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Santo Grau Pedro Ximenes: sua evolução ao longo da última década

Descubra a evolução da cachaça Santo Grau Pedro Ximenes nos últimos 10 anos, com variações entre as versões adoçada e não adoçada. Qual será sua favorita?
Santo Grau Pedro Ximenes - cachaça adoçada

Descubra a evolução da cachaça Santo Grau Pedro Ximenes nos últimos 10 anos, com variações entre as versões adoçada e não adoçada. Qual será sua favorita?

Assim como os vinhos, cuja qualidade e perfil variam de acordo com a safra, a cachaça também pode apresentar nuances significativas em função do tempo, do ambiente e, principalmente, do barril onde é envelhecida. No caso dos vinhos, uma safra ruim pode reduzir o valor de mercado, enquanto uma safra excepcional pode elevá-lo consideravelmente. O conceito de “safra” na cachaça, embora menos discutido, segue uma lógica semelhante. Um exemplo claro desse fenômeno está na cachaça Santo Grau PX.

A legislação sobre Cachaças Adoçadas

Antes de entender as mudanças que ocorreram com a Santo Grau Pedro Ximenes ao longo dos anos, é importante saber o que diz a legislação sobre cachaças adoçadas. No Brasil, é permitido adicionar açúcar ao destilado e ainda chamá-lo de cachaça, desde que essa quantidade não ultrapasse 6g/L. Quando a adição de açúcar supera esse valor, a bebida passa a ser classificada como cachaça adoçada, cuja quantidade de açúcar pode variar entre 6g/L e 30g/L.

  • Aguardente de cana ou Cachaça adoçada: 6g/L a 30g/L de açúcar.
  • Aguardente de cana ou Cachaça: até 6g/L de açúcar.

Cachaça envelhecida em barris ex-Jerez

Quando a Santo Grau Pedro Ximenes foi lançada em 2015, tive a oportunidade de visitar Itirapuã com um grupo de especialistas e acompanhar de perto a criação de uma das primeiras cachaças envelhecidas no sistema de soleira em barris ex-Jerez, que anteriormente armazenaram o famoso vinho fortificado espanhol.

Esse lançamento também é fruto da parceria entre a Natique e a Osborne, em uma operação que resultou, em 2013, na aquisição de 51% da empresa brasileira pela tradicional companhia espanhola. Além de introduzir o portfólio de spirits da Osborne, como brandies e gin, no Brasil, a parceria trouxe em 2014, a importação de barris que envelheceram vinhos Jerez Pedro Ximenez e Oloroso, trazendo uma novidade para o mercado de cachaça – até então, pouco se ouvia sobre a influência dessas madeiras impregnadas com outras bebidas. Atualmente, já é uma realidade cachaças ex-Bourbon, ex-vinho do porto, ex-Jerez e até ex-Absinto.

visita itirapua Santo Grau Pedro Ximenes: sua evolução ao longo da última década

O envelhecimento em barris de Jerez: O caso da Santo Grau PX

Na sua origem, a Santo Grau Pedro Ximenes passa por um processo de envelhecimento em 5 tonéis de 500 litros de carvalho americano que anteriormente contiveram vinho Jerez Pedro Ximenez, um dos vinhos mais doces e complexos da categoria.

O método utilizado é o sistema de soleira, um processo dinâmico em que o líquido é transferido gradualmente entre barris, misturando cachaças de diferentes idades para criar um padrão sensorial. A primeira fração foi engarrafada com 7 meses e meio. A cada 120 dias são sacadas novas frações para engarrafamento e os barris da camada superior são repostos com cachaça nova. Durante o envelhecimento, a borra seca e cristalizada formada pelo vinho Jerez presente nas paredes internas dos barris adoça naturalmente a cachaça paulista.

No caso do lote de 2015, essa borra era particularmente intensa, resultando em uma cachaça com mais 9g/L de açúcar, classificada tecnicamente como uma cachaça adoçada.

Maurilio Cristofani
Blend é feito pelo mestre de adega Maurílio Cristofoni.

