Farrista: três séculos de aguardente de cana em Martinho Campos (MG)

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Farrista é uma das aguardentes mais antigas do Brasil, produzida desde 1715 em Martinho Campos (MG). História, turismo, destilado de melado e tradição mineira.

A cerca de 200 quilômetros de Belo Horizonte, às margens do Rio Pará e próxima ao São Francisco, Martinho Campos carrega um apelido que diz muito sobre sua identidade: Abadia. A cidade, com pouco mais de 14 mil habitantes, preserva uma relação profunda com a religiosidade, a gastronomia mineira e, sobretudo, com a produção artesanal de aguardente de cana. É ali que se encontra um dos mais antigos alambiques em atividade contínua no Brasil: o Alambique da Farrista.

rótulo da aguardente Farrista

Um território moldado pela aguardente de cana

Fundada oficialmente em 1938, Martinho Campos guarda raízes bem mais antigas. Antes mesmo da constituição do município, a região já era ocupada por fazendas produtoras de açúcar mascavo, melado e aguardente. A cachaça, aqui, não surge como produto isolado, mas como extensão natural de um modo de vida rural, marcado pelo trabalho da cana, pelas vendas tradicionais, pelas queijarias e por uma culinária de receitas diretas e afetivas — como a paçoca de carne, hoje reconhecida como patrimônio imaterial do município.

Entre junho e agosto, festas populares e religiosas, especialmente a celebração da Padroeira Nossa Senhora da Abadia, reforçam o caráter acolhedor da cidade e sua vocação para receber visitantes interessados em cultura, memória e turismo rural.

Farrista: aguardente de melado desde 1715

A Cachaça Farrista nasce na Fazenda da Barra, onde as primeiras estruturas foram erguidas entre 1711 e 1720. Inicialmente dedicadas à produção de açúcar mascavo, essas instalações passaram, ainda no século XVIII, a abrigar também a produção de aguardente. O resultado desse processo é uma das raríssimas aguardentes de melado produzidas de forma contínua em Minas Gerais.

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Vista aerea da Fazenda da Barra, local de produção da aguardenta Farrista

Hoje, o alambique está sob a condução da nona geração da família: as irmãs Daniella, Athaísa e Mariana Lino, que herdaram do pai não apenas a técnica, mas o compromisso com a preservação de um patrimônio vivo. O nome Farrista já era utilizado na época do bisavô de Daniella, reforçando uma linhagem que atravessa mais de três séculos.

O melado segue sendo preparado em cochos de cobre antigos, posicionados próximos ao alambique, em um processo manual que atravessou gerações praticamente sem rupturas. É dessa base que nasce a aguardente, mantendo viva uma técnica pouco comum mesmo em regiões tradicionais da cachaça.

Visitar o Alambique Farrista

A visita ao Alambique Farrista é uma imersão no tempo. Além das degustações orientadas, o visitante encontra documentos, fotografias, peças do século XVIII e instalações históricas que integram um museu em estruturação. O espaço também abriga uma loja com produtos próprios e itens de parceiros regionais, fortalecendo a economia local e o vínculo entre produtores.

O alambique integrou nossa rota de turismo da cachaça e está aberto a visitantes interessados em compreender, de perto, a relevância dessa aguardente mineira rara — não apenas pelo produto em si, mas pelo contexto histórico e cultural que a sustenta.