Areia (PB) conquista Indicação Geográfica e reafirma seu lugar na história da cachaça

  • Publicado 4 semanas atrás

Areia (PB) conquista a Indicação Geográfica da cachaça, reconhecendo séculos de história, engenhos tradicionais, produção formal e turismo no Brejo Paraibano.

O reconhecimento de Areia, no Brejo Paraibano, como Indicação Geográfica (IG) da cachaça consolida um território cuja história está profundamente ligada à formação econômica, cultural e social da região. Mais do que um selo, a IG formaliza uma trajetória construída ao longo de séculos, marcada pela relação entre a cana-de-açúcar, os engenhos, a paisagem e o saber-fazer transmitido entre gerações.

Situada no topo da Serra da Borborema, a cerca de 600 metros de altitude, Areia reúne condições naturais que favoreceram, desde o período colonial, a instalação de engenhos: clima mais ameno, solos férteis, boa disponibilidade hídrica e relevo adequado ao cultivo da cana. Inserida no Brejo Paraibano, a cidade integrou um dos núcleos mais importantes da economia açucareira regional e manteve a cana como atividade contínua, mesmo diante das mudanças nos ciclos produtivos ao longo do tempo.

Selo da Areia na Paraíba

A história da cachaça no Brejo Paraibano

Os primeiros registros de engenhos em Areia remontam à segunda metade do século XVIII. Inicialmente voltados à produção de açúcar, esses estabelecimentos rapidamente passaram a priorizar a fabricação de cachaça e rapadura, produtos mais adaptados à realidade logística da região e ao mercado interno. Ao longo do século XIX, os engenhos se tornaram o principal motor econômico do município, influenciando diretamente sua urbanização e a consolidação de Areia como um dos centros mais relevantes da Paraíba naquele período.

Essa relação entre campo e cidade permanece visível até hoje. O núcleo urbano de Areia é tombado como Patrimônio Histórico Nacional, com um conjunto arquitetônico dos séculos XVIII e XIX que reflete a prosperidade gerada pelos engenhos. Ao redor da cidade, muitos desses estabelecimentos seguem em atividade, preservando estruturas, técnicas produtivas e práticas culturais ligadas à cachaça.

Ao longo do século XX, a atividade enfrentou períodos de retração, especialmente com a concentração produtiva em grandes usinas e as transformações no mercado. Muitos engenhos desapareceram, mas Areia manteve viva sua tradição. Os que resistiram passaram por processos de adaptação e modernização, preservando o caráter artesanal da produção e fortalecendo, gradualmente, a reputação da região como um dos principais polos de cachaça do país.

A retomada dos engenhos de Areia

De acordo com a documentação apresentada pela Associação dos Produtores de Cachaça de Areia (APCA), o município ganhou projeção nacional a partir da década de 1990, quando os engenhos locais iniciaram um movimento estruturado de qualificação. Esse processo envolveu investimentos em melhoria técnica, padronização produtiva, identidade visual dos rótulos e posicionamento de mercado, além de ações de marketing e participação em concursos. Essa estratégia foi decisiva para ampliar a visibilidade da cachaça de Areia e consolidar sua imagem como produto de qualidade reconhecida.

Atualmente, Areia reúne 28 engenhos devidamente registrados, sendo a uma das principais cidades do Nordeste em número de produtores formais. O município responde por mais de 40% da produção paraibana, desempenhando papel central na cadeia produtiva estadual e movimentando a economia local por meio da geração de renda, emprego e turismo.

Os números ajudam a dimensionar essa relevância. Somente em 2018, Areia produziu cerca de 4,5 milhões de litros de cachaça, volume que demandou cana-de-açúcar também de municípios vizinhos. Essa cadeia produtiva gera mais de 2.500 empregos diretos e indiretos, reforçando o impacto social da atividade no território.

Esse protagonismo local ganha ainda mais força quando observado à luz dos dados nacionais. O Anuário da Cachaça 2025 aponta que o Brasil encerrou 2024 com 1.266 estabelecimentos elaboradores registrados, em crescimento contínuo nos últimos anos. Dentro desse cenário, o Nordeste se destaca como a região com maior crescimento absoluto no número de cachaçarias, além de apresentar a maior produção média por estabelecimento, superior à média nacional. Areia se insere nesse contexto como um território já estruturado, com alto grau de formalização e produção consistente.

Paralelamente à produção, a cachaça se consolidou como eixo do turismo local. Integrados ao roteiro Caminho dos Engenhos, os alambiques da região recebem cerca de 25 mil visitantes por ano, oferecendo experiências que combinam visitas técnicas, degustações, paisagem rural e contato direto com a história. O turismo da cachaça passou a funcionar como ferramenta de valorização cultural, educação do consumidor e diversificação econômica.

O reconhecimento institucional desse protagonismo se ampliou em 2021, quando Areia recebeu da Assembleia Legislativa da Paraíba o título de Capital Paraibana da Cachaça, oficializado pela Lei nº 11.873/2021. A conquista é resultado de um trabalho conjunto entre produtores, associações e o Instituto Federal da Paraíba, reforçando o papel histórico do município como referência na produção artesanal.

A Indicação Geográfica de Areia surge, assim, como a formalização de um processo construído ao longo do tempo. O selo protege o nome do território, reconhece o vínculo entre produto e origem e fortalece a governança coletiva dos produtores. Mais do que um diferencial de mercado, a IG funciona como instrumento de preservação cultural, estímulo à qualidade e projeção da cachaça de Areia para novos públicos.

Para o Mapa da Cachaça, a conquista da IG de Areia reafirma um princípio essencial: valorizar a cachaça é valorizar seus territórios, suas histórias e as pessoas que mantêm viva essa tradição. Em Areia, a cachaça não é apenas um produto — é herança, identidade e expressão legítima de um território que soube transformar história em valor.

Logo Mapa da Cachaça Transparente

O Mapa da Cachaça é um projeto cultural e educativo criado com o objetivo de divulgar e valorizar a cachaça, que é um patrimônio cultural e um dos símbolos da identidade brasileira.