É importante começar esse texto deixando claro: não sou bartender. Tenho enorme apreço por esses profissionais que, atrás da barra, lutam todos os dias e noites para entregar um serviço de primeira em um mercado ainda pouco valorizado. Falo aqui da posição de quem bebe pelos balcões do Brasil e, ao longo dos anos, tem se dedicado a estudar a cachaça, as bebidas nacionais e os movimentos do mercado. É nesse lugar de observador, pesquisador e bebedor que me arrisco a compartilhar algumas ideias sobre o que poderia ser a base de uma coquetelaria brasileira.
E quando digo “coquetelaria brasileira”, não falo apenas de receitas, mas de uma estética, de uma forma, de um conceito.
A coquetelaria, em qualquer parte do mundo, é mais do que a soma de receitas, técnicas e twists de limão. É a camiseta colorida dos bartenders tikis, o bigode destacado no Jerry Thomas, as luzes amareladas do speakeasy… é muito mais do que preparar coquetéis. Ela é um movimento cultural, um estilo de vida, uma experiência sensorial de cor, sons, calor humano e sabor.
E para dar certo, essa experiencia depende de inúmeros fatores até chegar às taças: uma categoria presente de produtores de destilados, bartenders que se tornam referências e guias para outros profissionais, empreendedores de bares e restaurantes dispostos a investir na busca por essa identidade, consumidores dispostos a pagar por uma experiência e não somente pelos efeitos inebriantes do coquetel. Quando essas forças se encontram, criam um movimento que traduz identidade.
No Brasil, mapeei alguns elementos únicos que poderiam estruturar essa estética para uma coquetelaria nacional:

Alguns coquetéis já são referência para formar a espinha dorsal dessa coquetelaria brasileira:
Apesar de termos uma tradição de centenas de anos fazendo misturas de frutas com aguardente, nossas receitas ainda são relativamente novas. Existe um tempo de amadurecimento até que elas entrem nos cardápios dos bares e no vocabulário dos consumidores.

Enquanto os grandes centros urbanos têm vocação para replicar tendências internacionais — vide a onda do Gin Tônica, do Negroni e do Fitzgerald em São Paulo —, é no Brasil fora dos holofotes que surgem expressões genuínas de uma coquetelaria nacional.
No interior e nas periferias, receitas locais ganham corpo, como o Jorge Amado de Paraty, um grande sucesso entre os turistas que circulam pelo centro histórico da cidade litorânea.
Esse garimpo de preciosidades revela que movimentos culturais autênticos nascem de forma orgânica, e não fabricada. Mas para que floresçam, é preciso a sensibilidade e o senso de oportunidade do empreendedor, capaz de transformar essas manifestações em ofertas concretas na carta de um bar. Sem essa validação, muitas vezes deixamos escapar a chance de consolidar símbolos importantes.
Foi o que aconteceu há cinco anos com o Chevette, coquetel que surgiu como fenômeno popular e carregava enorme potencial. Faltou, talvez, o passo seguinte: uma releitura mais elaborada, com ingredientes nobres — uma boa cachaça, fava de baunilha, frutas frescas. Essa evolução poderia ter dado lastro ao hype inicial e, ao mesmo tempo, exaltado a riqueza criativa da periferia paulistana.

Se a Era da Prohibition marcou os Estados Unidos com o glamour marginal dos speakeasies, e se o Tiki dos anos 1930 trouxe escapismo para um paraíso imaginário, acredito que a base da coquetelaria brasileira deve estar na busca constante das nossas raízes. Trata-se de um reencontro do brasileiro com o Brasil — com sua bebida nacional, seus sabores, seus símbolos culturais.
O que me motivou a criar o Mapa da Cachaça foi justamente cair na estrada em busca dessas raízes. Hoje entendo que uma das maiores ferramentas de valorização da nossa cultura está no balcão do bar: quando o profissional consegue traduzir toda essa identidade, contando histórias por meio de receitas — e, muitas vezes, literalmente no boca a boca entre cliente e bartender.
Isso evidencia a urgência de termos uma categoria de produtores de cachaça e de outros insumos comprometidos em investir cada vez mais nos profissionais da hospitalidade: bartenders, sommeliers, garçons, consultores, cozinheiros. São eles que transformam um destilado em experiência, uma receita em narrativa, e que podem fazer do ato de beber um encontro com esse Brasil raiz.
Sem resultados
Sem resultados
Sem resultados

Em 2010, Felipe Jannuzzi fundou o Mapa da Cachaça, premiado projeto cultural com reconhecimento internacional e a principal referência sobre cachaça no mundo. Felipe é um dos sócios fundadores da Espíritos Brasileiros, empresa pioneira no mercado de produção de gin no Brasil, responsável pelo premiado Virga, primeiro gin artesanal brasileiro e o único no mundo que leva doses de cachaça na receita. Desde 2021, é um dos sócios da BR-ME, empresa especializada em produtos brasileiros, como vinhos, cafés, azeites, queijos e chocolates.
No results available