Engenho São Luiz na vanguarda da cachaça em Lençóis Paulista

  • Publicado 12 meses atrás

O Engenho São Luiz é um produtor de cachaça, em Lençóis Paulistas, no Centro-Oeste do estado, que incorpora em sua produção parte da história da cana-de-açúcar no município resgatando uma tradição familiar que tem sido fundamental para o ressurgimento da cachaça de alambique na região

Ir para o Centro-Oeste do Estado de São Paulo, em direção à Lençóis Paulista, a partir da capital, é uma experiência memorável. Os grandes tapetes verdes dos canaviais se espalham quilômetro após quilômetro, e raramente se vê tanta cana de uma vez. Onde o canavial prospera, as usinas nunca estão longe. Em meio à essa imensidão da agroindústria canavieira paulista encontramos o Engenho São Luiz. Um pequeno produtor de cachaça, que tem sido fundamental para a cachaça de alambique na região.

A história da produção familiar remonta ao início do século passado e está intimamente ligada ao desenvolvimento da cidade e da indústria na região. Em 1906, José Zillo, que é bisavô do atual produtor da Cachaça Engenho São Luiz, e os irmãos dele adquiriram um pedaço de terra, onde hoje é um bairro da cidade de Lençóis. “Além da agricultura, eles montaram também um alambique de cachaça”, conta Luiz Gustavo Zillo referindo-se ao início da tradição da família na fabricação e comercialização de produtos de cana-de-açúcar.

Resgate da história da cachaça de alambique em Lençóis Paulista

A cidade de Lençóis Paulista foi um importante pólo de produção de aguardente no interior do estado no século XX, sendo referida por alguns escritores como a “terra da cachaça”. O município e a cidade vizinha de Macatuba, chegaram a abrigar cerca de 50 engenhos ativos, como enumeram livros que registram a história do município. 

Cerca de 80 a 90% do comércio da cidade girava em torno da cachaça. Aqui tinha fábrica de alambiques e tanoaria”

relembra Luiz Gustavo Zillo

Com o passar do tempo, a expansão da indústria sucroalcooleira no interior forçou o declínio da produção de cachaça, levando à quase extinção dos alambiques de aguardente. Na década de 1940, a família Zillo passou a investir na fabricação de açúcar e álcool, especialmente este segundo, que experimentava uma aceleração da industrialização. Na década de 1970 a produção de cachaça na família foi oficialmente interrompida, sendo resgatada somente no início do século seguinte, por Luiz Santana Zillo, pai de Luiz Gustavo e neto do patriarca José Zillo.

O objetivo desde a fundação oficial do Engenho São Luiz, em 2007, nunca foi escalar a produção, mas garantir e melhorar a qualidade da cachaça a cada safra, recuperando o prestígio de um passado onde a cidade era referência no setor, e por toda região, em cachaça de alambique. Atualmente, o Engenho São Luiz está na vanguarda da destilação moderna de cachaça de alambique lençoiense, sendo um dos poucos, se não o único produto de cachaça registrado no Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) da cidade até o lançamento deste texto.

O projeto do Engenho São Luiz

Luiz Gustavo Zillo, que toca o Engenho com o pai e irmãos, mantém viva a história que começou com seu bisavô no início do século passado. Ele explica como o projeto surgiu: “Eu tinha acabado de me formar em Agronomia e por causa dessa história da família, meu pai e eu decidimos montar o alambique”.

Seu Luiz Santana e os três filhos, investiram para desenvolver o novo engenho de forma sustentável, 99 anos após a compra do primeiro alambique de aguardente pela família Zillo, em 1906 na cidade de Lençóis Paulista.

Luiz Santana Zillo
Luiz Santana Zillo, herdeiro da tradição em produzir cachaça em Lençóis Paulistas

Estamos falando de meados de 2005, ano em que estavam sendo definidos os parâmetros de qualidade da cachaça, padrão seguido desde o começo pela família. Em 2007, o Engenho foi oficialmente criado. O trabalho intenso de quatro anos resultou na primeira safra em 2009, consolidando a marca.

