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História

A história da cachaça de Morretes: tradição, imigração italiana e resistência no litoral do Paraná

A cachaça de Morretes representa a história e o orgulho do Paraná. Com Indicação Geográfica reconhecida, marcas históricas e dez produtores ativos registrados no MAPA, a cidade reafirma seu papel como o berço da cachaça paranaense.
Morretes no Paraná

A cachaça de Morretes combina história, cultura e turismo. Com Indicação Geográfica reconhecida e dez produtores ativos registrados no MAPA, a cidade reafirma seu papel como berço da cachaça paranaense e símbolo do patrimônio cultural brasileiro.

Localizada entre o mar e a Serra do Marumbi, Morretes é um refúgio de história, natureza e saberes transmitidos por gerações. O clima úmido, o solo fértil de massapé e a abundância de rios que descem da serra criaram condições ideais para o cultivo da cana-de-açúcar e o nascimento de uma das tradições mais antigas do litoral paranaense: a produção de cachaça.

canavial em morretes no paraná

A cidade é cercada pela Mata Atlântica, reconhecida em 1991 pela UNESCO como Reserva da Biosfera, e desde o período colonial consolidou uma cultura produtiva que unia agricultura, engenhos e trocas comerciais.

No século XIX, a importância da cana era tamanha que Dom Pedro II determinou a construção do Engenho Central de Morretes, inaugurado em 1878 — uma das primeiras experiências de centralização industrial no Brasil, reunindo moagem, fermentação e destilação sob o mesmo teto. Em 1914, o complexo foi vendido à família Malucelli e, após décadas de operação, encerrou suas atividades na década de 1940, tornando-se hoje um marco histórico do ciclo da cana e da aguardente no Paraná.

As origens da cachaça em Morretes

Há indícios de que a cachaça começou a ser produzida em Morretes ainda no século XVIII, quando os primeiros engenhos rústicos surgiram no litoral do Paraná. A produção artesanal se expandiu com o tempo e, já no século XIX, a região se destacava pela fabricação de açúcar, melado e aguardente, aproveitando a fertilidade do solo e a força dos rios que cortam o vale do Nhundiaquara.

Com o fim da escravidão e a chegada de imigrantes italianos e portugueses, Morretes viveu um novo ciclo de prosperidade. Os colonos da Colônia Nova Itália trouxeram conhecimentos técnicos sobre fermentação, metalurgia e destilação em cobre, elevando o padrão de qualidade das aguardentes locais.

Decepcionados com os baixos preços pagos pelos engenhos centrais, passaram a produzir a própria cachaça, estabelecendo dezenas de alambiques familiares ao longo da Estrada do Anhaia e do rio Nhundiaquara.

Ainda hoje, é possível encontrar vestígios desse período, como rodas d’água, tonéis de madeira de grande capacidade e ruínas de alambiques de pedra e barro — testemunhos do vigor produtivo que marcou a cidade.

Em 1842, há registros de que a cachaça morretiana era exportada para Argentina, Uruguai e Chile, sinal de sua reputação e alcance internacional. Com o tempo, surgiram marcas que marcaram época, como Predilecta e JD, conhecidas no mercado nacional, além de rótulos tradicionais como Esputinica, Chupeta, Mancinha e Comendador, produzidos por famílias como Gnatta, Dalcuche, Boyer e Alpendre.
Esses nomes consolidaram o patrimônio simbólico da cachaça de Morretes, associando criatividade e produção de cachaça à paisagem do Marumbi.

O auge e o declínio dos engenhos

No início do século XX, Morretes consolidou-se como polo produtor de cachaça e derivados da cana-de-açúcar, com forte integração comercial favorecida pela Estrada da Graciosa e pela Estrada de Ferro Curitiba–Paranaguá. Essas rotas ligavam o litoral à capital, ampliando o escoamento da produção e impulsionando a fama da aguardente morretiana em todo o Sul do país.

A partir da segunda metade do século, entretanto, o cenário mudou. A inauguração da rodovia BR-277, em 1969, ligando Curitiba a Paranaguá, deslocou o eixo comercial e reduziu o fluxo de compradores e distribuidores que antes passavam pelo centro de Morretes. O comércio local perdeu força, e o escoamento da produção artesanal foi severamente prejudicado.

A crise se agravou com o avanço da industrialização e a criação do Programa Nacional do Álcool (Proálcool), na década de 1970, que incentivou a destinação da cana para grandes usinas de etanol. Enquanto as indústrias recebiam subsídios e apoio governamental, os pequenos alambiques enfrentavam altos custos, escassez de mão de obra e carga tributária elevada.

