
Diz a lenda que os escravos ao produzirem açúcar, cansados de tanto mexer o caldo de cana no fogo, pararam para descansar e a mistura desandou. Temendo as consequências, guardaram aquele melado longe das vistas do feitor. No dia seguinte, para sua surpresa, viram que o líquido havia fermentado, ficando levemente alcoólico e azedo. Ao colocarem novamente no fogo com mais caldo de cana, o vinho evaporou e condensou nos tetos da senzala, formando goteiras que pingavam constantemente na forma de um líquido incolor e de alto teor alcoólico, o chamaram de pinga.

A bebida que pingava e caia nos corpos machucados dos escravos fazia com as feridas ardessem, como uma água ardente ou… aguardente. Caindo em seus rostos e escorrendo até suas bocas, os escravos perceberam que aquela água tinha propriedades que os deixavam mais animados e propensos a trabalhar em condições desumanas.
Apesar de ser uma das versões mais difundidas sobre a origem da cachaça, como toda boa lenda, a estória está repleta de relatos falsos. A versão apresenta a distorcida e ambígua versão da elite brasileira sobre o consumo de álcool por parte dos escravos, ora assumindo a cachaça como antídoto e fuga do cotidiano opressor, ora tendo seu consumo proibido por servir como incentivo à rebeldia.
O que se sabe é que os africanos tinham conhecimento sobre fermentação e o consumo de bebidas alcoólicas sempre esteve associado às práticas culturais, religiosas e hedonistas de muitas tribos.
Inclusive, há registros do século XVII que descrevem que os escravos na Bahia já fermentavam os derivados da produção do açúcar de maneira consciente para consumo do vinho de cana. Até hoje, em Paraty, no litoral do Rio de Janeiro, é costume dos mais velhos beber o mucungo, palavra de origem africana para designar o caldo fermentado da cana. Portanto, ao contrário do que aponta o texto acima, não seria uma surpresa a transformação do caldo de cana em bebida alcoólica fermentada de efeitos inebriantes.

É importante ressaltar que, durante o período colonial brasileiro, a produção de açúcar era uma atividade predominante nas fazendas no litoral brasileiro, e que a produção de cachaça era também uma indústria economicamente importante que utilizavam mão de obra escrava para o cultivo da cana, extração do caldo e produção da bebida.
Os comerciantes europeus levavam a cachaça produzida no Brasil para as regiões costeiras da África, onde ocorria o comércio de escravos. Lá, a bebida era trocada por africanos capturados e escravizados, que posteriormente seriam transportados para as Américas e vendidos para trabalhar nas plantações, incluindo as produtoras de cachaça.
A origem de cachaça, portanto, foi premeditada como forma de utilizar os subprodutos da indústria do açúcar para produzir a bebida para que ela fizesse parte dessa atividade econômica do Brasil Colônia.
A lenda também peca em explicar o processo de destilação quase como uma intervenção divina. A evaporação do caldo fermentado e posterior condensação nos tetos da senzala é fisicamente improvável. A primeira cachaça teria sido destilada de maneira premeditada em alambiques de barro ou de cobre trazidos pelos colonizadores.
No contexto da produção de bebidas alcoólicas, a destilação em alambiques começou a ganhar destaque na Europa a partir do século XIII. O processo era utilizado para a produção de diversas bebidas destiladas, como o brandy, o gin e outras aguardentes.

A origem da palavra aguardente nada tem a ver com os maus tratos de escravos e é muito mais antiga do que a produção do destilado de cana no Brasil. Ela é um termo genérico para caracterizar bebidas destiladas, como whisky, rum, gim, Cognac. A palavra teria relação com vuurwater ou acqua ardentes, significando água de fogo. Já a palavra pinga faz referência ao processo de destilação em alambique de cobre, em que o vinho de cana é aquecido na panela e seu vapor é resfriado e condensado lentamente, saindo aos pingos.
Veja vídeo sobre a origem da palavra e entenda mais sobre a origem da cachaça
Sem dúvida podemos afirmar que essa não foi a origem da cachaça. Mas afinal, quem inventou o destilado brasileiro? Nós fizemos um artigo extenso com algumas hipóteses sobre a origem da cachaça:
Não. A versão mais aceita pela historiografia é a de uma produção premeditada: os alambiques vieram com os colonizadores e a destilação já era conhecida na Europa desde o século XIII. A cachaça nasceu do aproveitamento planejado dos subprodutos do açúcar — e depois virou peça de disputa política, como na Revolta da Cachaça.
É o caldo de cana fermentado, de nome de origem africana — o fermentado que antecede o destilado. Em Paraty, ainda é costume dos mais velhos beber o mucungo, um vestígio vivo de como a bebida começou.
Sim. Há registros do século XVII descrevendo que pessoas escravizadas na Bahia já fermentavam derivados da produção do açúcar de forma consciente, para consumo do vinho de cana. O conhecimento não era acidental de nenhum dos lados: o saber africano da fermentação encontrou o alambique europeu.
Não da lenda. “Pinga” vem do destilado que sai aos pingos do alambique, e “aguardente” é termo genérico europeu, usado também para outros destilados. A bebida acumulou mais de duas mil formas de ser chamada: veja os nomes da cachaça.
Um papel central e sombrio: era mercadoria do comércio triangular, produzida no Brasil e levada à costa africana para ser trocada por pessoas escravizadas. Longe de subproduto descartável, a bebida era indústria relevante do período colonial.
Não exatamente. Hoje o nome cachaça é reservado por lei à aguardente de cana produzida no Brasil, entre 38% e 48% de álcool. Fora dessa faixa ou fora do país, a bebida é aguardente de cana. Entenda as cachaças que não são cachaça e conheça o guia de cachaças do Brasil.

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