Banho de fé: a cachaça que purifica o Cristo de Morro Vermelho

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Em Caeté (MG), homens realizam um antigo ritual: um banho de cachaça na imagem de Cristo. Fé, tradição e cura se encontram em Morro Vermelho.

Na Quarta-feira de Cinzas, quando o silêncio toma conta do pequeno distrito de Morro Vermelho, em Caeté (MG), uma tradição bicentenária renasce em meio a cheiro de manjericão, devoção e aguardente. É nesse cenário que homens da comunidade se reúnem, como fizeram seus pais, avôs e bisavôs, para dar banho de cachaça na imagem de Nosso Senhor dos Passos.

Não se trata de espetáculo. O ritual é íntimo, sagrado. Começa às 13h, na lateral da Igreja de Nossa Senhora de Nazareth. Um a um, os participantes — apenas homens — chegam com suas garrafas de cachaça e ramos de ervas aromáticas. Em silêncio, dão início ao que muitos chamam de “limpeza” do Cristo. A imagem articulada, esculpida em madeira de cedro no século XVIII, é cuidadosamente despida e colocada sobre uma gamela.

Dali em diante, a cena é carregada de emoção. Mãos calejadas derramam lentamente a aguardente sobre o corpo ensanguentado da escultura. O líquido escorre pelos braços, pernas e rosto, carregando não só o pó do tempo, mas também promessas, dores e esperanças. Dizem os mais velhos que essa “pinga benta” tem poder: serve para curar feridas, ajudar os enfermos e proteger os lares. Até as roupas retiradas da imagem são guardadas por quem precisa de cura.

Ritual do Moro Vermelho

A cerimônia, que marca o início da Quaresma, ecoa práticas ancestrais. É um momento de entrega, sem palavras — onde o cheiro da cachaça se mistura com o da fé. Não há plateia. Mulheres e crianças não participam. O que acontece ali é preservado como um segredo coletivo, passado de geração em geração.

Morro Vermelho tem pouco mais de 800 habitantes, e talvez justamente por isso, ali o tempo corre diferente. A fé é lenta, como a cachaça que escorre sobre o cedro. É um território onde a religiosidade popular pulsa forte, e onde a cachaça — mais do que bebida — cumpre papel simbólico: purifica, preserva, conecta.

Nosso Senhor dos Passos segue intacto, apesar dos séculos. Talvez pela madeira resistente. Talvez pela devoção. Talvez pela cachaça, que, entre rezas e mãos firmes, mantém viva uma das celebrações mais singulares do Brasil.

Foto: Beto Novaes

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O Mapa da Cachaça é um projeto cultural e educativo criado com o objetivo de divulgar e valorizar a cachaça, que é um patrimônio cultural e um dos símbolos da identidade brasileira.