Uma produção sustentável de cachaças orgânicas não é apenas economicamente eficiente, mas também ecologicamente prudente e socialmente desejável
Além da qualidade da bebida, os consumidores começaram a se preocupar também com os impactos da produção de cachaça no meio ambiente. A procedência passa a ser um valor importante e é mais um atrativo para consumidores ecologicamente conscientes que buscam cada vez mais cachaças orgânicas e valorizar uma produção sustentável.
O que são cachaças orgânicas?
Cachaças orgânicas são bebidas alcoólicas destiladas obtidas a partir do processo de fermentação e destilação do caldo de cana-de-açúcar orgânica. Essas cachaças são produzidas sem o uso de agrotóxicos, pesticidas, adubos químicos e outros produtos sintéticos que podem ser prejudiciais ao meio ambiente e à saúde humana.
Além disso, a produção de cachaças orgânicas também leva em consideração práticas sustentáveis, como o respeito à fauna e flora locais, a utilização de técnicas de manejo ecológico e a preservação dos recursos naturais. Essas características tornam as cachaças orgânicas uma opção mais saudável e sustentável para os apreciadores da bebida.
Os selos de certificação orgânica
As marcas de cachaça orgânica têm se destacado no mercado pela produção sustentável, qualidade da bebida e pelo compromisso com o meio ambiente. Elas podem ser identificadas por selos de produto orgânico colados ou impressos no rótulo da cachaça, sendo o mais comum aquele certificado pelo IBD (Associação de Certificação Instituto Biodinâmico). Adquira rótulos desse tipo para incentivar a produção sustentável e sem o uso de agrotóxicos.
Existem diferentes selos de certificação orgânica utilizados internacionalmente para garantir a qualidade e a autenticidade dos produtos orgânicos. Alguns dos selos de certificação orgânica mais reconhecidos e utilizados são:
USDA Organic (Estados Unidos)
O selo do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos indica que um produto é certificado orgânico de acordo com os padrões estabelecidos pelo USDA.
EU Organic (União Europeia)
O selo da União Europeia indica que um produto é certificado orgânico de acordo com os padrões e regulamentações estabelecidos para a produção orgânica na União Europeia.
IBD (Brasil)
O IBD se destaca como a maior certificadora de produtos orgânicos da América Latina e é a única certificadora brasileira de produtos orgânicos a possuir certificações reconhecidas internacionalmente, como IFOAM (mercado internacional), ISO / IEC 17065 (mercado europeu – regulamentação CE 834/2007), Demeter (mercado), USDA / NOP (mercado norte-americano) e aprovada para uso com o selo SISORG (mercado brasileiro). Essas certificações garantem que os produtos certificados pelo IBD sejam aceitos globalmente, o que é motivo de orgulho para a organização.
Bio Suisse (Suíça)
O selo Bio Suisse é utilizado na Suíça para certificar produtos orgânicos de acordo com os padrões estabelecidos pela associação Bio Suisse.
JAS Organic (Japão)
O selo JAS Organic é utilizado no Japão para certificar produtos orgânicos de acordo com os padrões estabelecidos pelo Ministério da Agricultura, Florestas e Pesca do Japão.
Esses são apenas alguns exemplos de selos de certificação orgânica, mas cada país pode ter seus próprios selos ou reconhecer outros selos internacionais. É importante procurar pelos selos de certificação orgânica adequados ao país de origem do produto para garantir sua autenticidade e qualidade.
Quais são as principais práticas dos produtores das cachaças orgânicas?
Buscando um diferencial em relação às outras marcas, uma melhora na qualidade do líquido e até uma valorização do seu valor no mercado, os produtores das cachaças orgânicas estão tomando medidas que reduzem o impacto da produção do destilado no meio ambiente. A seguir, algumas das principais práticas:
Plantar a cana em áreas previamente desflorestadas, sem desmatar novos espaços.
Cortar a cana sem queima para limpar as folhas. Infelizmente, essa é uma prática comum na agricultura que traz como consequência a emissão de gases poluentes e a esterilização do solo.
Reutilizar a água usada para irrigar a plantação de cana-de-açúcar e resfriar os vapores do vinho de cana durante a destilação. Alguns alambiques chegam a reaproveitar 90% de toda a água utilizada.
Evitar o uso de veículos motorizados no corte e no transporte da cana-de- açúcar. A queima de combustível pode afetar a qualidade da cana, além de poluir a atmosfera.
Uso de carro de boi para o transporte de cana na produção da cachaça orgânica
Controlar as pragas da cana-de-açúcar de forma biológica, com a liberação de predadores naturais, como as vespas Cotesia flavipes, para combater a broca (larva da mariposa noturna chamada Diatraea saccharalis). Alguns produtores usam também o nim (Azadirachta indica), planta indiana usada como inseticida natural (de modo geral, os produtores de cachaças orgânicas não utilizam pesticidas no canavial).
Usar apenas ingredientes orgânicos no processo de produção – além da cana-de-açúcar, também milho, arroz ou outros nutrientes de levedura utilizados durante a fermentação.
Durante a fermentação, utilizar apenas ingredientes orgânicos como o suco de limão para corrigir a acidez do mosto. Algumas cachaças industrializadas usam ácido sintético e outros compostos químicos, que inviabilizam o selo de cachaça orgânica e ainda podem prejudicar a qualidade sensorial da bebida.
Cachaçaria Alfeires em Tiradentes, Minas Gerais utiliza gravidade para evitar o uso de bombas durante o processo de produção da cachaça
Construir a unidade de produção de modo que o líquido resultante das diferentes etapas seja transportado de uma fase para outra utilizando apenas a força da gravidade. Dessa forma, economiza-se também energia no uso de bombas elétricas.
Coletar a água da chuva e usá-la para diluir o caldo de cana a fim de diminuir o brix.
Aproveitar a energia solar para gerar eletricidade para a moenda e outros equipamentos da unidade de produção.
Sanhaçu, pernambucana de Chã Grande, leva selo de cachaça orgânica e é um dos primeiros alambiques do país a utilizar placas solares para gerar energia
Reutilizar o bagaço remanescente da moagem para adubação do solo como alimento para caldeira no lugar de lenha e até mesmo para fazer caixas de papelão. As cinzas do bagaço usado na caldeira são ricas em minerais e podem ser usadas também para enriquecer o solo.
O grande diferencial do rótulo da Cachaça Tabaroa é o papel reciclado de bagaço de cana-de-açúcar. Na Fazenda Mundo Novo, em Bichinho, distrito de Tiradentes (MG), o produtor Alexandre Figueiredo produz o próprio papel para imprimir o rótulo, utilizando o bagaço da cana e um pouco de apara de papel. O designer responsável pelo rótulo é o carioca Marcos Mendonça.
Reaproveitar o vinhoto ou a vinhaça, líquido que sobra no alambique após a destilação, como adubo na plantação ou alimento para animais. Apesar de ser altamente poluente, depois de um tratamento adequado ele é rico em matéria orgânica e nutrientes.
Destilar a cabeça e a cauda, frações que não compõem a cachaça final engarrafada para consumo, em pequenas colunas de inox a fim de produzir álcool (combustível para veículos). Em vez de descartar essas frações, alguns produtores também as redestilam para produzir álcool potável para preparar aguardentes compostas e licores.
Utilizar madeiras com procedência, que não estejam ameaçadas de extinção, para criar novas barricas.
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