“O Engenho São Luiz foi pensado desde o princípio para ser um negócio voltado para a produção de cachaça de excelência. Hoje produzimos entre 35 e 40 mil litros de cachaça de alambique por ano, com capacidade para até 50 mil”

diz Luiz Gustavo.
Luiz Gustavo Zillo da cachaça São Luiz
Luiz Gustavo Zillo

Produção de cachaça com qualidade e sustentabilidade

O foco na qualidade prioriza processos cuidadosos em todas as etapas. A cana-de-açúcar utilizada é plantada na propriedade, cortada manualmente, sem queima, e lavada antes de ser levada para moagem e posterior fermentação com o uso da levedura selecionada. A destilação ocorre em alambiques de cobre.

Fazer boa cachaça é essencial para o Engenho São Luiz, tanto que os cortes da cachaça viraram o lema da produção, assim também como trabalhar de forma sustentável no negócio.

“Sem pé nem cabeça, puro coração”

diz Luiz Santana, o patriarca

Na propriedade, há tanques próprios para armazenar o vinhoto, subproduto da destilação que pode gerar contaminação sem o manejo adequado, e um sistema fechado de utilização de água para o resfriamento dos alambiques e dornas de fermentação. O objetivo é aproveitar de forma racional, tanto o vinhoto quanto a água (quando descartada), para fertirrigação da cana e do pasto da propriedade. Esta é apenas uma ação de impacto ambiental entre várias aplicadas na produção da Cachaça Engenho São Luiz.

Após a destilação, a bebida é armazenada em tonéis de amendoim, comuns da produção da cachaça branca no estado de São Paulo, sendo depois envasada ou transferida para barris de carvalho europeu, amburana e bálsamo, onde adquire novas características sensoriais.

Rótulos premiados e expansão internacional da cachaça de Lençóis

O portfólio do Engenho São Luiz inclui cinco rótulos: a cachaça Engenho São Luiz branca, descansada em tonéis de amendoim, as versões premium envelhecidas em bálsamo, amburana e carvalho, e uma versão extra premium envelhecida em barris carvalho. Esses produtos já conquistaram o mercado nacional e abriram caminho para exportações para países como Estados Unidos, África do Sul e Portugal.

garrafa extra-premium Engenho São Luiz

“Estamos negociando com novos mercados para expandir ainda mais nossa presença”, afirma Luiz Gustavo. No Brasil, a distribuição é focada no estado de São Paulo, especialmente em grandes cidades como a capital e as regiões de Campinas e Ribeirão Preto. Mas pela internet é possível ter acesso ao produto em qualquer parte do país.

O Engenho São Luiz desempenha um papel importante no resgate da história da cachaça em Lençóis Paulista. Os tonéis de amendoim utilizados na produção, por exemplo, foram adquiridos de antigas fábricas, simbolizando a continuidade da tradição local. “Cada detalhe do nosso processo carrega a história da região. É um orgulho manter essa herança viva”, comenta Luiz Gustavo.

Embora Lençóis Paulista ainda não seja um destino turístico consolidado, o belo engenho tem investido na experiência de visitação. É possível conhecer o processo de produção, explorar a história da cachaça e degustar os diferentes rótulos.

“Queremos fortalecer o turismo na região, mostrando que a cachaça é mais do que uma bebida, é cultura e história”,

ressalta Luiz Gustavo.

Ana Paula Palazi é jornalista pela PUC-Campinas, mestra em Divulgação Científica e Cultural e especialista em Jornalismo Científico pela Unicamp. Atuou por dez anos como produtora e repórter de telejornal. Foi repórter de rede em emissora afiliada da Record TV, de 2016 a 2020. É produtora de conteúdo, atuando em trabalhos sobre cachaça, inovação e empreendedorismo.