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Cachaça Famigerada: mistura de duas terras, uma essência brasileira

Do Norte de Minas Gerais à modernidade da capital paulista, a cachaça Famigerada carrega duas identidades, unindo a tradição e ancestralidade mineira com o espírito empreendedor e inovador de São Paulo
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Do Norte de Minas Gerais à modernidade da capital paulista, a cachaça Famigerada carrega duas identidades, unindo a tradição e ancestralidade mineira com o espírito empreendedor e inovador de São Paulo

A cachaça Famigerada carrega em si o que há de mais profundo na história de muitos brasileiros. Ela é uma migrante. Nascida no norte de Minas Gerais, no pequeno município de Mato Verde, percorre estradas da Serra Geral até São Paulo, onde fincou raízes. Uma mineira de nascença, mas registrada, envasada e distribuída como paulista. Essa dualidade de identidades – um produto que une a tradição mineira e o espírito empreendedor de São Paulo – se reflete na história de seu criador.

Haroldo Narciso da cachaça Famigerada

A Famigerada nasceu em 2017 pelas mãos de Haroldo Narciso. O idealizador e master blender da marca vem de uma família de doze irmãos. Criado em um ambiente onde a cachaça era um elo de união familiar nos almoços de domingo. Haroldo recorda que sua mãe, Dona Geralda, trazia cachaça das viagens a Minas Gerais, fazendo questão de que os filhos, criados em São Paulo, conhecessem o sabor da terra natal.

“Eu aprendi a cheirar e saborear cachaça pelas mãos da minha mãe”,

relembra Haroldo Narciso, produtor da cachaça Famigerada.

A conexão de Haroldo com a cachaça representou um símbolo de pertencimento à família, um rito de passagem da infância para a juventude, que mais tarde se transformaria em paixão e profissão. Parte dessa trajetória é narrada no documentário “Famigerada – o filme”, dirigido por Tiago Soban, lançado no final de 2024, que reúne as memórias do produtor, desde a busca por uma muda de cana Java no norte de Minas Gerais até o reencontro com suas raízes.

Famigerada: da televisão à arte da cachaça

Formado em Desenho Industrial, Haroldo construiu uma carreira em editoras, agências de propaganda e na televisão, trabalhando como editor de videografia em redes como TV Bandeirantes, RecordTV e SBT. Atuou em jornais importantes, como o Jornal da Band, e programas que marcaram toda uma geração, como o Domingo Legal e o Programa do Gugu. Embora bem-sucedido, Haroldo sentia que faltava algo. A rotina frenética do meio audiovisual deu lugar a um anseio, e ele percebeu que queria se dedicar a algo que o conectasse mais profundamente com suas raízes e com a família.

Em 2016, o produtor da Famigerada decidiu deixar a televisão e transformar a paixão pela cachaça em profissão. Sem abandonar a experiência com arte visual, ele passou a pensar na cachaça como uma nova forma de expressão, uma “arte em forma de bebida”. Haroldo convenceu os irmãos a plantar cana no sítio da família, em Mato Verde, e lançou a primeira cachaça em 2017.

Na simplicidade do campo, a Famigerada ganhou forma, com o apoio de dois irmãos de Haroldo, Antônio Narciso e Ailton Narciso, e o trabalho de um antigo conhecido de infância, que se tornou o mestre alambiqueiro da marca, Geraldo Neri, conhecido como “Teguinha”. Reencontrar o “Teguinha” foi essencial para realizar o sonho de Haroldo. Eles se conheceram quando Haroldo tinha 11 anos, em uma visita ao extinto engenho de Licério Camargo,  famoso na região de Mato Verde desde a década de 1940, onde o mestre alambiqueiro era ainda um ajudante. Anos depois, Haroldo o convidou para a Famigerada. Com incentivo, Teguinha se especializou e, hoje, atua preservando o trabalho artesanal e o legado de práticas tradicionais da produção de cachaça.

O processo de produção da cachaça Famigerada

A Famigerada é uma cachaça de alambique que busca manter as tradições desse processo produtivo, e tem investido em pequenos lotes e produtos exclusivos como o licor de Jenipapo. Haroldo optou por priorizar o uso de fermento caipira e variedades de cana-de-açúcar locais, cultivadas no próprio terreno.

“Nosso primeiro slogan para a Famigerada foi ‘cachaça de terroir’, destacando o papel da terra, do clima e das pessoas, quando ainda pouco se falava nesse conceito para a cachaça”,

comenta Haroldo.

Para o produtor, o uso do fermento caipira preserva o sabor autêntico da cachaça, enriquecendo as notas características de sua origem. “As melhores cachaças que tomei foram feitas de forma tradicional, sem muita interferência” explica Haroldo. Ele acredita que esse processo, embora mais trabalhoso, oferece uma experiência genuína ao apreciador.

A produção segue o ciclo das safras de cana, com cuidados em cada etapa, da colheita ao engarrafamento. Após destilada no alambique em Mato Verde, a cachaça é finalizada em São Paulo. Geraldo Neri conduz o processo no engenho e Haroldo supervisiona a qualidade de cada lote, desenvolvendo novos produtos. “Ter ao lado alguém que conhece o alambique e a cultura local foi essencial,” destaca Haroldo.

