A história e o legado da cachaça em Lençóis Paulista

  • Publicado 12 meses atrás

Descubra como Lençóis Paulista se destacou na produção de cachaça, com histórias do Grupo Zillo-Lorenzetti, a Destilaria do IAA e o renascimento do Engenho São Luiz.

O auge da cachaça em Lençóis Paulistas

A cidade de Lençóis Paulista desempenhou um papel significativo na história da produção de cachaça no estado de São Paulo, sendo reconhecida por muitos como a “terra da cachaça” no século XX, com os primeiros engenhos surgindo em 1915. Durante seu auge, aproximadamente 80% a 90% da economia local estava diretamente vinculada à produção e ao comércio da aguardente.

Entre as décadas de 1920 e 1960, Lençóis Paulista viveu seu período áureo como um dos principais polos produtores de cachaça no interior paulista. Mais de sessenta indústrias se instalaram na região, utilizando principalmente rodas d’água para mover os alambiques, já que a eletricidade ainda era escassa. Algumas destilarias mais avançadas adotaram caldeiras a vapor, enquanto outras mantinham métodos tradicionais, como o uso de moendas acionadas por bois.

antigo engenho da família Zillo de 1926
Por volta de 1906, os irmãos José, Fortunato e Girolamo Zillo fundam a destilaria no bairro Rocinha em Lençóis Paulista – SP. Em 1926, uma imponente chaminé quadrada de 26 metros de altura foi erguida, revelando a importância que a produção de aguardente tinha nos negócios

O sucesso da produção local também foi impulsionado pela presença de engarrafadores, estandardizadores, tanoeiros e comerciantes que estruturaram a distribuição e garantiram a qualidade das aguardentes. Esses profissionais desempenharam um papel essencial na expansão da indústria, ajudando as cachaças de Lençóis Paulista a conquistar mercados regionais e até estaduais.

A produção foi marcada por fortes influências culturais trazidas por famílias de descendentes de italianos, espanhóis, portugueses e turcos, que contribuíram com conhecimento e tradição. Sobrenomes como Turcarelli, Thomazzi, Calderon, Placca, Paccola, Moretti, Maeda, Casali, Prenhaca, Castelhano, Zillo e Cacciolari tornaram-se ícones do setor, associados à excelência e ao legado da cachaça.

Entre as marcas que ganharam destaque nesse período, figuram nomes como Paccola, Onça, Andorinha, Lontra, Luar de Prata, Banho de Lua, Velha 35 e Colosso, que representaram não apenas a qualidade dos produtos, mas também a identidade cultural da cidade. Contudo, a expansão da indústria sucroalcooleira no interior paulista provocou o declínio da produção artesanal de cachaça, levando ao fechamento gradual dos alambiques e à quase extinção dessa tradição que tanto marcou Lençóis Paulista.

A Usina São José

A Usina São José, localizada em Lençóis Paulista, guarda em sua história uma conexão profunda com a produção de cachaça e aguardente. O grupo empresarial Zillo-Lorenzetti, com raízes na cidade, teve sua origem em 1939, quando os irmãos José e Luiz Zillo se uniram comercialmente aos irmãos José Antonio, Antonio (Tonico) e Juliano Lorenzetti, adquirindo 50% da Fazenda São José, no município de Macatuba. Essa propriedade já se dedicava à lavoura de café e criação de gado, mas foi com a entrada no ramo de aguardente que a parceria se consolidou.

A fabricação de aguardente na região era regulada pelo Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA), que exigia autorização para a instalação de novas fábricas. Após inúmeros ofícios e negociações, o grupo adquiriu, em 1940, uma fábrica paralisada em Agudos, pertencente a Merlindo Marchetti. A transferência foi aprovada pelo IAA somente em 21 de outubro de 1941, permitindo que a produção fosse iniciada.

Para a montagem da fábrica, o grupo utilizou engenhos adquiridos de Ângelo Milanesi & Cia., caldeiras de vapor e motores reaproveitados de uma antiga fábrica de óleo de algodão em Lençóis Paulista, além de alambiques de madeira fabricados pelos irmãos Campanari, uma inovação na época devido à escassez de cobre durante a Segunda Guerra Mundial. Essa solução criativa resultou em um produto diferenciado, chamado “aguardente Madeira”, em referência aos alambiques utilizados.

A produção cresceu rapidamente e se tornou uma das maiores da região, atendendo tanto à demanda do IAA para a fabricação de álcool combustível quanto ao mercado de consumo. Entretanto, com a decisão de montar uma usina de açúcar, a fábrica de aguardente foi desativada em 1945, marcando o fim de uma era.

A Destilaria do IAA

A Destilaria Central do IAA (Instituto do Açúcar e do Álcool), localizada na área urbana de Lençóis Paulista, foi um importante empreendimento criado pelo Governo Federal para atender à demanda de combustível durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). O IAA, fundado em 1933, tinha como objetivo regular e incentivar a produção de açúcar e álcool no Brasil, desempenhando um papel estratégico na política econômica e industrial do período.

