Engenheiro mecânico trocou multinacionais para transformar um antigo casarão, dos tempos dos barões do café, em boutique na arte de envelhecer cachaças no interior de São Paulo
O que conecta um engenheiro mecânico, uma antiga propriedade cafeeira e o renascimento de um casarão centenário no interior paulista? A resposta está engarrafada, aromática e cheia de história: Nhá Dita, uma cachaça de alambique desenvolvida em Mogi Guaçu, há 160 quilômetros da capital São Paulo. A marca nasceu da inquietação criativa de José Godoi, que após uma carreira sólida em multinacionais, como Motorola e Samsung, decidiu trocar os circuitos eletrônicos pelos barris de madeira.
O despertar veio em 2017, numa viagem de férias a Mendoza, na Argentina. Encantado com o processo de maturação dos vinhos, José viu na interação da madeira com a bebida algo fascinante. “No avião, voltando pra casa, falei pra minha esposa: vou envelhecer cachaça”, lembra.
A decisão pode parecer aleatória, mas o cenário para essa transformação já estava pronto. Meses antes, o casal havia adquirido um sítio com um casarão em ruínas, construído entre 1850 e 1870. Com paredes de pedra e um porão parcialmente subterrâneo, o local oferecia condições ideais de temperatura e umidade para o envelhecimento natural de bebidas. O que começou como um passatempo se transformou em negócio: uma boutique de cachaça.
“No início, era só curiosidade. Eu comprava cachaça de amigos e envelhecia em barris pequenos de vinte litros, e assim fui me apaixonando pelo processo”, conta José. Sem encontrar muito material sobre envelhecimento de cachaça, o produtor da Nhá DIta mergulhou em literaturas internacionais sobre envelhecimento de uísque, de bourbon e outros destilados.
“A madeira era o elo comum. Fiz disso meu laboratório.”
José Godoi, produtor da Nhá Dita
Raízes da cachaça Nhá Dita: história, família e memória
A propriedade escolhida para esse novo capítulo está conectada às raízes da família da esposa de José, vizinha de um antigo sítio que pertencera ao avô dela. O casarão remete aos tempos áureos do café, quando o interior paulista era movido pelo “ouro verde”. Durante a restauração, o casal fez questão de manter a essência e o charme da construção. O porão virou adega e, ali, nasceu a Nhá Dita — nome que carrega a memória da tataravó de José, Benedita Mendes da Silva.
A escolha da marca veio de forma também inusitada: em um sonho, José viu nitidamente o rosto da matriarca — com óculos e em uma pose específica. Ao acordar, procurou por fotos antigas da tataravó com os parentes e, após muita busca, encontrou a imagem exata, que estava guardada com a mãe. No colo de Nhá Dita, na foto original, está ele mesmo, ainda bebê.
“Ela apareceu para mim no sonho. Quando encontramos a foto, estava espelhada, algo comum nas revelações da época e decidimos usar exatamente como sonhei. Não quis discutir com o sonho”, brinca o produtor. A família aprovou a homenagem que virou identidade da marca.
Madeiras brasileiras, alma da cachaça Nhá Dita
Um dos pilares da cachaça Nhá Dita está no uso de madeiras brasileiras, algumas pouco comuns no envelhecimento de cachaça no estado de São Paulo, como é o caso do freijó, madeira típica da Amazônia.
“Eu buscava quatro barris de jequitibá, mas o tanoeiro só tinha três. Foi assim que conheci a madeira de freijó, que me rendeu medalha de prata no primeiro Concurso Estadual de Qualidade da Cachaça Paulista”,
lembra José.
Além do freijó, descoberto por acaso na conversa com o tanoeiro, a cachaça Nhá Dita trabalha com amburana, jequitibá e carvalho francês — a única madeira importada. Todos os barris foram adquiridos novos, de 200 a 225 litros, e provenientes de fontes legais e ambientalmente sustentáveis. Hoje, a cachaça Nhá Dita já conta com sete produtos — incluindo uma cachaça prata descansada por seis meses em inox, que rendeu medalha de ouro também no primeiro Concurso Estadual de Qualidade da Cachaça Paulista.
“Não uso barris reaproveitados, que já receberam outras bebidas. Não quero mascarar minha cachaça com aromas de bourbon, uísque ou vinho. Quero mostrar tudo o que a madeira tem a oferecer para a cachaça”,
afirma o produtor da cachaça Nhá Dita.
