, além dos carvalhos. Saber o que cada uma acrescenta, em que proporção e por quanto tempo é, cada vez mais, o que distingue um produtor.
Murilo é um dos que melhor exploram essa paleta. Na Nobre Cactos, compôs 60% de cachaça descansada um ano em amburana, 15% em jequitibá-rosa e completou com cachaças de três anos no carvalho europeu e dois anos no carvalho americana. Na Umburana Sensações, usou jequitibá-rosa para domar a amburana. Na Nobre Arraiá, juntou carvalho e bálsamo; na Nobre Ocean, bálsamo e amburana. E foi dele, em 2018, a iniciativa do Blend Nordestino, que reuniu numa mesma garrafa cachaças de produtores de diferentes estados do Nordeste. Não por acaso, Murilo ficou em 3º lugar entre os mestres de adega avaliados no Guia Mapa da Cachaça.


A Nobre Bode Rei reúne cachaças descansadas em quatro madeiras: 32% em amburana, 25% em bálsamo, 23% em jaqueira e 20% em carvalho europeu. A ideia surgiu dos estudos de Murilo sobre os destilados japoneses. Ele buscou, na combinação dessas madeiras, os aromas, a doçura e a refrescância que identifica nesse estilo de whisky. É uma escolha que diz muito sobre o ofício do mestre de adega: em vez de copiar o whisky, Murilo usa a paleta que tem à mão para chegar a sensações parecidas na taça.
Se a referência internacional orientou o líquido, a identidade nordestina aparece na apresentação. Essa capacidade de encontrar uma história para cada garrafa é outra marca do trabalho de Murilo. Foi assim com o mandacaru da Cactos, com o casal cangaceiro da Xaxado e com o caboclo de lança da Nobre Maracatu, com rótulo do grafiteiro Selvagem.
Na Bode Rei, o bode aparece à sombra de uma algaroba, numa composição que remete à paisagem e ao cotidiano do Sertão e do Cariri. As cores contam a transformação que vem depois da chuva, quando o verde volta a ocupar o que antes era seca, numa homenagem à resistência, à persistência e à fartura que Murilo associa ao Nordeste.



O nome da cachaça remete a uma das festas mais conhecidas da Paraíba. Desde 1999, Cabaceiras, no Cariri, realiza a Festa do Bode Rei, criada para dar visibilidade à criação de caprinos, a principal atividade econômica da região. A cidade é a mais seca do Cariri Oriental, e é ali que o bode é coroado, numa celebração que abre o São João da região. Do outro lado do mundo, o animal também tem lugar na mesa de festa. Em Okinawa, no extremo sul do Japão, o costume de comer carne de cabra chegou da China há cerca de 600 anos, e o caldo de cabra, a hija-jiru, acabou se tornando prato de celebração. São duas regiões distantes do centro de seus países que fizeram de um animal rústico um símbolo de fartura.
E já que o bode leva a Okinawa, vale uma curiosidade: a ilha tem seu próprio destilado tradicional, o awamori, considerado o mais antigo do Japão. Assim como a cachaça, ele nasceu das rotas comerciais. No século 15, quando Okinawa era entreposto entre o Sudeste Asiático, a China e o Japão, a técnica de destilação chegou do Reino de Ayutthaya, na atual Tailândia. Por isso, até hoje o awamori é feito com arroz tailandês de grão longo, fermentado com um koji preto nativo da ilha.
Na inpiração sensorial, Murilo buscou trazer a elegância do whisky japonês.
Eu fiquei impressionado com a elegância, a doçura e o frescor do whisky Mizunara
Murilo Coelho, produtor da Engenho Nobre

O que mais me chamou atenção na Bode Rei é que ela escapa de duas armadilhas. Não é mais uma figurinha no álbum, e também não é aquela cachaça que se apresenta como “multimadeiras”, como se o número de madeiras no rótulo bastasse como argumento de venda. Blends com várias madeiras são bem-vindos, desde que cada uma tenha um propósito lá dentro. É isso que Murilo consegue nessa garrafa.
O propósito aparece já no visual: um dourado de amarelo intenso, típico do toque da jaqueira. No nariz, sobressai o doce das madeiras. O caramelo do carvalho lidera o conjunto, mesmo sendo a menor parte do blend, acompanhado das frutas amarelas, doces e cítricas da jaqueira e do doce especiado da amburana e do bálsamo.
Na boca, a cachaça abre com o frescor das madeiras brasileiras, em especial da amburana, que traz especiarias e um lado vegetal sem tirar a doçura nem a facilidade de beber, o teor alcoólico ameno (42%) contribui para a alta bebabilidade. É aqui que o trabalho de blend aparece com mais clareza: a picância da amburana e do bálsamo, que muitas vezes chega excessiva, com canela e cravo gritantes, está domada. As notas estão lá, mas em equilíbrio.
No fundo da taça vazia, depois que os álcoois evaporam, a madeira fica mais presente e revela baunilha e especiarias, com lembranças de incenso, sândalo e cedro. É um final muito elegante, que resume o perfil dessa cachaça do Murilo e coloca a Bode Rei entre os destaques de lançamento do ano.
A aproximação entre Japão e Nordeste faz sentido para além do rótulo. O whisky japonês nasceu inspirado no escocês e só se tornou referência mundial quando encontrou uma identidade própria, o mesmo caminho que a cachaça de alambique vem trilhando ao transformar suas madeiras em linguagem. Com a Bode Rei, Murilo reforça o argumento que atravessa todo o seu portfólio, da Maracatu à Nobre Paraibana: num mercado com mais de 11 mil marcas, a madeira certa, na combinação certa e contada pela história certa, é o que transforma uma cachaça em assinatura.
A edição é limitada a 270 garrafas, vendidas a R$ 150 mais frete diretamente com o engenho.
Livros e ferramentas criados pelo Mapa da Cachaça para estudar, provar e registrar suas descobertas.
A Nobre Bode Rei é um blend de quatro madeiras: 32% em amburana, 25% em bálsamo, 23% em jaqueira e 20% em carvalho europeu, combinação pensada por Murilo Coelho na Engenho Nobre.
A Nobre Bode Rei é uma edição limitada a 270 garrafas, vendida diretamente pela Engenho Nobre.
A cachaça tem 42% de teor alcoólico e é vendida a R$ 150 mais frete, diretamente com o engenho.
A ideia surgiu dos estudos de Murilo Coelho sobre os destilados japoneses: ele buscou, na combinação das madeiras, aromas, doçura e refrescância que remetem a esse estilo de whisky.
Murilo Coelho, da Engenho Nobre, ficou em 3º lugar entre os mestres de adega avaliados no Guia Mapa da Cachaça.

