
A história do Alambique Rein está profundamente ligada à trajetória da família Rech, um sobrenome tradicional no município de Luís Alves, em Santa Catarina. A região possui uma relação antiga com a produção de aguardente de cana: antes mesmo da emancipação da cidade, ocorrida em 1958, já havia registros de produção de açúcar e aguardente desde pelo menos 1925. Um documento de venda de açúcar da família Rech desse período menciona também o envio de aguardente para Portugal, evidenciando que a destilação fazia parte da economia local muito antes da cidade existir formalmente.
Durante as décadas de 1950 e 1960, Luís Alves viveu o auge da produção de aguardente. Estima-se que o município chegou a ter mais de 300 alambiques, muitos deles operados por pequenas famílias agricultoras. O cultivo de cana-de-açúcar era amplamente difundido no sul do Brasil, e a aguardente surgia muitas vezes como uma atividade complementar. Parte da cana era destinada às usinas de açúcar — como a antiga Usati — e o excedente acabava sendo transformado em destilado após o período da safra. Essa dinâmica explica também uma particularidade marcante da região: a forte tradição de produzir aguardente a partir do melado de cana. No inverno, quando era comum cozinhar o caldo para produzir melado destinado ao consumo doméstico, parte dessa matéria-prima também era utilizada para a destilação.
A família Rech participa dessa tradição há várias gerações. O tataravô Johan Rech já produzia destilados de frutas na Europa — como o schnaps — antes de emigrar para o Brasil em 1912. No país, a cultura da destilação continuou, agora com a cana-de-açúcar. A tradição seguiu nas gerações seguintes, e desde cedo Orécio Rech teve contato com o alambique da família. Ainda criança, com cerca de oito ou nove anos, já acompanhava as atividades de produção.
Apesar dessa longa tradição, a produção de aguardente na região passou por um período de crise. A concorrência com a cachaça industrial e as transformações econômicas levaram muitos produtores locais a abandonar a atividade e migrar para outras áreas, como a indústria têxtil e a produção de banana — cultura que transformou Luís Alves em um dos principais polos do Mercosul. Durante décadas, grande parte da aguardente produzida na região tinha volume expressivo, mas pouco valor agregado.
Foi a partir dos anos 2000 que a família decidiu iniciar um processo de reposicionamento. Criado em 2011, o Alambique Rein consolidou o projeto de produzir uma aguardente de maior qualidade e identidade. O nome Rein vem do alemão e significa “pura”, refletindo o compromisso da destilaria com a produção de uma cachaça autêntica, sem misturas ou padronizações industriais. A iniciativa contou também com o apoio decisivo de Aline Goedert, esposa de Orécio, que abraçou o projeto de modernizar a marca, renovar as embalagens e reposicionar o produto no mercado.
Hoje o Alambique Rein mantém viva a tradição da aguardente de melado, característica histórica de Luís Alves — responsável por cerca de 70% a 80% da produção local. Ao mesmo tempo, investe em modernização e boas práticas produtivas, conciliando conhecimento técnico, sustentabilidade e inovação. A destilaria também mantém forte vínculo com a comunidade local, comprando cana e melado de produtores da região e contribuindo para preservar uma cultura produtiva que marcou a história do município.
Referência entre os produtores locais, o Alambique Rein representa hoje a continuidade de uma tradição centenária de destilação que acompanha a própria formação de Luís Alves — uma história em que família, território e cultura da aguardente caminham lado a lado.
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