
Por 25 anos, o especialista em marketing e ex-corretor de seguros Hans Müller recebeu ligações e participou de reuniões, primeiro comunicando o valor de outras marcas e vendendo sonhos, depois a tranquilidade para os clientes. Mas foi na cachaça que ele encontrou a realização pessoal e sua própria paz. Decidido a mudar de rumo, Hans trilhou um caminho não tão comum no mercado de destilados. Antes mesmo de ter a produção, ele já sabia e tinha registrado qual seria o nome da sua marca: Cachaça Pitangui. Uma homenagem a uma cidade mineira que Hans nunca havia visitado até aquele momento, mas por cuja história ele se fascinou.
Foi pela internet que o empreendedor da Cachaça Pitangui, de São Paulo, leu pela primeira vez sobre a história do município de Pitangui, no centro-oeste de Minas Gerais, e o motim que ficou conhecido como a Rebelião da Pinga da Sétima Vila do Ouro. O episódio de 1719, pouco lembrado fora dos círculos de historiadores, marcou um período de embates entre produtores locais e a Coroa Portuguesa, que tentava controlar e tributar a produção da aguardente na época.
Conhecida como o ‘portal do centro-oeste mineiro’, na região do Campo das Vertentes, a cidade de Pitangui começou como um assentamento de paulistas, após disputas pela posse das minas de ouro no interior do que hoje é o estado de Minas Gerais. Inspirado pela resistência e posterior influência da cidade na Independência do Brasil, Hans decidiu que esse seria o nome ideal para seu rótulo.
“Eu comecei a estudar sobre cachaça e decidi que ia ter uma marca própria. Fiz uma lista de nomes, pensei no nome da minha mãe e da minha filha, mas depois de ler sobre a Revolta da Cachaça de Pitangui, decidi. Eu li isso em 2017, e ‘deu um estalo’ em mim: Cachaça Pitangui. Soou bem, soou cachaça. Simples assim”,
lembra Hans Müller, proprietário da marca de cachaça que leva o nome da cidade mineira de Pitagui
Mas o caminho até a concretização do sonho de Hans em ter uma marca de cachaça própria foi repleto de desafios, bem como de várias coincidências. Diferente de muitos produtores de cachaça, Hans não herdou um engenho da família nem cresceu entre alambiques. “Desde que eu me entendo por gente, eu gosto de coquetelaria, adoro bebidas e coquetéis, mas eu não bebo muito, não costumeiramente”, revela o dono da Cachaça Pitangui que se envolveu e se apaixonou pelo mundo da cachaça.
“Quando decidi investir em cachaça, fiz uma pesquisa aplicando meus conhecimentos de marketing e entendi que o público que eu buscava, o paulistano, valoriza e gosta do que conhece como a ‘cachaça amarela’ de Minas. Fiz também algumas viagens de pesquisa, em especial na cidade paulista de Monte Alegre do Sul, local de vários alambiques, onde conheci Evandro Cirineu, o proprietário da destilaria Brisa da Serra que me deu valiosos conselhos”, comenta Hans.
O primeiro passo do empreendedor foi registrar a marca em 2017, ainda sem ter uma gota do destilado para oferecer aos potenciais clientes. O objetivo? Vender a melhor cachaça mineira para os paulistanos. “Eu sabia que se conseguisse ser um bom vendedor de cachaça na maior cidade do Brasil, estaria no caminho certo para o sucesso”, explica.
A busca pelo parceiro ideal para produzir a Cachaça Pitangui levou Hans de volta para a internet, onde procurou uma lista de potenciais destilarias em diferentes regiões de Minas Gerais, começando pela cidade que dá nome à sua marca. A ideia era achar cinco possíveis fornecedores para então decidir entre eles. O critério principal era a qualidade: o rótulo precisava refletir o que há de melhor na produção mineira de cachaça de alambique.
E nem foi preciso gastar muitos créditos em ligações. No primeiro telefonema, Hans conheceu “Seu Zé”, médico e fazendeiro na cidade de Pitangui, que tinha o inconfundível sotaque mineiro e uma prosa fácil. “Seu Zé disse que poderia rotular cachaça para mim e que cuidava do registro ali mesmo. Quando falei que já tinha o nome Pitangui registrado, ele duvidou. Imaginei-o com chapéu de palha e cigarro no canto da boca, cuidando da cana. Batemos o martelo na primeira ligação e fiquei de visitá-lo”, conta Hans ao lembrar da conversa ao telefone.
Algum tempo depois, lendo um boletim da cachaça, Hans percebeu que esteve em contato, nada menos que, com José Otávio Lopes de Carvalho, do Alambique Santíssima, produtor das premiadas cachaças Bem Me Quer e Santa Romana, e ex-presidente da Associação Nacional dos Produtores e Integrantes da Cadeia Produtiva e de Valor da Cachaça de Alambique (ANPAQ).
“Eu soube, naquele momento, que a parceria com o Alambique Santíssima era a oportunidade e a qualidade que eu buscava. José Otávio é um cara de visão e que sai na frente quando se fala de tecnologia para a cachaça”, conta Hans, que encontrou na própria cidade a qual dá nome a sua cachaça, o parceiro ideal de negócios.





