Viçosa Real, marca nascida no interior do Ceará aposta em afetos e envelhecimento prolongado em madeiras locais e importadas para produzir rótulos premiados no Brasil e no exterior
No alto da Serra da Ibiapaba, o asfalto serpenteia entre curvas fechadas e paredões verdes até desembocar em Viçosa do Ceará, município fundado em 1759 e cercado por um patrimônio arquitetônico colonial, onde pode-se descansar à sombra da mangueira centenária da igreja mais antiga do Estado. É nesse cenário, onde o tempo parece repousar em compasso lento, que Gabriel Caldas Mapurunga passeia com o celular na mão mostrando a cidade com orgulho. Um prelúdio indispensável para entrar na atmosfera da cachaça Viçosa Real.
A cidade, que desponta como capital da cachaça tendo o maior número de estabelecimentos produtores da bebida registrados no Brasil, são 25 deles segundo o Anuário da Cachaça 2025, e seu centro histórico aparecem não só como pano de fundo, mas como matéria-prima do que se engarrafa na Viçosa Real: uma cachaça de alambique de produção familiar, que tem feito de memórias afetivas uma forma de elegância e vem chamando atenção nos bastidores do mercado internacional de destilados. Em pouco mais de um ano no mercado formal, a marca já conquistou dez premiações, sendo sete delas em concursos fora do Brasil.
Barris e memória: a origem da cachaça Viçosa Real
A cachaça Viçosa Real foi fundada em 2007, com o objetivo de resgatar uma lembrança familiar. A proposta era manter vivo um costume regional. Em tempos de difícil acesso a produtos da capital, a cachaça branca era comprada de produtores do sertão e colocada em tonéis de madeira, que faziam parte da mobília e do cotidiano das famílias na cidade.
“A cachaça era o uísque de Viçosa”, conta Gabriel, se referindo à dificuldade de acesso aos produtos que chegavam em Fortaleza, que fica há 350 quilômetros de distância de Viçosa do Ceará.
No casarão da família Caldas, tombado como patrimônio histórico, não era diferente. Os barris de madeiras locais e a cadeira de balanço de Chico Caldas, tabelião e criador do primeiro cartório local, ainda estão lá, intactos, compondo a decoração da construção datada de 1946. Memória viva de um ritual diário do patriarca da cidade.
“Meu bisavô ficava na varanda da casa e perguntava às pessoas que passavam na rua: ‘você já foi batizado?’ Se a resposta fosse não, ele levava a pessoa para dentro de casa e oferecia uma dose da cachaça de sua barrica especial”, conta Gabriel.
Da tradição doméstica à profissionalização da Viçosa Real
A família Caldas não tinha, até então, tradição na destilação de cachaça. Foi Clóvis Caldas Mapurunga, pai de Gabriel e neto de Chico Caldas, quem iniciou essa história ao adquirir, em 2007, o sítio Olaria, na zona rural da cidade — uma propriedade onde já se fabricava cachaça desde a década de 1950.
“Perguntei: pai, por que você comprou uma fábrica? E ele respondeu: pra voltar a fazer cachaça boa como antigamente”,
relembra Gabriel Calda
O perfil de qualidade ao qual o pai se referia ia além da produção, priorizava a maturação e o envelhecimento prolongado da bebida. Com o tempo, o acervo de tonéis e barris com cachaça atingiu 70 mil litros — e ficou claro que o passatempohavia chegado em um ponto decisivo. “Era algo desmedido: não tínhamos fígado para beber tudo aquilo”, brinca Gabriel.
A profissionalização teve início em 2013, com o registro no Ministério da Agricultura e o desenvolvimento de uma identidade visual. No começo, as garrafas eram oferecidas como presente a amigos, clientes e pessoas próximas.
“O pessoal foi gostando, e, desde 2015, eu pensava: rapaz, acho que isso dá negócio!”. Enquanto as cachaças envelheciam nos barris, Gabriel amadurecia a ideia de transformar o hobby do paiem empreendimento. “Meu pai montou espontaneamente toda a infraestrutura de produção e envelhecimento. Em janeiro de 2024, começamos a comercializar a Viçosa Real e, digamos assim, eu globalizei a marca”.
Rótulos de cachaça que contam histórias de família
O nome Viçosa Real resgata a história da cidade onde tudo começou: antiga Vila Viçosa Real da América, como era chamada no período colonial. Enraizada nesse território, a marca conta com nove rótulos de cachaça e um gin — todos ligados à família Caldas e a personagens marcantes de Viçosa do Ceará.
Entre eles, a Viçosa Real Reserva 3 Madeiras se destaca. Envelhecida por 12 anos, combina 80% de cachaça maturada em ipê amarelo com 20% em bálsamo e carvalho francês, em um blend assinado por Nelson Duarte. O rótulo conquistou duplo ouro e Best of Class na San Francisco World Spirits Competition 2024.
“Nossa Reserva 3 Madeiras saiu do mesmo tonel que meu bisavô tomava cachaça décadas atrás. Voltar com a premiação máxima nos mostra que estamos no caminho certo”,
relata Gabriel.
