De The Big Bang Theory em 2013, quando a garrafa de cachaça 51 discretamente ocupou um espaço na cozinha da personagem Penny, à recente Missing You na Netflix, é incrível perceber como nossa bebida nacional pode ganhar destaque para audiências globais.

Na icônica série The Big Bang Theory, uma das mais assistidas de sua época, a cachaça não foi protagonista, mas marcou presença como um símbolo de um estilo de vida jovem e descontraído.
Já em Missing You, a cachaça teve um papel de destaque logo no primeiro episódio: a protagonista convida seu parceiro para uma noite regada à bebida, trazendo à cena um toque de sensualidade e sofisticação. A cachaça foi apresentada como uma escolha conectada à celebração e ao prazer. Em um momento divertido, quando o parceiro questiona se a cachaça seria calórica, a protagonista responde com um olhar debochado, reforçando a ideia de que a bebida é parte de uma experiência leve e autêntica, ideal para quem quer algo genuíno, sem modismos.





A personagem Kat Denovan, protagonista de Missing You, é o retrato do consumidor moderno que a série associa à cachaça. Forte, decidida e praticante de meditação, Kat é uma mulher na faixa dos trinta e tantos anos, próxima dos quarenta, financeiramente independente, bem resolvida em sua solteirice e com uma vida sexual ativa. Ela faz parte de um núcleo social diverso e plural, composto por amigos homens, mulheres e pessoas trans, todos igualmente modernos e descolados. Quando Kat decide incluir a cachaça em seu momento de descontração, a série posiciona a bebida como uma escolha alinhada ao estilo de vida desse público jovem-adulto, urbano e em busca de experiências autênticas e prazerosas.
Esses exemplos não são coincidência. Outras categorias de destilados vêm investindo há décadas em parcerias com filmes e séries para criar um imaginário positivo em torno de seus produtos. O gin, o rum e a tequila têm sido promovidos como escolhas elegantes e festivas em produções como The Perfect Couple e Monarca.

A série The Perfect Couple, também da Netflix, estrelada por Nicole Kidman, frequentemente apresenta personagens preparando Gin & Tonic e, em outros momentos, destacando a preparação de um Black Berry Mojito, evidenciando o uso do rum na coquetelaria.


Em Monarca, uma trama que gira em torno de uma família mexicana dona de uma destilaria de tequila, é evidente o cuidado em associar o destilado à tradição, sofisticação e conexão cultural. A cachaça também tem esse potencial e, quando bem trabalhada, pode conquistar os corações e paladares de consumidores mundo afora.
No entanto, os desafios ainda são grandes. Apenas 0,6% do volume total de cachaça produzido no Brasil é exportado, o que correspondeu a cerca de 8,6 milhões de litros em 2023. Esse número gerou US$ 20 milhões em receita. Um valor baixo se compararmos com outras bebidas, a cachaça lá fora ainda não conseguiu se posicionar como uma bebida premium.
Para efeito de comparação, em 2023, a Venezuela exportou 5,5 milhões de litros de rum, arrecadando US$ 44 milhões; os EUA exportaram 177 milhões de litros de whisky, gerando US$ 2,2 bilhões; a França exportou 284 milhões de litros de conhaque, alcançando US$ 3,37 bilhões; e o México liderou com 401,4 milhões de litros de tequila, movimentando US$ 4 bilhões.
Esses números mostram que estamos apenas arranhando a superfície do mercado internacional. É hora da cachaça pisar no acelerador e investir pesado em presença no mainstream, levando nossa cultura e tradição para o mundo. Assim como outras categorias criaram seus espaços, a cachaça também pode e deve ser percebida como um destilado nobre, capaz de contar histórias autênticas e de conquistar novos mercados.
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Em 2010, Felipe Jannuzzi fundou o Mapa da Cachaça, premiado projeto cultural com reconhecimento internacional e a principal referência sobre cachaça no mundo. Felipe é um dos sócios fundadores da Espíritos Brasileiros, empresa pioneira no mercado de produção de gin no Brasil, responsável pelo premiado Virga, primeiro gin artesanal brasileiro e o único no mundo que leva doses de cachaça na receita. Desde 2021, é um dos sócios da BR-ME, empresa especializada em produtos brasileiros, como vinhos, cafés, azeites, queijos e chocolates.