A destilaria foi instalada para transformar aguardente em álcool combustível, recurso fundamental em tempos de guerra, quando a importação de combustíveis fósseis estava severamente limitada. Para isso, o IAA requisitava anualmente uma porcentagem da aguardente dos produtores locais, que era industrializada na unidade. Esse processo não apenas garantiu a produção de álcool, mas também impulsionou significativamente o cultivo de cana-de-açúcar na região, fortalecendo a economia agrícola e industrial de Lençóis Paulista.

A unidade funcionou por décadas, contribuindo para o controle da produção nacional de açúcar e álcool, até ser desativada em 1971. Desde então, as estruturas da destilaria, incluindo sua icônica chaminé de tijolos, permanecem no local em estado de abandono, deteriorando-se lentamente devido à falta de manutenção.

Atualmente, o complexo, que pertence ao Governo Federal, é considerado um patrimônio histórico de grande relevância para Lençóis Paulista. Diversas administrações municipais já manifestaram interesse em obter a posse da área para revitalizá-la e dar um novo uso ao espaço, reconhecendo sua importância histórica, especialmente na relação com a produção de cachaça e o desenvolvimento econômico da cidade. A preservação desse legado pode resgatar memórias importantes da industrialização local e fomentar o turismo histórico, conectando a história produtiva de Lençóis Paulista com novas oportunidades para a região.

A queda dos engenhos de Lençóis Paulistas

A desativação dos engenhos de Lençóis Paulistas começou na década de 1950 devido a uma combinação de fatores econômicos, sociais e estruturais relacionados à evolução do setor canavieiro na região. Os principais motivos foram:

  1. Mudança no modelo econômico e na produção de cana-de-açúcar:
    A partir da década de 1950, com a instalação das usinas Barra Grande e São José, pertencentes ao Grupo Zillo-Lorenzetti, a região passou por uma transformação. Essas usinas começaram a produzir açúcar e álcool em larga escala, inclusive para abastecer a IAA, consolidando-se como grandes indústrias que exigiam vastas extensões de terras para o cultivo de cana. Isso impulsionou a aquisição de propriedades rurais e o arrendamento de terras de pequenos proprietários.
  2. Venda e arrendamento de terras:
    Muitos proprietários de engenhos encontraram nas propostas de venda ou arrendamento de suas terras um negócio mais lucrativo e estável do que a manutenção de seus alambiques. A venda de propriedades ou o fornecimento de cana para as usinas tornaram-se opções financeiramente vantajosas, resultando na desativação dos engenhos.
  3. Dinamismo econômico:
    Com o crescimento econômico do Brasil e a expansão do setor sucroalcooleiro, as usinas ofereceram uma alternativa mais rentável para os agricultores. O foco na produção industrial de açúcar e álcool reduziu o espaço para a produção artesanal de cachaça, que exigia mais trabalho e oferecia menor retorno econômico para muitos proprietários.
  4. Concentração de terras:
    A compra de terras pelas usinas levou à concentração fundiária, reduzindo o número de pequenos proprietários que tradicionalmente mantinham engenhos. Com isso, muitos alambiques desapareceram.
canavial Engenho São Luiz

Apesar dessa transformação, alguns engenhos resistiram e evoluíram para destilarias modernas, mantendo viva a tradição de produção de cachaça em Lençóis Paulistas, ainda que em menor escala. Os engenhos desativados, no entanto, permanecem como parte importante da história da região.

O renascimento da cachaça em Lençóis Paulistas com o Engenho São Luiz em 2007

A retomada da produção de cachaça artesanal na região ganhou força nos últimos anos com iniciativas como a do Engenho São Luiz. Criado em 2007 por Luiz Santana Zillo, neto de José Zillo, e seus três filhos, o Engenho resgatou as origens da família na fabricação de cachaça, que data do começo do século XX, propondo oferecer aos apreciadores um produto diferenciado. Localizado na estrada municipal José Adalto Vasconcelos, a propriedade abriga lavouras de cana-de-açúcar cultivadas sem queima de palha, fermentação natural sem aditivos e destilação em alambiques de cobre, garantindo respeito às tradições.

Com cinco rótulos no portfólio, incluindo versões premium e extra premium, o Engenho São Luiz tem expandido seu mercado, alcançando países como Estados Unidos, África do Sul e Portugal, além de distribuir para todo o Brasil.

O engenho preserva a história da cachaça na região, utilizando tonéis de amendoim adquiridos de antigas fábricas. Apostando também no turismo, oferece visitas guiadas para apresentar o processo de produção e a cultura da cachaça, reforçando o orgulho de manter viva essa herança histórica do interior paulista.

Referência

Paccola, Florindo. Lençóis Paulistas, Forte Produtor de Cachaça – História e Tradição. Editora Novo Mundo.

O Mapa da Cachaça é um projeto cultural e educativo criado com o objetivo de divulgar e valorizar a cachaça, que é um patrimônio cultural e um dos símbolos da identidade brasileira.