

Jornalista, mixologista e pesquisadora de brasilidades, Néli Pereira é uma das vozes mais influentes da coquetelaria brasileira contemporânea. Há mais de uma década dedica-se a investigar ervas, cascas, raízes e frutas nativas e a devolvê-las ao balcão — um trabalho que ajudou a criar uma gramática própria para os drinques feitos no Brasil e que dialoga diretamente com a valorização da cachaça como patrimônio cultural.
Antes do bar veio a redação. Néli atuou na imprensa nacional e internacional, com passagens como apresentadora pela BBC de Londres e pela BandNews, sempre com uma linha de trabalho voltada a entender e traduzir o Brasil. É mestre em Estudos Culturais Latino-Americanos pela University of London e levou essa formação para o copo: sua coquetelaria é tão antropológica quanto sensorial.
A transição para as bebidas veio pela pesquisa. Depois de um curso de sommelier de vinhos, aprofundou-se nos destilados e passou a tratar o bar como campo de estudo — um lugar onde história, botânica e cultura popular se encontram. Palestrou no TEDx São Paulo em 2019 e 2020, já apresentou podcast e é presença recorrente na imprensa e na TV brasileira quando o assunto é bebida nacional.
Desde 2012, Néli comanda o Espaço Zebra, em São Paulo, híbrido de bar e galeria de arte que criou ao lado do artista Renato Larini. É ali que a pesquisa vira prática: o balcão funciona como laboratório de infusões, macerados e fermentados, e a casa recebe encontros, aulas e conversas sobre cultura brasileira.
O método de Néli inverte a lógica tradicional do bar. Em vez de partir do destilado, ela parte do ingrediente: cataia, jurubeba, catuaba, carqueja, araçá, grumixama, butiá, urucum, arruda, milome. É o ingrediente que indica o caminho da receita — e é também o que conecta seu trabalho às garrafadas, aos licores caseiros e às tradições de boteco que estruturam a história das bebidas no país.
Esse olhar a coloca em diálogo direto com a cachaça. Ao tratar as raízes populares da bebida brasileira como conhecimento legítimo — e não como folclore —, seu trabalho ajuda a enfrentar o preconceito histórico que cercou o destilado e a apresentá-lo ao público como produto de cultura e território.
Em setembro de 2022, Néli lançou Da Botica ao Boteco: plantas, garrafadas e a coquetelaria brasileira, publicado pelo selo Companhia de Mesa, do Grupo Companhia das Letras. Nas 208 páginas do livro, ela reconstrói o caminho que levou os remédios e as garrafadas a virarem drinques, mostra como saberes ancestrais se tornaram produtos comerciais e apresenta receitas para uma coquetelaria brasileira moderna. A obra se tornou referência para quem estuda bebidas e cultura alimentar no Brasil.
O Gogó & Borogodó é o projeto editorial em que Néli reúne sua pesquisa sobre bebidas e brasilidades, e que ganhou também versões presenciais: encontros ao vivo no Espaço Zebra, com convidados, em formato de bate-papo aberto ao público.
Em 5 de agosto de 2026, a segunda edição ao vivo recebe Felipe Jannuzzi, criador do Mapa da Cachaça, para a conversa “A cachaça do Brasil”, sobre história, cultura, preconceito, território e produção do nosso destilado.
Além do Zebra, Néli desenvolve consultorias, cardápios de drinques e projetos para marcas nacionais e internacionais, com foco em ingredientes brasileiros. Também atua como educadora, assinando cursos, oficinas e palestras sobre bebidas, cultura alimentar e coquetelaria de origem.
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