Cachaça: como mudar a percepção e valorizá-la como patrimônio cultural brasileiro?

  • Publicado 1 ano atrás

Descubra como ressignificar a imagem da cachaça, superando estigmas e destacando sua riqueza como patrimônio cultural brasileiro. Saiba como promover a “branquinha” com qualidade e respeito.

A cachaça ainda é um tabu no Brasil: no imaginário popular o destilado brasileiro ainda é associado a estereótipos negativos, como embriaguez, descontrole e cenários pouco valorizados. Esse estigma, apesar de ser combatido por produtores, apreciadores e especialistas, ainda encontra eco em produções audiovisuais e em parte da cobertura midiática. É inegável que tais associações influenciam como a cachaça é percebida, tanto no Brasil quanto no exterior, dificultando sua valorização como patrimônio cultural brasileiro e produto de excelência.

Uma busca rápida na internet, como destacado, mostra um panorama repleto de imagens e vídeos que reforçam clichês desgastados. Muitas vezes, cenas de pessoas embriagadas, situações de precariedade ou até contextos violentos são associadas à bebida. Essa ligação histórica entre cachaça e consumo excessivo, embora baseada em um recorte de realidade, não reflete a complexidade e a riqueza desse patrimônio cultural brasileiro.

placa do museu da cachaça: patrimônio cultural brasileiro

A construção do imaginário

O tabu da cachaça não surgiu do nada. Por muito tempo, ela foi tratada como uma bebida “de segunda linha”, consumida em excesso e em situações precárias. Enquanto isso, outras bebidas, como o uísque e o vinho, foram alçadas ao status de símbolos de sofisticação. Essa dualidade reforçou um preconceito que, até hoje, encontra espaço em discursos populares, na publicidade e na cultura de massa.

O problema não está em reconhecer as origens populares da cachaça, mas em perpetuar uma visão limitada e pejorativa. Essa abordagem contribui para a manutenção de preconceitos que afastam o consumidor de descobrir a complexidade, a história e as possibilidades que a cachaça oferece. Mais grave ainda, reforça a ideia de que a bebida não pode ocupar o mesmo patamar de prestígio de outras bebidas destiladas.

Um novo olhar: educação e representação de um patrimônio cultural brasileiro

Se quisermos transformar essa narrativa, precisamos investir em educação, comunicação e representatividade. Jornalistas, publicitários, chefs, bartenders e influenciadores têm um papel fundamental nesse processo. É preciso ressignificar a cachaça em nossas falas, promovendo sua diversidade e qualidade. A cachaça não é apenas um destilado; ela é o resultado de séculos de tradição, conhecimento e inovação.

Hoje, o mercado da cachaça já apresenta exemplos que podem servir de inspiração. Marcas estão investindo em processos artesanais, envelhecimento em diferentes tipos de madeira, rótulos premium e experiências que unem a bebida à gastronomia. Restaurantes renomados e bares de coquetéis têm incluído a cachaça em receitas sofisticadas, mostrando que ela pode ser a estrela de eventos e encontros de alto nível.

O perigo das imagens negativas e como criar uma nova voz?

Imagens têm poder. Uma cena que associa a cachaça a descontrole ou marginalidade pode impactar profundamente a percepção do público, ofuscando informações positivas que venham em seguida. Quando a mídia inicia uma reportagem com imagens que reforçam estigmas, mesmo que o texto ou a fala posterior enalteçam a bebida, a mensagem inicial muitas vezes prevalece. É preciso cuidado e estratégia na construção dessas narrativas.

Para superar essas barreiras, precisamos nos comprometer com uma nova abordagem. Podemos celebrar as raízes populares da cachaça, mas destacando também sua versatilidade, sua riqueza sensorial e seu papel como patrimônio cultural brasileiro. Histórias de produtores artesanais, técnicas de destilação, processos sustentáveis e harmonizações gastronômicas são exemplos de temas que podem enriquecer a narrativa.

É essencial também combater o preconceito que muitos brasileiros ainda têm contra a própria cultura. A cachaça é um dos produtos mais autênticos do Brasil, e promovê-la de maneira digna e informativa é um ato de valorização da nossa identidade. Seja nos bares, nas mesas de jantar ou em eventos internacionais, ela merece ser tratada com o mesmo respeito que outras bebidas nobres.

A cachaça já conquistou seu espaço em prêmios nacionais e internacionais e nos cardápios de bares sofisticados. A valorização da cachaça não se limita ao destilado puro, mas também se reflete no reconhecimento de coquetéis que a utilizam como base.

Dois exemplos marcantes são a caipirinha e o rabo de galo, ambos incluídos na lista oficial de coquetéis da International Bartender Association (IBA), que define padrões para drinks preparados mundialmente. A caipirinha, já consolidada como um ícone da coquetelaria brasileira, é apreciada por sua simplicidade e frescor. Já o rabo de galo, que mistura cachaça e vermute, ganha cada vez mais espaço como um drink clássico reinventado. Esse reconhecimento global contribui para elevar o status da cachaça e reafirma seu potencial em contextos sofisticados e cosmopolitas.

Porém, para consolidar sua imagem como símbolo de qualidade e autenticidade, é necessário que todos os envolvidos no setor – dos produtores aos comunicadores – adotem um discurso alinhado e inovador. Substituir os clichês por histórias que eduquem, emocionem e inspirem é o caminho para transformar a percepção da “branquinha” e mostrar ao mundo (e a nós mesmos) todo o seu valor.

Renato Figueiredo

Renato é publicitário e mestre em Comunicação pela USP. Escritor, lançou “De Marvada à Bendita” em 2011. Colaborou com o Mapa da Cachaça e coordenou um projeto de branding para a cachaça na Oz Estratégia + Design. Atua há mais de 15 anos com estratégia de marca.