A cerca de 200 quilômetros de Belo Horizonte, às margens do Rio Pará e próxima ao São Francisco, Martinho Campos carrega um apelido que diz muito sobre sua identidade: Abadia. A cidade, com pouco mais de 14 mil habitantes, preserva uma relação profunda com a religiosidade, a gastronomia mineira e, sobretudo, com a produção artesanal de aguardente de cana. É ali que se encontra um dos mais antigos alambiques em atividade contínua no Brasil: o Alambique da Farrista.

Fundada oficialmente em 1938, Martinho Campos guarda raízes bem mais antigas. Antes mesmo da constituição do município, a região já era ocupada por fazendas produtoras de açúcar mascavo, melado e aguardente. A cachaça, aqui, não surge como produto isolado, mas como extensão natural de um modo de vida rural, marcado pelo trabalho da cana, pelas vendas tradicionais, pelas queijarias e por uma culinária de receitas diretas e afetivas — como a paçoca de carne, hoje reconhecida como patrimônio imaterial do município.
Entre junho e agosto, festas populares e religiosas, especialmente a celebração da Padroeira Nossa Senhora da Abadia, reforçam o caráter acolhedor da cidade e sua vocação para receber visitantes interessados em cultura, memória e turismo rural.
A Cachaça Farrista nasce na Fazenda da Barra, onde as primeiras estruturas foram erguidas entre 1711 e 1720. Inicialmente dedicadas à produção de açúcar mascavo, essas instalações passaram, ainda no século XVIII, a abrigar também a produção de aguardente. O resultado desse processo é uma das raríssimas aguardentes de melado produzidas de forma contínua em Minas Gerais.

Hoje, o alambique está sob a condução da nona geração da família: as irmãs Daniella, Athaísa e Mariana Lino, que herdaram do pai não apenas a técnica, mas o compromisso com a preservação de um patrimônio vivo. O nome Farrista já era utilizado na época do bisavô de Daniella, reforçando uma linhagem que atravessa mais de três séculos.
O melado segue sendo preparado em cochos de cobre antigos, posicionados próximos ao alambique, em um processo manual que atravessou gerações praticamente sem rupturas. É dessa base que nasce a aguardente, mantendo viva uma técnica pouco comum mesmo em regiões tradicionais da cachaça.


A visita ao Alambique Farrista é uma imersão no tempo. Além das degustações orientadas, o visitante encontra documentos, fotografias, peças do século XVIII e instalações históricas que integram um museu em estruturação. O espaço também abriga uma loja com produtos próprios e itens de parceiros regionais, fortalecendo a economia local e o vínculo entre produtores.
O alambique integrou nossa rota de turismo da cachaça e está aberto a visitantes interessados em compreender, de perto, a relevância dessa aguardente mineira rara — não apenas pelo produto em si, mas pelo contexto histórico e cultural que a sustenta.




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