Cachaça envelhecida em madeiras não nativas: jaqueira, teca e cerejeira europeia

  • Publicado 3 semanas atrás

Conheça como produtores brasileiros estão inovando no envelhecimento da cachaça com madeiras não nativas, como jaqueira, teca e cerejeira europeia, criando novos aromas e perfis sensoriais.

No extremo sul da Bahia, um tanoeiro chamado Gildásio trabalha na produção de uma dorna de jaqueira. Ele veio de Salinas, onde aprendeu a entalhar bálsamo para produção de barris e dornas para envelhecer cachaça. Agora, em Caravelas, ele trabalha uma madeira asiática muito conhecida pelos brasileiros, mas que poucos usam para envelhecer cachaça.

A jaqueira é da própria fazenda — algumas árvores derrubadas para virarem dornas, outras plantadas em projeto de reflorestamento, pensando nas cachaças que ainda nem nasceram. É raro uma destilaria ter tanoaria própria no Brasil. Mas na Matriarca, o domínio da técnica e arte em produção de barris dão aos produtores uma grande autonomia na hora de inovar quando o assunto é envelhecer cachaça. Além da jaqueira, também são pioneiros no uso da goiabeira.

dornas de cachaça da cachaça Matriarca
As dornas em Caravelas, Bahia, onde são armazenadas as cachaças da Matriarca

A cerca de dois mil quilômetros dali, em Sales Oliveira, no interior paulista, os irmãos Aluízio e Fernando Margarido caminham entre suas árvores de teca. Não são árvores compradas nem madeira encomendada de uma tanoaria distante. É teca cultivada nos arredores da própria destilaria — uma das madeiras mais valorizadas do mundo, originária do sudeste asiático, mas plantada e manejada ali mesmo, no local onde nasce a cachaça Margô. Conhecida historicamente pelo uso na construção naval graças à sua resistência à umidade e ao tempo, a teca agora ganha uma nova função: transferir cor, aromas e personalidade à cachaça.

destilaria da cachaça Margô
Em Sales de Oliveira, a destilaria da cachaça Margô é rodeada por pé de teca.

E mais ao sul, no Vale do Rio das Antas, em Bento Gonçalves, a Casa Bucco — destilaria fundada por imigrantes que vieram de Údine, na Itália, em 1875, e converteu a tradição da grappa em cachaça em 1925 — acaba de abrir uma nova tendência. Pela primeira vez, uma cachaça é envelhecida em cerejeira europeia. Não a nossa “cerejeira” — porque, no Brasil, esse nome popular pode designar quatro árvores completamente diferentes. É a Prunus avium, o pé de cereja europeu, madeira que historicamente recebe vinhos e destilados na Europa. Agora, na garrafa da Casa Bucco, a madeira dá personalidade para cachaça pela primeira vez.

casa bucco serra gaúcha
Vista da destilaria Casa Bucco no Vale do Rio das Antes, Rio Grande do Sul.

Três produtores, três madeiras não nativas, três regiões do Brasil. E uma mesma constatação: a cachaça é o único destilado do mundo capaz de conversar com tamanha diversidade de madeiras — e cada safra mostra mais produtores fluentes nessa língua.

A confusão deliciosa das cerejeiras

Vale uma pausa para esclarecer um nó botânico que confunde até cachaceiro experiente. No Brasil, quando alguém diz “cerejeira”, pode estar falando de quatro árvores muito diferentes — e cada uma conta uma história.

amburana imburana
Amburana cearensis, uma das mais populares para a produção de barris e dornas para envelhecer cachaça.

A primeira é a Amburana cearensis, a nossa amburana mais comum, conhecida popularmente também como imburana, umburana, emburana — e, sim, cerejeira. Esse último nome vem dos potenciais aromas de cereja que a madeira desenvolve no contato com o destilado, não da árvore em si, que de cereja não tem nada. É a amburana que os produtores do norte de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul transformaram em assinatura regional, rica em cumarina, com aromas de baunilha, cravo e canela.

A segunda é a Amburana acreana, prima da cearense — e adotada pela Casa Bucco em sua versão amburana, que cravou 93,5 pontos no Guia Mapa da Cachaça.

