Cachaça industrial é uma das bebidas mas consumidas no mundo, certo? Segundo os últimos dados da IWSC, a cachaça está entre os 10 destilados mais consumidos no planeta. Mas para muitos consumidores a categoria do destilado brasileiro ainda é uma grande incognita. No entanto, levanto algumas questões sobre como a cachaça de grande volume, mas feita com qualidade podem realmente valorizar a cachaça.
Quem disse que uma cachaça envelhecida é, necessariamente, uma boa cachaça? O envelhecimento em barris não corrige falhas fundamentais como uma destilação mal feita que mistura cabeça, coração e cauda. Mesmo que as certificações garantam uma qualidade química mínima, isso não basta para justificar o título de “Premium”. Além disso, por que a cachaça branca não pode ser considerada premium?
Essa discussão é relevante tanto para consumidores quanto para fabricantes industriais. Recentemente, vimos um aumento no número de cachaças premium lançadas por grandes empresas, como Velho Barreiro Diamond, Reserva 51, Ypióca 160 e Pitu Gold Premium. Todas são envelhecidas, algumas por mais de seis anos. Sem dúvida, esses produtos ajudam a elevar a percepção pública sobre a cachaça. Contudo, precisamos avaliar se essa estratégia realmente beneficia o mercado como um todo.



Fazendo uma analogia com o McDonald’s, lançar cachaças premium seria como a rede criar um bistrô exclusivo. Isso pode impressionar, mas não altera a percepção sobre o produto básico que continua na “prateleira inferior” do mercado. No setor de fast food, o McDonald’s optou por modernizar suas lojas e melhorar a qualidade dos produtos. Uma abordagem similar poderia beneficiar as grandes marcas de cachaça.
Investir em qualidade básica, como melhorar o plantio e colheita da cana, fermentação adequada e um descanso apropriado antes do engarrafamento, pode ser mais eficaz do que apenas lançar edições especiais caras. Esses cuidados podem trazer mais sabor e valor até mesmo às cachaças industriais.
Seria muito benéfico para o mercado da cachaça, se as grandes empresas produtoras de cachaça industrial, tivessem em sua linha de combate cachaças sem madeira que pudessem ser tidas como um produto de qualidade.
Outro ponto fundamental é o marketing. Muitos produtos que consumimos, desde água mineral até combustíveis, dependem de um marketing eficaz para se posicionarem no mercado. Exemplos relevantes no setor de cachaça industrial incluem Sagatiba e Leblon, que revolucionaram a categoria com campanhas ousadas e bem estruturadas.
Mesmo enfrentando críticas por se aproximarem do conceito de vodca, essas marcas elevaram a imagem da cachaça tanto no Brasil quanto no exterior. A Sagatiba, em particular, conquistou resultados expressivos. Isso mostra que um marketing bem feito, aliado a embalagens atraentes e uma boa distribuição, é essencial para o sucesso.
A aquisição da Ypióca pela Diageo foi vista como uma oportunidade para impulsionar a categoria. No entanto, isso só será eficaz se houver um esforço genuíno para melhorar a qualidade geral da cachaça industrial produzidas, e não apenas para criar produtos de luxo sem alma ou identidade.
Para mudar a percepção da cachaça, é necessário associá-la a novos contextos e experiências. Em vez de ser vista apenas como uma bebida de bar, ela pode ser relacionada a momentos de celebração e convivência, como churrascos, feijoadas e encontros com amigos.
Assim como a cerveja é associada à praia e a tequila às baladas, a cachaça pode se tornar um símbolo de alegria e comemoração responsável. Isso exige campanhas estratégicas e criativas que apresentem a cachaça de maneira positiva e contemporânea.
O mercado de cachaça tem um enorme potencial de crescimento, mas isso depende de uma abordagem equilibrada entre qualidade, marketing e inovação. Melhorar a base produtiva, investir em campanhas de comunicação e criar experiências autênticas são caminhos para que a cachaça ganhe o respeito e a valorização que merece.
Com esforços coordenados de produtores, distribuidores e marcas, a cachaça pode se consolidar como um símbolo nacional de qualidade e tradição, sem perder sua essência popular. E, claro, tudo isso deve ser feito com responsabilidade, promovendo um consumo consciente e equilibrado.

Renato é publicitário e mestre em Comunicação pela USP. Escritor, lançou “De Marvada à Bendita” em 2011. Colaborou com o Mapa da Cachaça e coordenou um projeto de branding para a cachaça na Oz Estratégia + Design. Atua há mais de 15 anos com estratégia de marca.