A transformação da Santo Grau Pedro Ximenes

Contudo, com o desgaste natural dos barris ao longo dos anos, a quantidade de borra nas paredes internas começou a diminuir. Esse processo resultou em uma mudança perceptível no perfil da Santo Grau PX. Desde a safra de 2023, a cachaça deixou de apresentar aquele dulçor marcante, típico do Jerez, e passou a ser classificada apenas como cachaça, sem o título de adoçada.

Outro diferencial no processo está na adição de novos tonéis ao sistema de soleira. No início de 2023, a destilaria recebeu mais barris de carvalho americano ex-Jerez da Osborne, desta vez com 600 litros — um pouco maiores que os importados no final de 2014. Os lotes mais recentes engarrafados são, portanto, resultado de uma blendagem entre os tonéis da primeira importação e esses novos.

Soleira da Santo Grau PX
Primeira configuração da soleira (2015) com 5 barris de 500 litros de carvalho americano ex-Jerez PX

Comparando o lote de 2015 com o de 2023, observa-se uma transformação no perfil sensorial. Enquanto o lote de 2015 era dominado por notas adocicadas, como frutas secas e mel, a safra de 2023 trouxe uma cachaça com características mais secas e especiadas. O aroma agora é mais fechado, com notas de madeira discreta, folha de louro e castanhas. No paladar, a presença da madeira é mais evidente, acompanhada por toques de especiarias e um frescor mais acentuado. O final é curto a médio, com uma sutil presença de uva-passa, mas sem o dulçor característico do lote mais antigo.

Essa evolução reflete como o processo de envelhecimento em barris pode alterar profundamente o perfil da cachaça ao longo do tempo, oferecendo uma experiência única para cada safra.

O Mapa da Cachaça tem como missão registrar e destacar a evolução contínua da produção de cachaça no Brasil, trazendo um retrato de cada safra e suas nuances. Assim como ocorre com o vinho, as variações de uma safra para outra são, muitas vezes, intencionais, refletindo o dinamismo e a busca constante dos produtores por aperfeiçoamento.

A Santo Grau Pedro Ximenes é um exemplo claro dessa evolução, onde a transformação dos barris e as mudanças no processo de envelhecimento trouxeram novas características ao destilado ao longo dos anos.

santo grau px felipe Santo Grau Pedro Ximenes: sua evolução ao longo da última década

Na minha avaliação, a versão 2015, em que as influências do Jerez são mais evidentes, especialmente o figo intenso que aparece no nariz, é a que prefiro para degustar pura na taça. No entanto, ao preparar um rabo de galo, a versão mais seca (2023) me agradou mais. Para o meu paladar, a cachaça (60 mL de Santo Grau PX) se mostrou mais equilibrada na combinação com vermute (15 mL de Carpano Clássico), bitter (15 mL de Cynar) e um toque de limão-taiti (twist para finalizar). Essa é a verdadeira versatilidade da cachaça!

Ainda é possível encontrar no mercado exemplares da Santo Grau Pedro Ximenes em suas duas versões: a adoçada, com o dulçor natural do Jerez Pedro Ximenez, e a versão atual, mais seca e condimentada. Agora, o desafio está lançado: qual Santo Grau PX é a sua favorita?

Produtor deste artigo

natique santo grau itirapuã
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Santo Grau

Coronel Xavier Chaves, MG
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O autor

Autor · Comunidade Mapa da Cachaça
Em 2010, Felipe Jannuzzi fundou o Mapa da Cachaça, premiado projeto cultural com reconhecimento internacional e a principal referência sobre cachaça no mundo. Felipe é um dos sócios fundadores da Espíritos Brasileiros, empresa pioneira no mercado de produção de gin no Brasil, responsável pelo premiado Virga, primeiro gin artesanal brasileiro e o único no mundo que leva doses de cachaça na receita. Desde 2021, é um dos sócios da BR-ME, empresa especializada em produtos brasileiros, como vinhos, cafés, azeites, queijos e chocolates.
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