Microlotes Nhá Dita e infusões de cachaça com raízes locais
Na pequena adega de pedra, cada barril é tratado como se fosse um capítulo inédito de um livro ainda sendo escrito. Ali, repousam cerca de 5 mil litros de cachaça em diferentes estágios de maturação — um processo que José acompanha com o rigor de um engenheiro e a paciência de um artesão.
O crescimento da produção não segue metas aceleradas: é pensado com calma, quase como se obedecesse ao ritmo silencioso da madeira respirando no escuro. Diferente do passado de prazos apertados e cronogramas industriais, hoje José encontra prazer nas minúcias — como o hábito de registrar manualmente as variações de umidade e temperatura da adega. Um ritual silencioso, quase meditativo.
As aguardentes compostas do produtor também carregam essa alma curiosa e experimental. Cascas, raízes e especiarias compõem uma paleta de sabores que foge do convencional. Um dos exemplos mais ousados é a aguardente composta com cúrcuma, feita a partir da raiz que brota espontaneamente no quintal do sítio, conhecida pelo sabor terroso e propriedades medicinais.
“Minha esposa costuma colocar cúrcuma no arroz, e um dia me perguntei: será que daria certo na cachaça? Fui testando tinturas, lote por lote, até encontrar o equilíbrio entre o terroso da raiz e a doçura da cachaça de freijó”, conta José.
Com a contribuição de familiares, José também traz aguardentes compostas para o portfólio da Nhá Dita
O resultado é uma bebida de personalidade botânica marcante. Já a infusão de cachaça envelhecida em jequitibá com canela, nascida de um pedido do filho, virou uma das aguardentes compostas mais queridas da casa. Detalhe é que não tem adição de açúcar
Mesmo sendo pequenos, os lotes da Nhá Dita passam por um controle rigoroso de qualidade. As análises são feitas com apoio da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (Esalq) e a cachaça só entra nos barris depois de laudo técnico atestando conformidade dentro dos padrões esperados.
Cachaça Nhá Dita Ember: a marcenaria líquida
O projeto mais ambicioso de José atende pelo nome de The Ember Collection — referência à brasa, símbolo do “calor” lento que a madeira imprime à bebida, mas que na realidade surgiu de uma experiência de harmonização de cachaças com charutos.
A linha premium, em edição limitada, reúne cachaças envelhecidas por três anos em uma mistura de barris novos tostados e não tostados. Mas o detalhe que primeiro chama atenção está do lado de fora: os rótulos são feitos com a mesma madeira do barril, em lâminas naturais, que levam uma cuidadosa impressão de tinta e depois são coladas enriquecendo a garrafa.
Linha especial da Nhá Dita tem os rótulos feitos com a mesma madeira do barril
“Levei meses para acertar a técnica de impressão. As lâminas naturais possuem variação, similar ao que acontece com os barris, os rótulos são quase únicos”,
resume o produtor da Nhá Dita.
A proposta é oferecer uma experiência sensorial completa — do visual ao olfato, do paladar à narrativa. Ideal para harmonizar com charutos, pratos sofisticados ou apenas ser apreciada lentamente, garante o produtor.
A nova fase da cachaça Nhá Dita: plantio, destilação e visitação
Cachaças e aguardentes compostas produzidas na destilaria de Mogi Guaçu
Depois de controlar a arte do envelhecimento, José começou a desvendar a alquimia da destilação. Os experimentos ocorrem paralelamente enquanto ele prepara o sítio para as novas fases da cachaça Nhá Dita.
Apesar de ainda contar com parceiros para a base da produção, José já fez o estudo de solo e iniciou o plantio de um canavial próprio. Outro projeto em andamento é a exportação: a marca já negocia com possíveis parceiros nos Estados Unidos para levar a Nhá Dita além das fronteiras brasileiras.
Enquanto isso, quem quiser mergulhar nesse universo pode agendar uma visita ao sítio Santo Antonio, em Mogi Guaçu. O passeio inclui o casarão restaurado do século XIX, a charmosa adega de pedra onde os barris descansam e, claro, a oportunidade de conhecer de perto as criações dessa boutique de cachaças no interior de São Paulo.
Ana Paula Palazi é jornalista pela PUC-Campinas, mestra em Divulgação Científica e Cultural e especialista em Jornalismo Científico pela Unicamp. Atuou por dez anos como produtora e repórter de telejornal. Foi repórter de rede em emissora afiliada da Record TV, de 2016 a 2020. É produtora de conteúdo, atuando em trabalhos sobre cachaça, inovação e empreendedorismo.
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