A Dose Clássica não nasceu de um plano de marketing nem de uma herança centenária passada de pai para filho. Sua história começa na curiosidade do produtor em compreender o processo e amadurece na decisão de só produzir quando tivesse segurança de ter encontrado a receita certa para uma cachaça de qualidade.
Talvez seja justamente essa postura que torne a Dose Clássica uma produção singular. Ao longo de mais de quatro décadas, o projeto evoluiu até chegar à receita atual, construída com método, tentativa e erro e muita observação — um percurso que ajuda a reafirmar o Espírito Santo como um dos grandes polos da cachaça de alambique.
No início dos anos 1980, Ralphe Nolasco comprou um alambique de aço inoxidável sem conhecer de fato o processo de destilação. A comunicação era precária, o acesso à informação técnica era limitado e a produção, como se poderia esperar, não funcionou. O equipamento acabou esquecido por quase vinte anos.
Quando o projeto foi retomado, já nos anos 2000, a cena foi quase caricata: um funcionário encontrou o alambique parado e resolveu tentar fazer cachaça. O primeiro teste ignorou completamente a separação de cabeça, coração e cauda. O resultado foi servido em um churrasco para amigos de Ralphe, que reagiram sem piedade. O veredicto foi unânime: aquela era, possivelmente, a pior cachaça que já haviam provado. O garrafão de cinco litros não sobreviveu ao dia e foi pro ralo.
O episódio, longe de encerrar a história, estabeleceu sua regra fundamental:
Ou a cachaça seria boa — tecnicamente boa, sensorialmente correta — ou não existiria.
Ralphe Nolasco, produtor da Dose Clássica
A partir daí, o projeto passa a ser guiado por uma busca meticulosa por conhecimento.

Ralphe cercou-se de especialistas e encontrou no químico Eugênio Del Pupo um parceiro essencial, presente até hoje. Juntos, começaram a visitar alambiques no Espírito Santo, observando o que funcionava, o que dava errado e, principalmente, o que não deveria ser feito. Não se tratava de copiar modelos, mas de entender processos.
Um dos primeiros grandes diferenciais da Dose Clássica surge ainda na fermentação. As dornas inicialmente utilizadas eram altas, como manda o padrão mais comum do mercado. Com o tempo, foram substituídas por dornas baixas, de boca larga, encomendadas sob medida na D&R Alambiques e Cobres. O desenho fugia do convencional, mas atende a uma lógica precisa: maior superfície de contato, melhor troca térmica e mais controle sobre a fermentação.

Essas dornas tem controle de temperatura e mantidas a 20 °C, algo que garante melhores resultados na fermentação. A temperatura constante reduz picos indesejados, diminui a formação de defeitos e permite uma fermentação mais previsível. Não se utilizam antibióticos, antiespumantes ou substratos naturais ou artificiais. Hoje, a fermentação ocorre exclusivamente a partir de leveduras selecionadas da própria cana.
Em 2005, um novo ponto de inflexão. O professor Rogélio Brandão, especialista em fermentação, analisou a produção e foi direto: a cachaça era boa, mas podia melhorar. Naquele momento, a fermentação ainda utilizava levedura comercial (Fermodol da AEB Group), e a acidez excessiva persistia, apesar de inúmeros testes com diferentes substratos — arroz, fubá, uva Niágara e outros. Nada resolvia.
A resposta veio da ciência e da observação do ambiente. A levedura selecionada a partir do próprio meio do alambique passou a ser estudada. Ao contrário do que se imaginava, o problema não estava apenas nos ingredientes, mas na interação entre cana, levedura e território. A partir desse entendimento, a Dose Clássica abandona completamente o uso de leveduras comerciais e passa a trabalhar com um processo focado na microbiologia local.