Além disso, muitos produtores sofreram com a redução da disponibilidade de água limpa — essencial à fermentação — e migraram para outras culturas, como maracujá e gengibre, mais viáveis economicamente. O resultado foi o fechamento de dezenas de engenhos familiares e o enfraquecimento de marcas históricas, marcando o fim de um ciclo produtivo.

Retomada e turismo: o renascimento da cachaça morretiana

O fechamento do Engenho Central, na década de 1940, marcou um período de retração que só começou a ser revertido nos anos 1980, com a redescoberta do potencial turístico da cidade.

A cachaça passou a ser valorizada não apenas como produto agrícola, mas como símbolo cultural e elemento da identidade local. A partir da década de 1990, especialmente com o fortalecimento da gastronomia regional — liderada pelo barreado e pelos roteiros turísticos pela Serra da Graciosa —, a bebida voltou a ocupar espaço de destaque.

Alguns engenhos resistiram, como o Engenho do Diquinho, fundado em 1948, que preservou o modo artesanal de produção, mesmo que ainda de maneira informal. Nas últimas décadas, um novo movimento de retomada vem fortalecendo o setor. Produtores locais têm modernizado seus alambiques, adotado práticas de sustentabilidade e participado de programas de capacitação e regularização junto ao Ministério da Agricultura.

A cana havaianinha, típica da região, continua sendo a base da cachaça de Morretes. A fermentação é conduzida com leveduras naturais ou selecionadas, e o destilado é envelhecido em barris de carvalho europeu e americano, que conferem notas de baunilha, mel, frutas secas e especiarias. Essas características sensoriais distinguem as cachaças morretianas no cenário nacional, especialmente as versões premium e extra-premium.

Hoje, visitar Morretes é mergulhar em um território onde turismo, memória e tecnologia se cruzam. Diversos alambiques abrem suas portas ao público, oferecendo experiências que unem degustação, história e contato direto com o processo produtivo. A cachaça tornou-se patrimônio imaterial do município, um emblema da resistência cultural e do saber artesanal transmitido entre gerações.

Esse movimento culminou no reconhecimento da Indicação Geográfica (IG) “Cachaça de Morretes”, concedida em 2023 pelo INPI, coroando séculos de dedicação à destilação de alambique.

Cachaça, patrimônio e futuro

De acordo com o Anuário da Cachaça 2025, o Paraná está entre os estados que mais se destacam na retomada da produção nacional.

A região Sul registrou um aumento de 300% no volume produzido, alcançando 58,2 milhões de litros, e concentra cerca de 14% dos estabelecimentos formalizados do país. Esse crescimento é sustentado por políticas de regularização e pelo fortalecimento das cadeias produtivas regionais — das quais Morretes é parte fundamental.

Segundo dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Sipeagro – Vinhos e Bebidas, outubro de 2025), o município conta atualmente com 10 estabelecimentos ativos e registrados na categoria de bebidas alcoólicas, incluindo produtores, padronizadores e envasilhadores.

Entre eles estão: Agroecológica Marumbi Ltda, Agropoletto Com. e Repres. de Produtos Agropecuários Ltda – ME, Alambique Dom Henrique Ltda – ME, Destilaria Atlantine Ltda, Engenho do Colono, Eziquiel Petenusso, Meliponas Indústria e Comércio de Derivados do Mel Ltda, R. Obsuth, Sítios Brigitte Ltda e Willian Sellmer Lopes.

destilaria da cachaça Porto Morretes e Novo Fogo

Esses produtores representam a continuidade de uma tradição que começou nos engenhos coloniais do século XVIII e se transformou em um ecossistema de turismo e cultura. Hoje, Morretes abriga cachaças premiadas, roteiros de visitação, experiências de harmonização e projetos educativos que unem sustentabilidade e identidade territorial.

A cachaça morretiana, portanto, não pertence apenas ao passado. Ela segue viva — com o trabalho dos produtores, — reafirmando o papel da cidade como berço da cachaça paranaense e um dos símbolos mais autênticos da cultura brasileira.

Referências:

Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) – SIPEAGRO – Vinhos e Bebidas, dados de 13/10/2025.

Anuário da Cachaça 2025 – Ano de referência 2024.

Memória Histórica da Cidade de Paranaguá e seu Município – Antônio Vieira dos Santos (1850).

Corografia do Paraná – Sebastião Paraná (1899).

A cachaça morretiana e seus usos turísticos na contemporaneidade, Etienne Desireé Meira (Cadernos do CEOM, 2013).

Registros históricos da Associação dos Produtores de Cachaça de Morretes (Apocam) e do INPI, 2023.

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