Outros rótulos também preservam memórias familiares. A Viçosa Real Reserva Chico 04 é envelhecida por 10 anos em barril único misto de aroeira e ipê — madeira também chamada de pau d’arco, na região — e homenageia os “Chicos” da família (bisavô, avô, tios e primos). Já a Viçosa Real Amburana Canuto Tupy é um tributo ao tio-avô de Gabriel, que lhe deixou uma coleção de discos de vinil — hoje trilha sonora da loja da marca no centro da cidade.
A linha de homenagens segue com a Viçosa Real Reserva Alexandre Hollanda, dedicada a um primo querido, com um blend que une madeiras locais e importadas, representando o desejo de ganhar o mundo, sem perder de vista o amor por Viçosa. E se expande com a edição limitada Viçosa Real Porto do Clóvis, envelhecida em barris de vinho do Porto, que celebra tanto o pai do produtor quanto o jurista Clóvis Beviláqua, nascido em Viçosa do Ceará e um dos autores do Código Civil de 1916.
O gin Mayr, por sua vez, homenageia a avó de Gabriel, que fundou uma das primeiras butiques e sorveterias da cidade — hoje sede da loja da marca — e dizia que Viçosa tinha que ter tudo que o mundo tinha. Feito com 15 botânicos, como pupunha, capim-santo e flor de sabugueiro, o destilado reflete seu espírito cosmopolita. “Somos o primeiro gin cearense premiado internacionalmente”, orgulha-se o produtor.
Produção própria com identidade territorial
A Viçosa Real produz sua cachaça no sítio Olaria, em Viçosa do Ceará, numa área de 50 hectares que preserva vegetação nativa e cultiva cana-de-açúcar de forma autossustentável, com mão de obra local. O clima serrano e a altitude favorecem o envelhecimento da bebida. O processo valoriza práticas tradicionais: fermentação natural, destilação em alambique de cobre com fornalha a lenha e moenda original, ainda em uso após restaurações.
“Seria mais fácil pegar uma moenda moderna? Muito mais. Mas entendemos que tem um certo encanto em fazer cachaça como se fazia antigamente. A tradição pode ser boa ou ruim, mantemos o que faz sentido para nós e aprimoramos outros aspectos”, diz o produtor.
Gabriel Caldas não hesita em posicionar sua produção ao lado dos grandes destilados do mundo. Além da estrutura produtiva, a família preserva tonéis antigos, destacando-se pelo uso de madeiras brasileiras como bálsamo, amburana, castanheira, jequitibá, aroeira e ipê amarelo — esta último, aliás, um das mais valorizadas pela casa.
“A nossa distinção está aí. A maioria das nossas cachaças envelhecidas tem como base madeiras da região”.
Gabriel Caldas
A relação com Viçosa do Ceará vai além da escolha da matéria-prima. A cidade recebeu recentemente o selo deIndicação Geográfica (IG) para cachaça, na modalidade de Indicação de Procedência, concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), reconhecimento que reforça a tradição produtiva da região. É nesse contexto que a Viçosa Real se apresenta, não apenas pela qualidade técnica, mas pela capacidade de traduzir em aroma e sabor o vínculo entre território, histórias e afetos.
O Festival Viçosa, Mel e Cachaça, que movimenta o turismo local há mais de uma década, é vitrine para os produtos da marca. E as conexões familiares estão por toda parte: na casa da família retratada nos rótulos, nos nomes dos produtos e na convicção de que a cachaça pode ser veículo de memória. “A gente não quer ser mais uma garrafa na prateleira. Queremos entregar uma experiência sensorial e afetiva. A cachaça é uma iguaria — e deve ser valorizada como tal”, finaliza Gabriel.
Ana Paula Palazi é jornalista pela PUC-Campinas, mestra em Divulgação Científica e Cultural e especialista em Jornalismo Científico pela Unicamp. Atuou por dez anos como produtora e repórter de telejornal. Foi repórter de rede em emissora afiliada da Record TV, de 2016 a 2020. É produtora de conteúdo, atuando em trabalhos sobre cachaça, inovação e empreendedorismo.
Para fornecer as melhores experiências, usamos tecnologias como cookies para armazenar e/ou aceder a informações do dispositivo. Consentir com essas tecnologias nos permitirá processar dados, como comportamento de navegação ou IDs exclusivos neste site. Não consentir ou retirar o consentimento pode afetar negativamante certos recursos e funções.
Funcional Sempre ativo
O armazenamento ou acesso técnico é estritamente necessário para o fim legítimo de permitir a utilização de um determinado serviço expressamente solicitado pelo assinante ou utilizador, ou para o fim exclusivo de efetuar a transmissão de uma comunicação numa rede de comunicações eletrónicas.
Preferências
O armazenamento ou acesso técnico é necessário para o propósito legítimo de armazenamento de preferências não solicitadas pelo assinante ou utilizador.
Estatísticas
O armazenamento técnico ou acesso que é usado exclusivamente para fins estatísticos.O armazenamento técnico ou acesso que é usado exclusivamente para fins estatísticos anónimos. Sem uma intimação, conformidade voluntária por parte do seu Fornecedor de Serviços de Internet ou registos adicionais de terceiros, as informações armazenadas ou recuperadas apenas para esse fim geralmente não podem ser usadas para identificá-lo.
Marketing
O armazenamento ou acesso técnico é necessário para criar perfis de utilizador para enviar publicidade ou para rastrear o utilizador num site ou em vários sites para fins de marketing semelhantes.