Fermentação espontânea na produção de cachaça

  • Publicado 8 meses atrás

Descubra como a fermentação espontânea com leveduras selvagens da cana garante cachaças autênticas e de qualidade em estudo da ESALQ-USP.

A fermentação é a etapa central na produção da cachaça. É nesse momento que os açúcares do caldo de cana são transformados em álcool e compostos aromáticos que darão identidade à bebida. Entre os diferentes métodos, a fermentação espontânea ocupa um lugar especial: nela, não são adicionadas leveduras industriais ou nutrientes externos. Todo o processo acontece exclusivamente com os microrganismos que habitam a própria cana-de-açúcar e o ambiente do alambique.

Esse trabalho, desenvolvido por Cauré Portugal, da ESALQ-USP, investigou como a fermentação espontânea pode gerar uma cachaça de qualidade, com base em análises microbiológicas, físico-químicas e sensoriais. O objetivo foi compreender o papel das leveduras selvagens e de outras comunidades microbianas que participam desse processo natural.

Fermentação Espontânea

A fermentação espontânea da cachaça, conforme ilustrada no estudo, foi conduzida em condições bem definidas para garantir a análise do processo. O mosto foi preparado a partir de caldo fresco de cana-de-açúcar, sem adição de suplementos, mantendo o caráter natural do terroir microbiano. O mosto apresentava um valor inicial de 16 °Bx, refletindo a concentração de açúcares disponíveis para as leveduras ao longo dos dias de fermentação.

Durante o processo, os parâmetros foram cuidadosamente monitorados: a temperatura controlada em 30 °C favoreceu a atividade das leveduras nativas, enquanto o pH em torno de 3,9 ajudou a limitar o crescimento de microrganismos indesejáveis, preservando as populações responsáveis pela produção de etanol e de compostos aromáticos. Esses fatores — Brix, temperatura, pH e a matéria-prima fresca — foram determinantes para o bom desempenho da fermentação e para a obtenção de uma cachaça equilibrada em termos sensoriais e químicos.

infografico spont ferment cachaca scaled Fermentação espontânea na produção de cachaça

A dinâmica dos microrganismos na fermentação

Durante os seis dias de fermentação, diferentes microrganismos atuam de forma colaborativa.

  • Leveduras selvagens do terroir iniciam a transformação dos açúcares em etanol e participam da formação dos aromas secundários.
  • Bactérias láticas aparecem em baixa concentração, mas têm papel relevante na formação do bouquet aromático, acrescentando complexidade ao perfil final.
  • Bactérias acéticas, responsáveis pela produção de ácido acético (vinagre), também surgem, mas em níveis reduzidos. Quando em excesso, essas bactérias geram defeitos sensoriais e aumentam a acidez da bebida, o que não foi o caso neste estudo.

Entre as principais espécies de leveduras identificadas estão Meyerozyma guilliermondii, Hanseniaspora guilliermondii, Pichia fermentans e, ao final do processo, a conhecida Saccharomyces cerevisiae, que domina a fermentação e garante a finalização da conversão de açúcares em etanol.

Resultados e perfil sensorial da cachaça

O acompanhamento químico mostrou a redução progressiva dos açúcares e a formação de etanol, confirmando a eficiência da fermentação natural. Já os testes sensoriais revelaram uma bebida com perfil limpo, rico em notas frutadas e florais, e dentro dos parâmetros esperados de qualidade.

Quando comparada a cachaças produzidas sem controle rigoroso, a diferença é marcante: a fermentação espontânea bem conduzida resulta em um destilado mais equilibrado, com menor presença de defeitos como solvente, vinagre ou aromas vegetais excessivos.

mapa de aromas da cachaça
É durante a fermentação que são criados os aromas da cachaça branca: ésteres, aldeídos, alcoóis e outros congêneres criados durante esse processo definem o perfil sensorial da cachaça

Ciência e tradição lado a lado

O estudo mostra que a fermentação espontânea não é sinônimo de imprevisibilidade ou baixa qualidade. Pelo contrário: quando bem monitorada, ela reflete o terroir microbiano da cana e contribui para uma cachaça autêntica, marcada pela diversidade de leveduras nativas e pela riqueza aromática que apenas a natureza pode oferecer.

Assim, ciência e tradição se encontram no alambique, revelando que o controle e o conhecimento sobre as populações microbianas são ferramentas valiosas para preservar a identidade sensorial da cachaça e garantir bebidas de excelência.

Bibliografia

PORTUGAL, Cauré; et al. Microbiologia da cachaça: bastidores da fermentação. [S.l.]: [s.n.], [s.d.]. Disponível em: https://www.researchgate.net/profile/Caure-Portugal/publication/295813162_MICROBIOLOGIA_DA_CACHACA_BASTIDORES_DA_FERMENTACAO/links/56cda3ea08ae4d8d64995c4c/MICROBIOLOGIA-DA-CACHACA-BASTIDORES-DA-FERMENTACAO.pdf.

BRIENZO, A. et al. Bioethanol and beyond. [S.l.]: [s.n.], [s.d.]. Disponível em: https://d1wqtxts1xzle7.cloudfront.net/120961334/Bioethanol_and_Beyond_Brienzo.pdf

O Mapa da Cachaça é um projeto cultural e educativo criado com o objetivo de divulgar e valorizar a cachaça, que é um patrimônio cultural e um dos símbolos da identidade brasileira.

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