O que a cachaça Lira, no sertão do Piauí, pode ensinar sobre sustentabilidade?

  • Publicado 7 meses atrás

A cachaça Lira tem um plano regenerativo centenário que coloca a natureza e o turismo de experiência no centro de seu alambique. Dando continuidade a um legado familiar de cuidado com a terra, a quinta geração da família Lira produz cachaça de forma mais eficiente e sustentável, preservando tradições e recursos naturais.

No coração do sertão piauiense, em Amarante, município banhado por três rios e guardião de casarões centenários, pulsa o universo da cachaça Lira — uma cachaça com história de resistência, engenhosidade, inovação e afetos, que amadurece em barris de castanheira, mas carrega raízes bem mais profundas que o sabor do sertão brasileiro.

A origem da marca remonta a 1889, quando o coronel Francisco José Lira, tataravô de Igor Lira, iniciou a produção de aguardente, açúcar e rapadura. Em 1915, diante da seca devastadora que assolou o Nordeste, o patriarca da família abandonou suas terras em Poços do Piauí — atual São Pedro do Piauí — e buscou uma nova área para recomeçar.

Segundo conta a lenda familiar, o coronel usou a aba do chapéu para medir o relevo do terreno e encontrar um local com declive suficiente para irrigação por gravidade. Foi assim que chegou a Amarante, onde represou o riacho Mulato e construiu um sistema ancestral de canais — os levados — que ainda hoje conduzem a água para o canavial. 

“Meu tataravô dizia que não ia mais depender da chuva. E até hoje usamos os mesmos canais que ele desenvolveu, a mesma água, pelo mesmo caminho”, conta Igor Lira, quinta geração na produção da cachaça que carrega o nome da família.

Igor lira

Cachaça – fio condutor do Eco Turismo

Sentado na varanda do galpão da fábrica, ao lado de uma moenda escocesa de 1915, importada pelo tataravô, o produtor Igor Lira, reflete sobre a trajetória que o trouxe de volta à terra onde cresceu. Formado em direito pela Universidade Federal de Santa Catarina, com pós-graduação internacional em negócios, Igor conciliou a carreira jurídica para assumir o legado iniciado por seu tataravô, que ganhou nome por meio de seu avô e teve a marca registrada por seu pai Edemir Carvalho e tio Haroldo Lira.

Quando voltou da Califórnia, em 2012, depois de concluir os estudos, Igor ouviu de algumas pessoas que estava enterrando dinheiro ao aceitar o chamado da família para assumir o alambique, que encontrava dificuldades. “Diziam que ninguém visitaria Amarante”, lembra o produtor da cachaça Lira. 

Mas o que parecia uma decisão improvável se revelou uma das mais frutíferas colheitas da história da família Lira. Ao unir visão empreendedora à tradição e respeito pela natureza,, Igor não apenas assumiu a produção da cachaça e aumentou as vendas — ele a reinventou, sem apagar (ou derrubar) nada do que foi construído por seus antepassados.

Hoje, o Sítio Floresta – que não leva esse nome à toa – abriga o Lira Eco Parque, um espaço que reúne alambique, restaurante, pousada e atividades de ecoturismo. É possível caminhar entre coqueiros centenários, ouvir o som da moagem e acompanhar de perto a fermentação natural da cachaça, bem como desfrutar de pratos regionais, como carne seca flambada na própria bebida.

“Se não fosse a cachaça, nada disso teria acontecido. Ela é o fio condutor de tudo”,  

diz Igor Lira

Sustentabilidade como princípio da cachaça Lira

Desde sua origem, o modelo de produção da cachaça Lira esteve ligado à sustentabilidade ambiental. Dos 300 hectares do Sítio Floresta, apenas 50 são utilizados para cultivo e manejo agrícola. O restante é área de mata nativa preservada desde seu fundador e mantida pelas gerações seguintes. O canavial, com 30 hectares, é rodeado por vegetação, o que mantém o equilíbrio ecológico e dispensa o uso de pesticidas.

A colheita da cana é feita manualmente, sem queimadas. A palha é deixada no solo, devolvendo nutrientes e protegendo a umidade da terra. Parte da plantação recebe adubo orgânico feito do próprio bagaço da cana e esterco animal. Outra parte é irrigada por fertirrigação, com um adubo líquido composto por melaço, resíduos de mel e esterco animal, aplicado por um sistema de gotejamento subterrâneo — técnica inovadora que duplicou a produtividade nos últimos anos sem ampliar a área plantada.

A preocupação com os recursos hídricos também é central. A família adquiriu terrenos no entorno da propriedade para proteger as nascentes que abastecem o riacho Mulato. “Essas áreas são mantidas fechadas, sem qualquer tipo de exploração. Se a gente perde a nascente, perde tudo”, afirma Igor. 

O valor da cachaça na transformação de uma cidade

A sustentabilidade da cachaça Lira vai além do meio ambiente — ela também é cultural e social. Além da mata, do riacho e dos canais, a roda d’água usada inicialmente para mover o engenho quando não existia eletricidade, ainda é mantida como patrimônio histórico. E o primeiro engenho, chegado à fazenda da Escócia, após uma longa jornada que envolveu o transporte marítimo e fluvial, hoje aposentado, são exemplos que permitem que a tradição continue viva, nem que seja contada em histórias.