A linha de produtos Famigerada: bruta, mansa e licores

A linha de produtos começa com a Famigerada Bruta, uma cachaça branca, sem passagem em madeira, que é a essência da marca. Outro rótulo é a Famigerada Mansa, uma cachaça envelhecida em tonéis de jequitibá rosa (Cariniana legalis) e jequitibá branco (Cariniana estrellensis), madeiras brasileiras que Haroldo escolheu para agregar suavidade e novas camadas de cor e sabor à bebida. “O jequitibá rosa demanda um cuidado especial na hora da filtragem, mas traz uma personalidade única à cachaça”, comenta Haroldo.

A Famigerada também produz o Jeni Liquor, um licor de jenipapo, fruto encontrado na Amazônia, Mata Atlântica e em áreas de Cerrado, comum em culturas indígenas. Esse licor, que carrega um traço da ancestralidade de Haroldo, rapidamente se tornou sucesso, aparecendo em coquetéis exclusivos de renomados bares e restaurantes no Brasil, recebendo elogios de especialistas internacionais.

Parte da venda do licor é destinada a cursos de formação de bartenders na comunidade do Paraisópolis, em São Paulo. Além dessas opções, a Famigerada está desenvolvendo a linha “Raízes do Brasil”, com cachaças envelhecidas em madeiras nativas. A primeira da lista foi maturada em barris de bálsamo.

dorna famigerada Cachaça Famigerada: mistura de duas terras, uma essência brasileira

A história do nome da cachaça Famigerada

O nome da cachaça Famigerada foi inspirado no conto “Famigerado” de João Guimarães Rosa, um dos escritores favoritos de Haroldo. Assim como o autor mineiro articula de modo sutil a várias dimensões da palavra famigerado, para Haroldo, a marca carrega um simbolismo da desconstrução de significados, que traduz o espírito moderno da cachaça: algo célebre e com uma identidade múltipla.

Dona Geralda, mãe de Haroldo da cachaça Famigerada

No conto, o jagunço Damázio tem dificuldade em pronunciar a palavra “famigerado”, a qual não sabe ao certo se é elogio ou ofensa. Além do simbolismo literário, o nome Famigerada carrega também uma homenagem à mãe de Haroldo, nessa brincadeira sonora com as palavras. “A Famigerada é a cachaça da família da Dona Geralda”, comenta. E a matriarca não só inspirou o projeto como é uma presença constante na identidade da marca.

O G estilizado nos rótulos, explica o produtor, é uma representação materna. “É a minha mãe, que me ensinou o respeito e o amor pela cachaça”, conta Haroldo. Para ele, cada etapa da produção é quase um tributo à memória da mãe, que o produtor busca honrar em qualidade com a mesma dedicação que Dona Geralda teve para com os filhos.

Visão de futuro para a cachaça Famigerada

Para Haroldo, o futuro da Famigerada está em novos produtos que explorem o máximo a biodiversidade e os sabores do Brasil. Ele planeja ampliar a linha “Raízes do Brasil” com edições limitadas de cachaças envelhecidas em madeiras como imburana, ipê e castanheira.

“Eu passei a vida toda querendo fazer belezuras e bonitezas. O ponto máximo de satisfação para mim é ter a capacidade de cada vez mais criar produtos novos com a Famigerada”,

diz Haroldo.
Haroldo Narciso, cachaça Famigerada

A Famigerada é, assim, um tributo à arte e à ancestralidade, unindo passado e presente. Cada garrafa conta a história de quem saiu de Minas e fez sua vida em São Paulo, simbolizando esse entrelaçamento das regiões e o melhor dos dois estados.

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Perguntas frequentes

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Por onde começar a conhecer as cachaças da Famigerada?

Para conhecer a cachaça branca que é a essência da marca, comece pela Famigerada Bruta, destilada em alambique de cobre e sem passagem por madeira. O passo seguinte é a Famigerada Mansa, envelhecida em dornas de jequitibá-rosa e jequitibá-branco, que acrescenta cor e camadas de sabor sem perder o frescor da casa.

Que cachaças da Famigerada nasceram de parcerias?

Duas se destacam. A Famigerada Imburana envelhece num barril de imburana que antes maturou a Blackout, uma Russian Imperial Stout da cervejaria Holly Water, de São Caetano do Sul. Já a Villa Lobos House Selection é um blend criado sob medida para o Hotel Villa Lobos Spa Romantik, em Extrema (MG).

Que coquetéis levam o licor de jenipapo da Famigerada?

O Jeni Liquor, licor de jenipapo da casa, é base de coquetéis como o FamiJeni e o Rabo de Galo com cachaça Famigerada e licor de jenipapo. Quem quiser preparar o próprio licor encontra a receita caseira de licor de jenipapo com cachaça.

Quais cachaças da Famigerada envelhecem em madeiras nativas?

É o caminho da linha Raízes do Brasil, que começou com a Famigerada Bálsamo, maturada um ano em bálsamo, madeira tradicional do norte de Minas. A Famigerada Imburana, lançada em novembro de 2024, envelhece em imburana, outra madeira brasileira. Haroldo Narciso planeja ampliar a série com edições em ipê e castanheira.

Produtor deste artigo

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Famigerada

Mato Verde, MG
Quem assina

O autor

Ana Paula Palazi
Autor · Comunidade Mapa da Cachaça
Ana Paula Palazi é jornalista pela PUC-Campinas, mestra em Divulgação Científica e Cultural e especialista em Jornalismo Científico pela Unicamp. Atuou por dez anos como produtora e repórter de telejornal. Foi repórter de rede em emissora afiliada da Record TV, de 2016 a 2020. É produtora de conteúdo, atuando em trabalhos sobre cachaça, inovação e empreendedorismo.
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