Cachaça Margô, primor no carvalho americano e inovação com a teca

  • Publicado 1 ano atrás

Descubra a história da Cachaça Margô, produzida na Fazenda Engenho Jatobá, em Sales Oliveira (SP). Com foco em qualidade e inovação, a marca se destaca pelo envelhecimento em carvalho e teca, garantindo sabores únicos.

A região de Ribeirão Preto (SP) é uma das referências no cultivo da cana de açúcar, com cerca de 360 mil hectares de plantio nos campos da região e uma produção anual em torno de 36 milhões de toneladas. E é nessa região que fica o município de Sales Oliveira, onde está localizada a Fazenda Engenho Jatobá, casa da cachaça Margô.

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Nome da fazenda foi inspirado no enorme Jatobá localizado próximo ao alambique

Já tradicional no fornecimento de cana de açúcar para usinas da região, a Fazenda, uma propriedade familiar com cerca de 150 hectares, passou a produzir a cachaça Margô em 2015. Segundo conta Fernando Margarido, agrônomo, responsável técnico e proprietário do alambique, a ideia de produzir cachaça veio de seu pai, Aluízio Margarido, que gostava de tomar uma cachacinha aos sábados antes do almoço.

Canavial da cachaça Margô
Canavial da cachaça Margô, região é uma das principais produtores de cana-de-açúcar do mundo.

“Foi ele que me sugeriu montar um alambique. Na Europa é comum que produtores rurais tenham seus produtos para vender, seja um queijo, uma bebida. Então decidi produzir a cachaça, fazendo com um alambique pequeno e com a intenção de não produzir em grande escala”,

explica Fernando Margarido sobre o início da cachaça Margô.

Desde então, a proposta da destilaria tem sido mantida, produzindo a cachaça em alambique de cobre de 200 litros e gerando uma produção anual de 4.000 litros, de forma a ser possível, segundo o produtor, garantir um padrão de qualidade constante de acordo com o seu objetivo, que é uma bebida com baixa acidez e alta complexidade sensorial.

Fermentação com leveduras selecionadas e destilação mais lenta

Fernando é contundente em afirmar que “para se produzir a melhor cachaça do mundo, é preciso ter a melhor cana do mundo”.  A fim de garantir um diferencial na matéria-prima, para a produção da Margô, a colheita da cana é feita de acordo com a sazonalidade considerada ideal, entre maio e agosto, garantindo o período de auge do açúcar.

O corte da cana, assim como a despalha, são feitos manualmente, sem processo de queima. A moagem é feita no mesmo dia e seu caldo inserido imediatamente para início da fermentação, feita com auxílio da levedura CA-11 e em três dornas de inox abertas.

A destilação é realizada em fogo indireto com lenha retirada da própria fazenda, gerando uma destilação mais lenta que, segundo o produtor, resulta numa melhor separação entre cabeça, coração e cauda. Somente o coração é usado na produção da cachaça.

Em todo o processo de produção estão envolvidos quatro profissionais: um mestre alambiqueiro, o Edivaldo, e dois profissionais de campo para corte e moagem, além de Fernando. As análises são feitas na Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” da Universidade de São Paulo (ESALQ-USP) e também em um laboratório de São José do Rio Preto.

Edivaldo mestre alambiqueiro da cachaça Margô
O alambique da Margô e Edivaldo, o mestre alambiqueiro

Foco nas cachaças envelhecidas, principalmente no carvalho americano

Os 4.000 litros produzidos por ano resultam em cinco tipos de cachaças: a Margô Prata, uma cachaça monodestilda em alambique de cobre. Seu período de descanso é de seis a oito meses em tanque inox.

A Margô Ouro é um blend de cachaça envelhecida em tonéis de carvalho americano com cachaça branca e passa por um envelhecimento que vai de 12 a até 18 meses. Com período de envelhecimento de no mínimo 18 meses e podendo chegar a até três anos, a Margô Premium é envelhecida em tonéis de carvalho americano.

A única cachaça bidestilada produzida na Fazenda Engenho Jatobá, a Margô Extra Premium, é envelhecida em tonéis de carvalho americano virgens por mais de três anos ou por seis anos, caso o barril tenha sido previamente utilizado. Com produção exclusiva e limitada, cada garrafa é numerada e traz informações detalhadas, incluindo o barril de envelhecimento, o nível de tosta, o número de usos do barril, o tempo de maturação e a safra.

Fernando é um entusiasta das cachaças envelhecidas e gosta de ressaltar o diferencial e a riqueza deste tipo de processo na elaboração da bebida, assim como as possibilidades de inovação.

“Essa é uma riqueza que a cachaça tem e você não vê no uísque, por exemplo. No uísque você varia algumas variedades de carvalho, o americano, francês, do oeste europeu, que tem pouca diferença. Já na cachaça, você tem mais de 20, 30 madeiras que são usadas, fora os blends”,

enaltece Fernando Magarido

Teca, a inovação da cachaça Margô

A quinta cachaça produzida é a Margô Teca, um produto diferenciado e único no mercado, sendo envelhecida por cerca de três anos em barris feitos com a madeira dessa árvore, nativa do Sudeste Asiático e introduzida no Brasil no início do século passado.

árvore de teca na cachaça Margô
As árvores de teca, grande inovação de Fernando para trazer um apimentando a mais para a cachaça Margô

O uso da madeira de Teca para o envelhecimento da cachaça foi um pouco por acaso, tendo sido sugestão de um consultor a Fernando ao notar a abundância da árvore nos entornos do alambique da Fazenda Engenho Jatobá. Antes do uso, foram realizados testes para garantir que não havia nenhum risco tóxico ao envelhecer a cachaça na madeira.

“É uma madeira que só nós temos no processo de envelhecimento, e ela tem uma característica muito interessante que o seu grau apimentado. Isso chama muito a atenção de quem a bebe”,

comenta Fernando.

Em busca de uma assinatura única com madeiras brasileiras e exóticas

O grande diferencial da cachaça Margô está no uso primoroso do carvalho tostado e no domínio dos blends com essa madeira importada, garantindo um sabor marcante à bebida. A busca por inovação continua, e no horizonte há a promessa de um novo e ousado experimento: um blend de quatro madeiras—Amburana, Bálsamo, Carvalho e Teca—que promete um caráter apimentado e ainda mais complexo. Segundo Fernando, essa ideia ainda está sendo amadurecida, mas tem potencial para se tornar realidade.

Desafios como a replicação de blends devido às variações naturais da madeira são encarados com seriedade, mas também como uma oportunidade de criação de produtos únicos. A Margô segue valorizando o envelhecimento da cachaça em carvalho, mas sem deixar de lado a experimentação com madeiras nacionais e exóticas, como a teca, consolidando-se como uma marca inovadora e em busca de sua identidade própria no universo da cachaça de alambique.

André Gobi, historiador e jornalista científico, escreve sobre as principais destilarias de cachaça no Brasil para o Mapa da Cachaça, explorando cultura e tradição