Pesquisa da USP revela madeiras brasileiras que substituem o carvalho no envelhecimento da cachaça

  • Publicado 11 anos atrás

Explore as madeiras brasileiras que substituem o carvalho no envelhecimento da cachaça, como jequitibá-rosa e cerejeira, trazendo perfis sensoriais únicos e inovação para o destilado brasileiro. Saiba mais no Mapa da Cachaça!

Madeiras brasileiras que substituem o carvalho no envelhecimento da cachaça

O envelhecimento da cachaça é um dos processos mais fascinantes na produção desse destilado genuinamente brasileiro. Essa etapa transforma o líquido recém-destilado em uma bebida sofisticada e complexa, capaz de competir com outros destilados premium do mundo. Tradicionalmente, o carvalho tem sido a madeira mais utilizada no envelhecimento de cachaças, vinhos e outras bebidas alcoólicas. Mas essa escolha traz desafios para os produtores artesanais brasileiros, que precisam lidar com os altos custos da madeira importada.

Segundo a Dra. Aline Bortoletto, cientista de alimentos da Esalq-USP, “a composição química da madeira de carvalho, a espécie botânica, a proveniência geográfica, a idade da madeira e o manejo florestal são fatores relevantes na escolha do produtor de cachaça, pois afetam diretamente a qualidade da madeira e, consequentemente, o perfil sensorial da bebida”. O carvalho é valorizado globalmente por agregar notas elegantes à bebida, mas sua importação encarece significativamente a produção de cachaças artesanais envelhecidas.

Contudo, uma boa notícia vem ganhando força: pesquisas realizadas pela Esalq demonstram que madeiras brasileiras, como jequitibá-rosa e cerejeira (ou amburana), podem substituir o carvalho sem comprometer a qualidade da bebida. Segundo os estudos, essas madeiras não apenas competem em qualidade, mas também apresentam características sensoriais únicas, ampliando o leque de possibilidades para produtores e consumidores.

“Estamos aprendendo mais sobre as qualidades físico-químicas e sensoriais das madeiras brasileiras, que têm tudo para colocar a cachaça entre os destilados mais complexos do mundo”

afirma Felipe Jannuzzi, fundador do Mapa da Cachaça

No Mapa da Cachaça, temos realizado diversos testes sensoriais com madeiras brasileiras, explorando todo o potencial desse recurso local. A pesquisa conduzida pela Esalq, sob a orientação do professor André Ricardo Alcade, foi pioneira em comprovar cientificamente que madeiras como jequitibá-rosa e cerejeira são alternativas viáveis e economicamente acessíveis ao carvalho.

De acordo com Lethicia Suzigan Corniani, pesquisadora do projeto, “a cerejeira e o jequitibá-rosa apresentaram-se como ótimas alternativas ao uso do carvalho, uma vez que são espécies nativas e economicamente viáveis”. Essas madeiras não apenas reduzem a acidez e o gosto alcoólico da cachaça recém-destilada, como também conferem características sensoriais únicas.

Envelhecimento Esalq com barris de carvalho de primeiro uso

O impacto no consumidor final

Cada madeira tem um impacto diferente na cachaça, proporcionando diversidade de aromas, sabores e cores. A Dra. Aline Bortoletto explica: “O produto envelhecido no jequitibá-rosa se aproxima da coloração da cachaça sem dar muita cor, mas é menos ácido que ela, lembrando mais o perfil sensorial do carvalho. Já a cerejeira proporciona uma coloração mais intensa e um aroma característico da madeira, com um gosto mais marcante”.

Para o consumidor, essa diversidade amplia as opções de escolha e cria oportunidades de experimentar cachaças com perfis sensoriais variados. Em um mercado onde mais de 20 madeiras nativas são utilizadas no envelhecimento de cachaças, o Brasil se destaca como um país inovador no setor de destilados.

O envelhecimento como valor agregado

O processo de envelhecimento não apenas modifica a qualidade química e sensorial da cachaça, como também aumenta significativamente seu valor de mercado. Segundo um artigo publicado no Mapa da Cachaça , o envelhecimento da cachaça agrega cores, sabores e aromas diferenciados, transformando o líquido recém-destilado em uma bebida fina e de qualidade excepcional. O processo pode valorizar o produto em até 300%.

Dados da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) mostram que cachaças industriais armazenadas em tonéis de inox são vendidas no atacado por cerca de R$ 2,50 o litro. Já as envelhecidas em madeira alcançam valores iniciais de R$ 5,10 o litro, podendo chegar a R$ 25 o litro dependendo do método de comercialização. No mercado varejista, uma cachaça envelhecida industrial pode custar cerca de R$ 100, enquanto cachaças artesanais de alta qualidade podem ultrapassar os R$ 250 por garrafa.

A madeira como aliada da inovação

A diversidade de madeiras brasileiras usadas no envelhecimento permite que produtores experimentem combinações únicas, criando produtos verdadeiramente autênticos. Felipe Jannuzzi reforça: “A qualidade que já sentimos nos copos agora é também comprovada em laboratório”.

Essa inovação é uma oportunidade para explorar novas receitas e combinações com cachaças envelhecidas. Imagine coquetéis que realcem as notas aromáticas da cerejeira ou pratos que harmonizem com a suavidade do jequitibá-rosa. As possibilidades são infinitas, e a criatividade dos produtores e bartenders pode elevar a cachaça a um novo patamar de reconhecimento global.

Ficou interessado em saber mais sobre o processo de envelhecimento da cachaça? Assista ao vídeo produzido pelo Mapa da Cachaça em parceria com a Esalq-USP e descubra tudo sobre a fabricação dessa bebida tão brasileira.