O alambique também impulsionou a economia de Amarante, cidade com cerca de 20 mil habitantes. O casarão centenário da família foi restaurado e se tornou hospedagem para turistas. Ao lado, o restaurante e o parque com trilhas, tirolesa e arvorismo oferecem uma imersão no cotidiano do sítio e da natureza do sertão.

“Quem se hospeda aqui escuta o trator às sete da manhã, vê a fermentação acontecendo, acompanha a destilação. Não é cenário. É vida real”,

diz o produtor da cachaça Lira.

A estrutura cresceu de forma orgânica: os visitantes, que vinham apenas para degustar a cachaça, passaram a pedir petiscos. Assim nasceu o restaurante. Com o aumento da procura, veio a necessidade de hospedagem. Primeiro, o casarão do sítio foi reformado; depois, novos quartos foram construídos — 13 deles em contêineres reaproveitados. Hoje, a pousada conta com 20 acomodações.

“Todas as decisões no sítio são pensadas para gerar o menor impacto possível. Atualmente, temos cerca de 30 colaboradores e a cidade cresceu com a cachaça Lira. Surgiram novos restaurantes, museus, e até o ego do Amarantino mudou”,

diz Igor, com orgulho.

Fermentação natural e envelhecimento de cachaça consciente

O processo de produção da cachaça Lira é baseado na fermentação natural, utilizando leveduras selvagens presentes no próprio ambiente do sítio. Após a moagem, o caldo é centrifugado, decantado e diluído. O próprio caldo é usado para multiplicar as leveduras, sem outros aditivos no pé-de-cuba, como milho e farelo de arroz. Durante essa fase, o mosto é aerado com o uso de compressores, o que favorece a respiração aeróbica das leveduras e acelera sua reprodução. 

Com o pé-de-cuba pronto, o restante do caldo é fermentado em ciclos que duram cerca de 24 horas. A destilação é feita em alambique de cobre, preservando a tradição local.

Desde o início, a Lira optou por não produzir cachaça branca (sem passagem em madeira). Toda a cachaça produzida (cerca de 60 mil litros por ano) passa por envelhecimento em castanheira: primeiro é armazenada em tonéis de 10 mil litros, depois transferida para barris de 700 litros, por um período total de pelo menos dois anos. 

Crescimento com propósito na cachaça Lira

O futuro da cachaça Lira caminha com os pés firmes no solo e os olhos voltados para novos horizontes. Com produção considerada pequena, a cachaça Lira é pouco vista fora do Piauí. “A demanda é maior do que conseguimos atender”, diz Igor. O próximo objetivo é ampliar a produção para alcançar os 120 mil litros por ano, sem abrir mão dos princípios que sustentam a marca. 

“Queremos crescer com responsabilidade, sem sacrificar o coqueiral centenário da propriedade ou desmatar. Estamos avaliando inclusive a possibilidade de terceirizar parte da produção de cana, mas o espírito da cachaça Lira, esse não muda”.

Igor Lira

Paralelamente, para ampliar a presença em novos mercados, a empresa está em processo de certificação da cachaça como produto orgânico, garantindo rastreabilidade e credibilidade fora do estado. “Aqui, todos conhecem nossa história, mas fora, a palavra precisa virar selo”.

garrafas cachaca lira O que a cachaça Lira, no sertão do Piauí, pode ensinar sobre sustentabilidade?

A internacionalização também está no horizonte. Igor tem dialogado com o governo estadual para incluir a cachaça Lira nos roteiros turísticos ecológicos entre o Delta do Rio Parnaíba e a Serra da Capivara, que abriga sítios arqueológicos considerados como o berço do homem americano.

“A ideia é que o visitante viva uma experiência autêntica em um alambique sustentável, entre dois dos maiores atrativos turísticos do Piauí”.

O legado da cachaça Lira 

Ao final do dia, quando o barulho dos visitantes no alambique dá lugar ao canto dos pássaros e o riacho Mulato segue seu curso, Igor se diz realizado. Ali, onde tudo começou, ele observa os frutos de uma escolha que mudou não só sua vida, mas também a paisagem e o futuro de uma tradição que estava prestes a acabar.

“Se quiser chamar o que eu faço de trabalho, pode chamar. Mas eu chamo de paixão. Cresci aqui, ouvindo as histórias do meu avô, correndo no canavial. Não joguei meu diploma fora. Só escutei meu coração”.

Igor Lira

A cachaça Lira é prova de que o futuro pode se manter aliado ao passado, seja em um sistema de irrigação centenário; crescer entre matas preservadas e florescer em uma pousada de contêineres reutilizados. No sertão piauiense, a história da cachaça Lira ensina que sustentabilidade, quando enraizada na terra e nas pessoas, é capaz de transformar tudo ao seu redor.

Ana Paula Palazi

Ana Paula Palazi é jornalista pela PUC-Campinas, mestra em Divulgação Científica e Cultural e especialista em Jornalismo Científico pela Unicamp. Atuou por dez anos como produtora e repórter de telejornal. Foi repórter de rede em emissora afiliada da Record TV, de 2016 a 2020. É produtora de conteúdo, atuando em trabalhos sobre cachaça, inovação e empreendedorismo.