A terceira é a Prunus avium — a cerejeira europeia propriamente dita, a árvore que dá cereja de verdade. É madeira de frutífera, com perfil completamente distinto das amburanas, tradicionalmente usada no envelhecimento de vinhos e destilados na Europa, e que apenas agora começa a entrar de forma estruturada no envelhecimento da cachaça.

E há a quarta: a Prunus serrulata, a sakura, a cerejeira ornamental japonesa, que não dá fruto comestível mas é flor nacional do Japão. Essa madeira, ao contrário do que se poderia imaginar, já tem trajetória consolidada no mundo dos destilados — só que em outro hemisfério. Casas japonesas como Suntory, Hibiki, Kamiki, Iwai e Matsui adotaram a sakura no envelhecimento e finalização de seus whiskies, e a tendência se expandiu para o bourbon americano e para destiladores na Califórnia. No Brasil, até onde alcança o registro do Mapa da Cachaça, nenhum produtor de cachaça envelheceu seu destilado em sakura. Ainda.

Cerejeira Japonesa, Sakura
Cerejeira Japonesa, a sakura: madeira usada para envelhecer whisky japonês

Quatro árvores, quatro conversas sensoriais distintas — e três delas já presentes em destilados produzidos no Brasil.

Matriarca: criadora de tendências com a jaqueira

A Cachaça Matriarca nasceu na Fazenda Cio da Terra, no extremo sul baiano, batizada em homenagem a Aracy Alves Pinto, matriarca da família que fundou a destilaria nos anos 1990. Hoje, sob direção de Lucas Di Loreto Kerr Maia, a casa mantém o que poucas no Brasil mantêm: uma tanoaria própria. É essa estrutura que permitiu à Matriarca lançar, no início dos anos 2000, a primeira cachaça armazenada em jaqueira do mercado brasileiro.

Matriarca Jaqueira

A escolha não foi excentricidade. A jaqueira oferece à cachaça um perfil que nenhuma outra madeira reproduz — cor amarelo-ouro intenso, brilhante; aromas de grama, mel, frutas amarelas como maracujá e um floral discreto; na boca, vegetais como grama e feno se combinam com banana verde e um doce de fruta amarela, que dialoga com um amargor medicinal típico da madeira. É vegetal, é floral, é levemente adstringente. É singular.

E a técnica é parte da assinatura. A Matriarca Jaqueira passa por um envelhecimento sequencial: começa em duas grandes dornas de jaqueira de 5 mil litros, finaliza em dornas menores de 200 litros. Essa passagem entre volumes diferentes molda gradualmente a interação entre destilado e madeira, em vez de impor uma só camada de extração. É uma conversa em capítulos.

E há a outra ponta dessa história: a sustentabilidade. A família já reflorestou parte da fazenda com mudas novas de jaqueira, pensando nas próximas gerações de cachaças. Quem trabalha com madeira precisa pensar nisso.

Margô: a teca cultivada em casa

Em 2015, Fernando e Aluízio Margarido decidiram transformar a cana da fazenda em cachaça. O nome veio do sobrenome da família, em homenagem às raízes. Sales Oliveira, no interior paulista, virou casa de uma cachaça que cresce em mais de um sentido — a cana cresce no sítio, e a madeira também.

Fotografia de garrafa da cachaça margô teca. Fim da descrição.

A teca, Tectona grandis, é nativa do sudeste asiático. Chegou ao Brasil como madeira de cultivo comercial, valorizada na construção naval pela resistência à umidade e pelo óleo natural que carrega. Como recipiente para envelhecer destilado, só conheço a Margô, fazendo dessa raridade um pilar da identidade da marca.

E o perfil que resulta confirma a aposta: cachaça frutada e adocicada, equilibrada por um amargor elegante e uma adstringência que ninguém confunde como defeito — é a digital inconfundível da teca, a madeira é a protagonista.

A Margô também envelhece em carvalho americano de primeiro uso, em barris virgens, e sua linha Premium chega às quatro estrelas no Guia Mapa da Cachaça 2025. Apesar de preferir as versões no carvalho, é na teca cultivada em casa que a destilaria entrega seu argumento mais autoral.

Casa Bucco: a cerejeira europeia entra na conversa

A Casa Bucco é uma das destilarias que mais imprimiu a estética gaúcha de envelhecer cachaça: bidestilação, tostas, blends afinados em carvalho e amburana. Suas raízes estão em Údine, no norte da Itália, de onde Basílio Romano Bucco saiu em 1875. A produção de cachaça começou em 1925, adaptando a tradição da grappa às terras pedregosas de basalto do Vale do Rio das Antas, onde o microclima de chuvas abundantes e neblina espessa cria uma estufa natural para a cana orgânica que cultivam em 11 dos seus 56 hectares.

