Outro dia, ouvi no rádio uma campanha destacando as qualidades do vinho verde, um produto português elaborado a partir de variedades especiais de uvas cultivadas no noroeste de Portugal. Ao chegar em casa, descobri que o Senac ofereceria cursos gratuitos sobre esses vinhos ainda neste mês. Achei muita coincidência ouvir tanto sobre um produto tão específico em um curto espaço de tempo. Curioso, resolvi pesquisar mais e descobri que, desde o ano passado, estão sendo investidos 4,5 milhões de euros na promoção do vinho verde no Brasil e nos Estados Unidos.


Capitaneada pela Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes (CVRVV), a estratégia de divulgação inclui jornalistas, campanhas de marketing e rigoroso controle da denominação de origem. O vinho verde, produzido na pequena região do Entre-Douro-e-Minho, exemplifica o valor da geografia associado a práticas tradicionais de cultivo de uvas. Essa combinação resulta em um vinho branco mais leve e com características únicas. Antigamente, era feito com uvas realmente verdes, mas hoje, embora o nome tenha permanecido, as uvas são colhidas no ponto ideal de maturação.
Durante minha breve pesquisa, notei diversas ações promovidas pela CVRVV para valorizar o produto. Esses esforços se justificam pelos resultados alcançados: no primeiro semestre do ano passado, foi registrado um aumento de 33% em volume nas exportações de vinho verde para o Brasil, alcançando 1,2 milhões de euros. Um valor expressivo para um produto tão específico.
Apostando nas qualidades únicas do vinho, as campanhas não se limitam a divulgar a bebida, mas também a associar a ela conceitos como frescor, juventude e leveza. Essa abordagem conecta o vinho a um estilo de vida mais moderno e descontraído, atraindo novos públicos.
Bem organizados, os produtores dessa pequena região conseguiram levar seu produto para o mundo, agregando-lhe cada vez mais valor. A CVRVV atua de maneira abrangente, investindo em gastronomia, enoturismo, marketing e controle de qualidade. O site oficial da associação impressiona pela quantidade e qualidade das informações. Nele, encontram-se detalhes sobre o vinho, suas regiões produtoras, o processo de produção e a certificação de qualidade. Embora não tenha vídeos tão elaborados quanto outros sites de bebidas famosas, o portal se destaca pela organização e pela riqueza de conteúdo. É um exemplo a ser seguido por outras indústrias de bebidas tradicionais.
É tentador culpar o Brasil por ainda não ter se organizado de forma semelhante para promover sua bebida nacional: a cachaça. Contudo, a comparação revela desafios significativos. Enquanto a produção anual de vinho verde gira em torno de 80 milhões de litros, a cachaça alcança impressionantes 1,5 bilhões de litros por ano. Além disso, o território brasileiro é vasto e diversificado, em contraste com a micro-região portuguesa onde se produz o vinho verde.
Apesar dessas dificuldades, há muito espaço para otimismo. Se a cachaça contasse com uma “comissão de valorização” apoiada por produtores de qualidade, os resultados poderiam ser mais expressivos. No Brasil, já existem associações regionais relevantes, mas falta uma coordenação nacional para unificar esforços e criar uma estratégia abrangente.
Assim como a CVRVV fez pelo vinho verde, uma entidade dedicada à promoção da cachaça poderia atuar nas áreas de marketing, enoturismo e certificação de qualidade. Um programa nacional estruturado ajudaria a consolidar a imagem da cachaça no mercado interno e externo, destacando suas qualidades únicas e sua rica história.
Fica a sugestão para quem quiser explorar mais sobre o vinho verde: o site oficial da CVRVV está disponível em www.vinhoverde.pt. Quem sabe, em um futuro próximo, também veremos algo semelhante para a cachaça.
Sem resultados
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Renato é publicitário e mestre em Comunicação pela USP. Escritor, lançou “De Marvada à Bendita” em 2011. Colaborou com o Mapa da Cachaça e coordenou um projeto de branding para a cachaça na Oz Estratégia + Design. Atua há mais de 15 anos com estratégia de marca.