Virga é mais do que um gim; é a materialização de um sonho de criar algo único e genuinamente brasileiro. Ele é o primeiro gim artesanal do Brasil e o único no mundo a incluir cachaça de alambique em sua composição. Além de destacar botânicos nacionais, nossa missão sempre foi valorizar a tradição de destilar cana-de-açúcar em alambiques de cobre, algo que fazemos há mais de 450 anos.
Mas desde o início nos perguntamos: como deveria ser um gim verdadeiramente nacional?
Tudo começou em 2016, quando recebi um convite inesperado do meu amigo holandês Joscha Niemann. Ele tinha a ideia de produzir um gim artesanal, de alta qualidade, mas que fosse acessível e carregasse uma identidade brasileira autêntica. Não queríamos criar uma cópia dos gins importados que já estavam nas prateleiras; o objetivo era algo original, que traduzisse nossa cultura e nossa riqueza natural.
Coincidentemente, naquele mesmo ano, eu estava me preparando para uma viagem ao Bar Convent Berlin, uma das maiores feiras de destilados do mundo. Minha missão principal era falar sobre cachaça, mas aproveitei para explorar o universo dos gins. Lá, experimentei destilados incríveis, cada um com características únicas, refletindo os ingredientes e as histórias locais. Foi uma experiência transformadora.
Percebi que podíamos fazer algo semelhante no Brasil. Assim como a cachaça é um símbolo da nossa cultura, o gim poderia se tornar uma nova forma de contar a história do nosso país, valorizando os nossos ingredientes e a criatividade dos nossos produtores.
Voltei da Europa com a mala cheia de garrafas de gim e uma vontade enorme de colaborar com o projeto do Virga.
O primeiro desafio foi definir o estilo do nosso gim. Depois de provar diversas marcas durante minhas viagens, decidimos que não seguiríamos o estilo London Dry, que é o mais popular e tem forte influência inglesa. Apesar de admirar esse tipo de gim, queríamos criar algo contemporâneo, com uma identidade própria, que fugisse do óbvio.
Outro ponto crucial foi a escolha da base alcoólica. Enquanto a maioria dos gins utiliza álcool neutro de cereais, mais acessível na Europa, optamos pelo álcool neutro de cana-de-açúcar. Essa decisão foi motivada não apenas pela disponibilidade no Brasil, mas também pelo desejo de conectar o Virga à nossa herança histórica. Afinal, o Brasil destila cana desde o século XVI, e o álcool de cana traz nuances sensoriais únicas que enriquecem o perfil do gim.
Uma das decisões mais importantes foi destilar o Virga exclusivamente em alambiques de cobre, os mesmos utilizados na produção de cachaça. Essa escolha não foi apenas técnica, mas também simbólica.



O cobre tem a capacidade de melhorar o destilado, tirando aromas de enxofre comuns em destilados neutros produzidos em colunas de inox. Mas, além disso, o uso de alambiques de cobre é uma forma de homenagear a tradição brasileira. Estima-se que existam mais de 40 mil alambiques de cachaça espalhados pelo Brasil, muitos dos quais têm potencial para produzir outros destilados, como rum, uísque, grapa e, claro, gim.
Ao utilizar esses alambiques, queremos mostrar que o Brasil pode ser uma potência não apenas na cachaça, mas também em outras bebidas artesanais. Essa visão de diversificação é algo que considero essencial para o futuro dos nossos destilados.
Com a base alcoólica definida, passamos para a etapa de escolher os botânicos que dariam personalidade ao Virga. Todo gim precisa ter zimbro como ingrediente principal, mas, como estávamos no Brasil, tínhamos uma paleta vasta e diversa de ingredientes para explorar.
Queríamos que o Virga representasse o Brasil, mas sem apelar para estereótipos ou exotismos superficiais. Não queríamos um gim que fosse apenas “exótico” para turistas, mas um produto que os próprios brasileiros pudessem se orgulhar.



Foi aí que encontramos o pacová (Renealmia exaltata), uma planta da Mata Atlântica da família do gengibre. Sensorialmente, o pacová lembra cardamomo, gengibre, menta, pimenta-do-reino e notas amadeiradas. Uma verdadeira joia botânica, com um perfil aromático complexo e fascinante. Quem nos ajudou a descobrir o pacová foi Helton Muniz, que mantém uma coleção de mais de 1.300 espécies botânicas em sua fazenda.
Além do pacová, incorporamos outros ingredientes que trouxessem equilíbrio e sofisticação ao gim. O resultado foi uma combinação única de botânicos que dá ao Virga uma identidade marcante e contemporânea.
Um dos diferenciais do Virga é a inclusão de uma pequena porcentagem de cachaça de alambique no blend final. Enquanto a maioria dos gins utiliza apenas álcool neutro, decidimos trazer a cachaça para enriquecer o perfil sensorial do gim, adicionando complexidade e personalidade.


Essa escolha também é uma homenagem à nossa tradição. A cachaça é o destilado nacional por excelência, e incluir um pouco dela no Virga foi uma forma de conectar essas duas histórias: a do gim, que tem origens europeias, e a da cachaça, profundamente enraizada na cultura brasileira.
Dessa forma, Virga ganha mais uma camada de sabor trazida pela cachaça armazenada em tonéis de jequitibá-rosa, ganhando o adocicado vegetal da cana e o abaunilhado da madeira brasileira.
Toda a produção do Virga acontece em Pirassununga, no interior de São Paulo, em parceria com Gabriel Foltran, proprietário da cachaça Engenho Pequeno. Gabriel, que assina como mestre alambiqueiro, traz sua expertise na destilação artesanal para garantir a qualidade e consistência do nosso gim.
Para o design do rótulo e a comunicação visual do Virga, convidei meu amigo de infância João Lucas, um talentoso designer gráfico. Sua criatividade deu ao Virga uma identidade visual que reflete a sofisticação e a essência artesanal do produto.

Em 2019, tivemos o orgulho de receber o prêmio do World Gin Awards na categoria de gim contemporâneo. Esse reconhecimento foi a confirmação de que estávamos no caminho certo, criando algo que não apenas representa o Brasil, mas que também é capaz de competir com os melhores gins do mundo.
Virga é mais do que um gim; ele representa uma visão para o futuro dos destilados artesanais no Brasil. Nosso país tem uma riqueza incomparável de recursos naturais, técnicas tradicionais e talentos criativos. Com alambiques espalhados por todo o território e uma biodiversidade única, o potencial para inovar e criar destilados excepcionais é imenso.
Com o Virga, buscamos não apenas oferecer um produto de qualidade, mas também inspirar outros produtores a explorarem novas possibilidades e a contarem suas próprias histórias através de suas bebidas.
Cada garrafa de Virga carrega não apenas o sabor do Brasil, mas também a paixão e o esforço de uma equipe dedicada a criar algo realmente especial. Espero que, ao provar o Virga, você sinta essa conexão e se orgulhe do que podemos alcançar juntos.
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Em 2010, Felipe Jannuzzi fundou o Mapa da Cachaça, premiado projeto cultural com reconhecimento internacional e a principal referência sobre cachaça no mundo. Felipe é um dos sócios fundadores da Espíritos Brasileiros, empresa pioneira no mercado de produção de gin no Brasil, responsável pelo premiado Virga, primeiro gin artesanal brasileiro e o único no mundo que leva doses de cachaça na receita. Desde 2021, é um dos sócios da BR-ME, empresa especializada em produtos brasileiros, como vinhos, cafés, azeites, queijos e chocolates.