Imburana, Amburana ou Umburana? A história por trás do nome

  • Publicado 1 ano atrás

Haroldo Narciso, da cachaça Famigerada, me explicou a origem e o significado dos nomes imburana, amburana e umburana, e como essa árvore brasileira carrega a história dos povos indígenas e da cachaça.

Amburana, imburana ou umburana?

A Amburana cearensis é uma árvore brasileira cuja madeira é amplamente utilizada para armazenar ou envelhecer cachaça. Com aromas florais adocicados e notas especiadas que remetem a baunilha, cravo e canela, tornou-se uma das preferidas dos apreciadores de cachaça e também passou a ser usada na produção de cervejas e até whiskies estrangeiros.

Durante meus anos de pesquisa sobre cachaça, sempre me referi a essa árvore como amburana, baseada no seu nome científico. Mas foi conversando com o produtor e estudioso da história brasileira, Haroldo Narciso, da cachaça Famigerada, que percebi como a escolha do nome vai muito além do rigor científico: ela carrega histórias e significados profundamente ligados às raízes brasileiras.

Haroldo me explicou que o nome imburana tem origem na sabedoria indígena, especialmente dos povos que habitavam a Caatinga. Em tempos de seca, eles buscavam uma árvore sagrada, o Y-Mb-u, que além de dar deliciosos frutos cítricos (imbu), também é conhecida como “árvore de água” ou “árvore que mata a sede”, por armazenar água em suas raízes, chamadas de “batatas d’água”. Quando encontraram uma árvore semelhante ao imbuzeiro (Spondias tuberosa L.), mas sem a capacidade de armazenar água, deram a ela o sufixo “rana”, que significa “parecida”. Assim nasceu o nome imburana.

A variação umburana surge do sotaque de diferentes povos indígenas, especialmente nas regiões onde o fruto do imbu é chamado de umbu. Já amburana foi a designação registrada pelo botânico alemão Carl August Wilhelm Schwacke (1848-1904), sem levar em conta a origem indígena do termo e para nomear de uma outra espécie de árvore brasileira (amburana cearensis).

Essa história revela muito mais do que a etimologia de um nome: ela fala sobre o encontro de culturas, a sabedoria nativa e a apropriação de significados. Hoje, reconheço que usar imburana ou umburana é uma forma de resgatar as origens brasileiras e honrar a história dos povos que primeiro entenderam o valor dessas árvores. Afinal, mesmo sem as “batatas d’água” do imbuzeiro para matar a sede, a imburana ainda tem papéis fundamentais: além de suas propriedades medicinais e religiosas nas garrafadas, a madeira leva os aromas, sabores e histórias do Brasil nas suas composições com cachaça.

“Soltem um cálice de branquinha potabilíssima de Januária, que está com um naco de umburana macerando no fundo da garrafa!…”

Sagarana, no conto “Minha Gente”, de Guimarães Rosa

Agradeço ao Haroldo por me trazer esses ensinamentos que resgatam o significado das nossas raízes. Vivemos em um país e território que foi colonizado, e, muitas vezes, acabamos nos distanciando das histórias que nos formam por conta das imposições do colonizador. Agora, ao tomar uma taça de cachaça envelhecida em imburana, a experiência vai além do sensorial. Ela me transporta para o sertão do semiárido, onde as raízes das árvores brasileiras contam histórias de sobrevivência e sabedoria. E, junto com o aroma e o sabor, vem a imagem do povo originário de Pindorama, que primeiro entendeu e celebrou a generosidade dessas terras.


Para ver todas as cachaças cadastradas em barris ou dornas de imburana, umburana ou amburana veja todas as cachaças mapeadas no Mapa da Cachaça nesta madeira brasileira.

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Em 2010, Felipe Jannuzzi fundou o Mapa da Cachaça, premiado projeto cultural com reconhecimento internacional e a principal referência sobre cachaça no mundo. Felipe é um dos sócios fundadores da Espíritos Brasileiros, empresa pioneira no mercado de produção de gin no Brasil, responsável pelo premiado Virga, primeiro gin artesanal brasileiro e o único no mundo que leva doses de cachaça na receita. Desde 2021, é um dos sócios da BR-ME, empresa especializada em produtos brasileiros, como vinhos, cafés, azeites, queijos e chocolates.