Fazer Caipirinha não é algo tão simples como as pessoas pensam. O limão taiti é bastante acessível no Brasil e em países tropicais, mas encontrar um mero limãozinho no Hemisfério Norte pode ser tarefa difícil e cara. E quando a fruta está disponível, para azedar a bebida basta macerar demais a casca. Causar uma ressaca dos infernos então, nem precisa de muito, apenas a cachaça errada e muito açúcar para disfarçar.
Em compensação, o Rabo de Galo tem um potencial de replicação e padronização muito maior. Partindo de uma receita: uma parte cachaça, 1/2 Cynar, 1/2 vermute rosso, misturando bebidas engarrafadas as variáveis que conduzem ao erro são muito menores.
Nossa tese, é que o Rabo de Galo pode ser o melhor drinque para a cachaça conquistar o mercado mundial. Abaixo trazemos nossos argumentos.

O Rabo de Galo além de ter uma receita relativamente simples tem seus ingredientes disponíveis em qualquer lugar do mundo – gelo, bitter, vermute e uma boa cachaça são ingredientes que podem ser encontrados nas principais capitais mundiais. Para ornar e agregar mais aroma, dá para colocar um twist com uma casquinha de limão taiti, mas é uma finalização simples e sem muito protagonismo para a fruta, ao contrário da Caipirinha.
E quem acha que o coquetel tem menos cultura do que a Caipirinha está muito equivocado. O Rabo de Galo é típico dos botequins e pés-sujos há muito tempo. Surgiu junto à imigração italiana em São Paulo, de uma necessidade de se aproveitar a cachaça, desde sempre a bebida mais barata dos balcões, junto ao vermute que começava a chegar via Cinzano.
Com o tempo, a cachaça se sofisticou, sua qualidade melhorou e já é ingrediente fundamental nos principais bares do mundo. O Rabo de Galo acompanhou essa evolução, ganhando presença em cardápios que vão do boteco mais simples ao mais estrelado restaurante brasileiro.
O Rabo de Galo é um coquetel gostoso, ideal para quem já gosta de coquetéis mais encorpados e alcoólicos, como o Negroni – um dos coquetéis mais consumidos do mundo! Com a diversidade de cachaças, bitters e vermutes no mercado, o Rabo de Galo também ganha complexidade de receitas, com cada bartender podendo escolher sua versão ideal.
A receita clássica do Rabo de Galo merece uma boa cachaça, um bom vermute e, assim como formalizado pela IBA (International Bartender Association), o coquetel precisa levar na sua receita Cynar, italiano à base de alcachofra, com sabor amargo e levemente adocicado.


Para preparar o melhor drinque, cada bartender coloca sua marca pessoal, ajustando o vermute rosso, o bitter e experimentando com diversos estilos de cachaça, especialmente as amadeiradas, que enriquecem o sabor do coquetel. A seguir, apresentamos três receitas autorais que elevam o Rabo de Galo a outro nível.


O Rabo de Galo sempre foi marginalizado, era coisa de pé-sujo. Então, por meio de um movimento de orgulho e valorização das nossas tradições, os bartenders começaram a conquistar mais autonomia para afinar as cartas de drinques. Eles começaram a colocar ideias mais autorais na pauta do dia. Agora, que o Rabo de Galo já está em várias cartas, o cliente já olha pro coquetel de cachaça e vermute e começa a entender o que seria uma coquetelaria brasileira. O bartender começou a reproduzir a receita utilizando mais técnica, como servir na temperatura correta com gelo cristal e outras guarnições que enaltecem a bebida.
O Rabo de Galo se apresenta como uma alternativa poderosa para a internacionalização da cachaça e pode ser o melhor drinque para essa tarefa. Ele alia acessibilidade de ingredientes, simplicidade de execução e uma conexão cultural rica com as raízes brasileiras. Enquanto a Caipirinha enfrenta barreiras práticas e de sabor em mercados estrangeiros, o Rabo de Galo surge como uma opção mais versátil e adaptável, capaz de carregar a identidade da cachaça para os balcões do mundo inteiro. É um coquetel que, ao mesmo tempo, respeita o passado e projeta o futuro da coquetelaria brasileira, reafirmando a cachaça como protagonista.
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Em 2010, Felipe Jannuzzi fundou o Mapa da Cachaça, premiado projeto cultural com reconhecimento internacional e a principal referência sobre cachaça no mundo. Felipe é um dos sócios fundadores da Espíritos Brasileiros, empresa pioneira no mercado de produção de gin no Brasil, responsável pelo premiado Virga, primeiro gin artesanal brasileiro e o único no mundo que leva doses de cachaça na receita. Desde 2021, é um dos sócios da BR-ME, empresa especializada em produtos brasileiros, como vinhos, cafés, azeites, queijos e chocolates.
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