Casa Bucco Cerejeira Europeia

Sob direção de Moacir A. Menegotto desde 1996, a Casa Bucco modernizou processos — adotou bidestilação cedo, destila em alambique charantês de cobre, mesmo modelo usado para cognac, separando criteriosamente as frações até reter só o coração. Sua versão em Amburana acreana, envelhecida por 18 meses a 2 anos em tonéis de 700 litros com tosta intensa, virou referência da Escola Gaúcha da Amburana, com 93,5 pontos no Guia Mapa da Cachaça 2025 — distinta da Escola Mineira por sua doçura mais integrada, baunilhada e aveludada.

Agora, a Casa Bucco abre um capítulo novo: a cerejeira europeia, Prunus avium, envelopada numa garrafa de design impecável. É a primeira vez que essa madeira aparece no envelhecimento de cachaça. O resultado constrói um perfil floral, frutado e especiado, com baixa adstringência e notas marcantes de baunilha, amêndoas e marzipã — características que dialogam diretamente com a herança italiana da casa e com a tradição europeia de envelhecer destilados.

A madeira como ofício, não como excentricidade

A cachaça não é uma versão tropical de nada. Não é o whisky do hemisfério sul, não é um rum aprimorado, nem uma alternativa exótica a qualquer outro destilado. Ela é referência — e parte do que a torna única está justamente nesse diálogo profundo com a diversidade de madeiras, nativas ou não, usadas no seu envelhecimento, algo que nenhum outro destilado no mundo consegue reproduzir.

Mas o valor não está na excentricidade. Está no domínio. Usar jaqueira apenas por usar não cria uma grande cachaça. Plantar teca para parecer ousado não substitui o entendimento de como aquela madeira reage ao destilado, ao tempo, ao volume do barril, à tosta — ou à ausência dela. Trazer a cerejeira europeia para o Brasil não é apenas um argumento de marketing; é uma decisão técnica que exige conhecimento, sensibilidade e experimentação, como mostram a Casa Bucco e os produtores que começam a explorar novos caminhos.

Esses produtores mostram que a fronteira da cachaça não está apenas na riqueza da nossa flora, onde quase tudo parece crescer. Ela começa justamente quando o produtor aprende a falar a língua da madeira. Hoje vemos uma evolução importante nas técnicas de envelhecimento: o refinamento de práticas antes essencialmente empíricas, a troca de conhecimento com universos como o do whisky e do vinho e os avanços da pesquisa acadêmica, que ajudam a compreender com maior precisão as transformações químicas e sensoriais que acontecem dentro do barril.

Quando entrei no universo da cachaça, era comum ver a diversidade de madeiras em alguns portfólios funcionar quase como uma coleção de troféus: uma necessidade de marcar presença com algumas madeiras nativas, outras exóticas, muitas vezes apenas para sustentar o discurso da diversidade. Hoje, entre os melhores produtores, isso parece estar mudando. A escolha da madeira deixou de ser uma vitrine para se tornar linguagem. As melhores cachaças não procuram apenas variedade; procuram coerência entre a história da destilaria, sua identidade e aquilo que cada madeira pode dizer ao destilado.

No Mapa da Cachaça, reunimos análises técnicas sobre o impacto de madeiras clássicas e pouco exploradas em centenas de rótulos avaliados. E esse repertório continua crescendo — porque a cada nova madeira, barril ou experimento surgem novas formas de entender os aromas e sabores que a cachaça é capaz de revelar.

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Em 2010, Felipe Jannuzzi fundou o Mapa da Cachaça, premiado projeto cultural com reconhecimento internacional e a principal referência sobre cachaça no mundo. Felipe é um dos sócios fundadores da Espíritos Brasileiros, empresa pioneira no mercado de produção de gin no Brasil, responsável pelo premiado Virga, primeiro gin artesanal brasileiro e o único no mundo que leva doses de cachaça na receita. Desde 2021, é um dos sócios da BR-ME, empresa especializada em produtos brasileiros, como vinhos, cafés, azeites, queijos e chocolates.