A produção acontece em Aracruz, uma região marcada pela proximidade com o mar. A maresia interfere diretamente na cana-de-açúcar, deixando-a com uma película oleosa natural. Aqui surge outra decisão pouco comum: a cana não é lavada antes da moagem para manter as propriedades presentes na planta, como seus microorganismos. A levedura local presente na cana, ao entrar em contato com o caldo, “limpa” o meio durante a fermentação, eliminando leveduras indesejadas e marcando sua prevalência
Diversas variedades de cana foram testadas ao longo dos anos, vindas de diferentes regiões. A que melhor se adaptou ao clima de Aracruz foi a popularmente chamada de Nega Pelada, uma variedade rústica, de coloração avermelhada, que não emite pendão (flor da cana-de-açúcar) e perde naturalmente suas folhas. Em um terreno que seca rápido e sofre com escassez hídrica, essa adaptação faz toda a diferença. O projeto prevê, inclusive, a abertura de novas áreas de plantio e a perfuração de poços artesianos para garantir segurança produtiva no futuro.
A destilação é feita em alambique de fogo direto. O aquecimento direto exige atenção constante e experiência, mas permite respostas mais rápidas às variações do mosto. Aqui, a técnica não elimina o fator humano — ela o exige muito.
Um dos princípios mais inegociáveis da Dose Clássica é a não diluição da cachaça com água. A graduação alcoólica final não é ajustada artificialmente após a destilação. Ela chega ao ponto desejado com o tempo, seja em inox, seja na madeira. Para Ralphe, esse detalhe é central: a água pode contribuir com a padronização e aumentar volume de produção, mas também dilui estrutura, textura e identidade — a lógica aqui é da mínima intervenção após a destilação.
A produção anual gira entre 30 e 40 mil litros, sempre em pequenas bateladas.



A Dose Clássica construiu parte importante de sua identidade explorando madeiras brasileiras: castanha-do-pará, amburana, bálsamo e jequitibá-rosa foram utilizadas ao longo dos anos, sempre com atenção ao impacto sensorial e ao tempo de descanso. A castanha-do-pará, em especial, ocupa um lugar afetivo e histórico no projeto, sendo uma das primeiras experiências bem-sucedidas da marca.

Além das madeiras nacionais, a cachaça também repousa em barris de jaqueira e de carvalho americano da ISC, com tostas 1, 2, 3 e 4. A lógica não é padronizar, mas compreender como cada nível de tosta dialoga com o destilado base. Na adega de Aracruz, uma cachaça a 45% pode perder de 1% a 2% de álcool por ano (Angel´s Share) no barril — um dado que, longe de ser visto como perda, é tratado como parte do processo.
Nos últimos anos, a Dose Clássica entrou em uma nova fase. A colaboração com o mestre de adega Nelson Duarte trouxe um olhar externo e técnico para o desenvolvimento de blends, resultando em lançamentos apresentados em feiras como a Expocachaça.
Em 2024, a marca lançou uma aguardente a 50% de álcool, que conquistou medalha no Concurso Cata d’Or — um feito raro para uma branca nessa graduação intensa. A aguardente branca da casa, aliás, tornou-se um dos grandes orgulhos da marca, sendo reconhecida como a melhor do concurso em sua categoria.




A Dose Clássica não tenta ser didática no rótulo nem exuberante na comunicação. Sua história se revela aos poucos, em quem pergunta, visita, prova com atenção. É uma cachaça que aposta na técnica e nas convicções do seu produtor como ferramentas de expressão.
Ao olhar para trás, fica claro que cada erro inicial, cada teste frustrado e cada garrafão descartado ajudaram a construir um método próprio, e às vezes contradizendo a visão de outros especialistas, como aqueles que julgavam ser impossível produzir cachaça no clima seco de Aracruz.
Não há na Dose Clássica a pressa do mercado nem o discurso fácil da tradição vazia. Há, sim, um projeto que entende a produção de cachaça como um processo de constante evolução. Nós, especialistas e apreciadores de destilados, somos privilegiados em estar num momento de mercado quando conseguimos observar as estruturas de uma marca se estabelecendo e se firmando ao longo dos anos.
No fim, a Dose Clássica mostra que fazer cachaça não é apenas repetir um ritual, mas tomar decisões difíceis baseadas na busca do seu produtor em encontrar soluções para diferentes problemas. Nos 40 anos desde das primeiras destilações frustradas, a Dose Clássica encontrou sua identidade e caminho para se estabelecer como uma das principais cachaças capixabas – estado que tem se destacado com um dos principais pólos produtores de cachaças especiais.

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Em 2010, Felipe Jannuzzi fundou o Mapa da Cachaça, premiado projeto cultural com reconhecimento internacional e a principal referência sobre cachaça no mundo. Felipe é um dos sócios fundadores da Espíritos Brasileiros, empresa pioneira no mercado de produção de gin no Brasil, responsável pelo premiado Virga, primeiro gin artesanal brasileiro e o único no mundo que leva doses de cachaça na receita. Desde 2021, é um dos sócios da BR-ME, empresa especializada em produtos brasileiros, como vinhos, cafés, azeites, queijos e chocolates.
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