“Nós temos um carinho muito grande com o Hans. Ele se apaixonou pela nossa cidade e aí vieram as coincidências e são muitas”, diz Rosana Romano, esposa de José Otávio, do Alambique Santíssima, que produz e envasa a Cachaça Pitangui. Além de Hans encontrar o que procurava na primeira ligação, Rosana conta que há semelhanças até de nome e sobrenome, entre a mãe de Hans e a neta dela.
“A mãe dele se chamava Cecília Lopes. Minha quinta neta também é Cecília Lopes. Zé Otávio e eu temos um carinho enorme e uma afinidade muito grande por Hans. Minha filha e meu genro, que administram o alambique, também. Ele é um parceiro e uma pessoa incrível. Tudo o que faz pela cachaça é muito pensado, com muita razão”, revela Rosana.
Mas as coincidências não pararam por aí. Já próximo de fechar o negócio, Hans mencionou ter estudado e escolhido um modelo específico de garrafa no mercado: a garrafa Eva, que havia guardado como referência para o seu projeto. Quando perguntou qual garrafa o alambique Santíssima usava, ouviu de José Otávio: “Nós temos garrafa Eva aqui para muitos anos. Compramos uma carreta, temos um milhão delas”. Era exatamente a mesma garrafa escolhida por Hans. “Depois disso, eu não tive dúvida. A parceria estava selada”, relembra Hans.

O lançamento oficial da Cachaça Pitangui aconteceu em 2020, consolidando o sonho de um empreendedor que trocou a estabilidade do setor financeiro pelo desafio de conquistar o paladar dos paulistanos com cachaça. Hoje, a marca não só leva o nome de uma cidade histórica mineira, mas também ajuda a resgatar e valorizar uma tradição na produção de cachaça de alambique com mais de 300 anos.



Além da escolha estratégica de Pitangui como nome, Hans fez questão de se conectar com o mito da glória local, e as relações históricas entre São Paulo e Minas Gerais, também na identidade visual de sua cachaça.
O rótulo da bebida traz o desenho de um bandeirante, colono símbolo da expansão do domínio português para explorar o interior do Brasil nos séculos XVI e XVII, acompanhado do brasão da cidade de Pitangui, resgatando uma parte da identidade histórica da cidade e seus laços com a cultura da cachaça.


explica Hans
“Quis um rótulo que traduzisse não só a tradição da cachaça, mas a história de resistência que essa cidade representa, desde a Revolta da Cachaça até os dias de hoje”,
Hans ainda segue no projeto de conquistar o paladar paulistano com sua cachaça, mas uma coisa ele já conquistou: o conselho da principal associação que representa e promove a cachaça de alambique no Brasil, que certifica a qualidade e fortalece a cadeia produtiva do setor: a ANPAQ.

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