Os caminhos para a cachaça industrial de qualidade

  • Publicado 14 anos atrás

Descubra como a cachaça industrial de qualidade pode ajudar na propagação da cachaça no Brasil e no mundo. Explore questões sobre qualidade, marketing e estratégias para valorizar nosso destilado nacional, transformando a imagem da cachaça no mercado.

Cachaça industrial é uma das bebidas mas consumidas no mundo, certo? Segundo os últimos dados da IWSC, a cachaça está entre os 10 destilados mais consumidos no planeta. Mas para muitos consumidores a categoria do destilado brasileiro ainda é uma grande incognita. No entanto, levanto algumas questões sobre como a cachaça de grande volume, mas feita com qualidade podem realmente valorizar a cachaça.

A Qualidade Antes do Envelhecimento

Quem disse que uma cachaça envelhecida é, necessariamente, uma boa cachaça? O envelhecimento em barris não corrige falhas fundamentais como uma destilação mal feita que mistura cabeça, coração e cauda. Mesmo que as certificações garantam uma qualidade química mínima, isso não basta para justificar o título de “Premium”. Além disso, por que a cachaça branca não pode ser considerada premium?

Essa discussão é relevante tanto para consumidores quanto para fabricantes industriais. Recentemente, vimos um aumento no número de cachaças premium lançadas por grandes empresas, como Velho Barreiro Diamond, Reserva 51, Ypióca 160 e Pitu Gold Premium. Todas são envelhecidas, algumas por mais de seis anos. Sem dúvida, esses produtos ajudam a elevar a percepção pública sobre a cachaça. Contudo, precisamos avaliar se essa estratégia realmente beneficia o mercado como um todo.

Estratégia de Mercado e Público-Alvo

Fazendo uma analogia com o McDonald’s, lançar cachaças premium seria como a rede criar um bistrô exclusivo. Isso pode impressionar, mas não altera a percepção sobre o produto básico que continua na “prateleira inferior” do mercado. No setor de fast food, o McDonald’s optou por modernizar suas lojas e melhorar a qualidade dos produtos. Uma abordagem similar poderia beneficiar as grandes marcas de cachaça.

Investir em qualidade básica, como melhorar o plantio e colheita da cana, fermentação adequada e um descanso apropriado antes do engarrafamento, pode ser mais eficaz do que apenas lançar edições especiais caras. Esses cuidados podem trazer mais sabor e valor até mesmo às cachaças industriais.

Seria muito benéfico para o mercado da cachaça, se as grandes empresas produtoras de cachaça industrial, tivessem em sua linha de combate cachaças sem madeira que pudessem ser tidas como um produto de qualidade.

O Papel do Marketing

Outro ponto fundamental é o marketing. Muitos produtos que consumimos, desde água mineral até combustíveis, dependem de um marketing eficaz para se posicionarem no mercado. Exemplos relevantes no setor de cachaça industrial incluem Sagatiba e Leblon, que revolucionaram a categoria com campanhas ousadas e bem estruturadas.

Mesmo enfrentando críticas por se aproximarem do conceito de vodca, essas marcas elevaram a imagem da cachaça tanto no Brasil quanto no exterior. A Sagatiba, em particular, conquistou resultados expressivos. Isso mostra que um marketing bem feito, aliado a embalagens atraentes e uma boa distribuição, é essencial para o sucesso.

A aquisição da Ypióca pela Diageo foi vista como uma oportunidade para impulsionar a categoria. No entanto, isso só será eficaz se houver um esforço genuíno para melhorar a qualidade geral da cachaça industrial produzidas, e não apenas para criar produtos de luxo sem alma ou identidade.

Novos Territórios e Imagem

Para mudar a percepção da cachaça, é necessário associá-la a novos contextos e experiências. Em vez de ser vista apenas como uma bebida de bar, ela pode ser relacionada a momentos de celebração e convivência, como churrascos, feijoadas e encontros com amigos.

Assim como a cerveja é associada à praia e a tequila às baladas, a cachaça pode se tornar um símbolo de alegria e comemoração responsável. Isso exige campanhas estratégicas e criativas que apresentem a cachaça de maneira positiva e contemporânea.

Conclusão

O mercado de cachaça tem um enorme potencial de crescimento, mas isso depende de uma abordagem equilibrada entre qualidade, marketing e inovação. Melhorar a base produtiva, investir em campanhas de comunicação e criar experiências autênticas são caminhos para que a cachaça ganhe o respeito e a valorização que merece.

Com esforços coordenados de produtores, distribuidores e marcas, a cachaça pode se consolidar como um símbolo nacional de qualidade e tradição, sem perder sua essência popular. E, claro, tudo isso deve ser feito com responsabilidade, promovendo um consumo consciente e equilibrado.




Renato Figueiredo

Renato é publicitário e mestre em Comunicação pela USP. Escritor, lançou “De Marvada à Bendita” em 2011. Colaborou com o Mapa da Cachaça e coordenou um projeto de branding para a cachaça na Oz Estratégia + Design. Atua há mais de 15 anos com estratégia de marca.

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